bueiro, me abrace forte!

domingo, 20 de março de 2011

A visita

Eu passava por mais uma manhã de ressaca quando a campainha tocou. Pensei em não atender, pois visitar alguém em plena manhã de domingo (que normalmente é de ressaca para uma boa parte dos mortais) sem prévio aviso eu considero uma afronta. Chega a ser injusto e desonesto. Por fim, num ato de misericórdia que eu mesma não sabia que poderia vir a ter, resolvi atender. Abri a porta e lá estava ele: um sorriso amarelo e um embrulho nas mãos. À princípio eu tentei fingir ser algum tipo de gêmea má de mim mesma, assim ele ficaria constrangido por eu não ser eu e enfim iria embora do mesmo modo como veio. Mas ele não acreditou na minha performance e quebrou o silêncio (que se dependesse da minha boa vontade seria eterno) perguntando se poderia entrar. Eu continuei muda e com a minha típica cara de paisagem me afastei da porta para que ele entrasse. Sem o menor pudor ele se sentou no meu sofá velho e manchado, como já havia feito tantas outras vezes. Mas fazia muito tempo que essas tantas vezes não se repetiam. Foi assim que me dei conta de que nem ele e nem sofá deveriam estar naquela sala. Continuei em pé tentando entender porque uma força divina está sempre tentando se vingar de mim eu sei lá por qual motivo, mas essa força divina, ah essa força, constantemente se direciona em tortura psicológica contra mim. Tentei enumerar meus grandes pecados e nenhum deles era capaz de se equiparar a tamanho castigo divino. De repente aquele rapaz que agora me era um completo desconhecido começou a contar sobre o tempo em que esteve longe: estudos, empregos, amores. Falou e falou sem pausa, sem trégua, sem que eu pudesse tomar fôlego para gritar "que diabos significa tudo isso? qual de nós dois perdeu o juízo?". Eu não pude prestar atenção nem à metade de tudo o que ele despejou na minha sala, na minha cara, na minha vida miserável. Quando terminou de contar suas aventuras perguntou se eu estava bem, que rumo tomei, o que fiz, por onde e com quem estive todo esse tempo. Perguntas tão desnecessárias. Eu respondi a tudo com verdades inventadas, porque foi isso que eu aprendi a fazer e talvez seja apenas isso o que eu saiba fazer: inventar verdades, viver vidas que não são minhas, colecionar memórias alheias, substituir pessoas. Quando o interrogatório finalmente acabou ficamos nos encarando, procurando as marcas do tempo, as mudanças evidenciadas na pele, no corte de cabelo, no tom cansado dos olhos. Nós não éramos mais os mesmos, não podíamos ser nem sequer uma lembrança. Fomos um erro e permanecemos assim um para o outro. Ele se levantou e deixou o embrulho sobre o sofá. Pediu desculpas, talvez se dando conta da imensa falta de sentido que era aquela visita e saiu, as mãos enfiadas nos bolsos, o passo pesado. Era a segunda vez que eu o estava vendo partir. Na primeira vez tive dúvida, mas agora tinha certeza: é melhor assim. Quanto àquele embrulho eu nunca abri, pois representava com exatidão minha relação com quem o deixou: algo que não vale a pena tomar conhecimento sobre seu conteúdo, seja lá o que for, passou. Vendi o sofá.

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