bueiro, me abrace forte!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Uma raiva triste e mansa

O amor é o troço mais perigoso que eu conheço. O amor sequer bate na porta para entrar, é um vendedor cheio de lábia. Ele te promete tudo. E ele te cobra também, toma aquilo que quiser tomar. Se tu não atinges as expectativas, o amor te dá uns tapas na cara e te chama de vadia.  Ele te chuta com força e tu te sentes ridícula solitária num canto imundo. O amor te faz de idiota, rouba teus olhos e só os devolve quando se enche e vai embora.  E depois de tudo que ele tira de ti, só te resta dizer: quem pode evitar o amor, meu Deus? A quem queremos enganar?

domingo, 30 de maio de 2010

Sobre as quedas

Não há mal nenhum em cair. 
Durante a queda você se sente em paz.
A dor só é sentida quando se chega ao chão.

Revelação

Uma noite voltou do passeio diário aturdida pela revelação de que não só se podia ser feliz sem amor como também contra o amor.
|Gabriel García Márquez|

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sai pela boca em forma de fumaça

(...) todos os relógios estão parados, não sei se é ontem, se hoje ou amanhã, se é sempre, e nunca mais, estou solta aqui, completamente só, não há relógios, não há relógios e o tempo avança liberto, sem fronteiras nem limitações, uma bola de arame farpado, o sentimento vai se adensando em mim, transborda dos olhos, das mãos, sai pela boca em forma de fumaça, sinto meus lábios ressequidos, machucados, o gosto amargo, a bola cresce estendendo tentáculos, no meio dela eu me encolho cada vez mais, presa num círculo que cresce até explodir na vontade contida de gritar bem alto, bem fundo, rouca, exausta, correndo, esmagando as folhas de um outro outono, de um outro tempo, ainda este, o tempo, o outono, a tarde, o mundo, a esfera, a espera em que estou pra sempre presa.

|Caio Fernando Abreu|

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Minha alma eu lavo com álcool.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sobre o tempo

O tempo é só um analgésico
O tempo não cura nada.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Me perdoe enquanto eu te vomito

Senti desabar sobre mim um peso morto: o peso dos suspiros prolongados, dos tremores incontroláveis, das frases suspensas e subjetivas, de tudo aquilo que se perdeu pelo caminho.
Meu estômago embrulhou.
Enjoei e vomitei.

Tínhamos um prazo de validade.
E ele já veio vencido.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Meu blush é uma bofetada


- Eu acho que a gente precisa conversar pessoalmente.
- Eu acho que a gente precisa parar de fingir que se importa.

domingo, 23 de maio de 2010


Garçom, pode descer toda a prateleira. 

Decidi que vou sofrer pelo amor que nunca tive.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Anseio uma catarse

Sigo assim: dramatizando, enlouquecendo e me expondo ao ridículo nesse blog. E ando bebendo cada vez mais, é claro. Solto meus palavrões, bato o copo na mesa e minhas retinas explodem de raiva por suportar aperreios e chateações seis dias por semana. A maioria esmagadora das pessoas me dando no saco e por isso logo no café da manhã já me vem a vontade irresistível de sair por aí matando meia dúzia. Me detenho, pauso e penso em não pensar. Escrevo cartas imaginárias, invento diálogos, xingo em pensamento, ensaio reclamações, minto para Deus e o mundo, sento na calçada mais suja e converso com o mendigo mais fedido - faço qualquer coisa para evitar um homicídio.

Minha TPM é crônica e pra quem não gosta, deixo um recado: eu não pedi pra chupar.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O jeito é se virar em casa mesmo

Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.
 |Lygia Fagundes Telles|

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sobre os (con)trastes

Ninguém se oferece para pagar sua comanda 
mas ficam observando o quanto você bebe.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sobre a distância

O orgulho separa muito mais do que os quilômetros.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Limite

Cheguei ao ponto no qual já não avanço e nem recuo. Fico aqui parada  debaixo do sol olhando, vazia, para os lados. Forço a visão e concluo que não há nada a ser visto. Atônita, exausta, inerte: não há nada novo. Não me recuso, não me impeço e tudo me atravessa sem ferir.  Assim, sem sentir nada não é possível gostar de nada: eis o limite em que transbordei, enfim. Talvez seja culpa da vodca, talvez seja porque nada mais me caiba, talvez  realmente não haja mais o que fazer. E eu não sei se isso é bom ou ruim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei...
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.

Ana C.

sábado, 8 de maio de 2010

Esquecer

Ah, mas tudo bem. Em seguida todo mundo se acostuma. As pessoas esquecem umas das outra com tanta facilidade. Como é mesmo que minha mãe dizia? Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos, longe do coração. Pois é.' (Caio F.)

Será?

Esquecer é verbo transitivo e irregular, que significa "deixar sair da memória, perder a lembrança".

A memória é um registro que temos sobre nossas interações com o meio. Certas coisas são difíceis e, por que não dizer - no caso dos apaixonados de corações partidos, por exemplo -, impossíveis de esquecer. Há diferentes tipos de memória e suas devidas classificações em relação ao conteúdo: as de curta e longa duração. As memórias de longa duração são as que estão envolvidas de alguma forma com nossas emoções. Fatos que nos proporcionaram prazer, tristeza, alegria, etc. Quando armazenamos um desses fatos, nós o consolidamos. Tal processo deixa rastros bioquímicos e nossos neurônios sofrem algum tipo de alteração. Cada vez que evocamos uma lembrança, nós voltamos a estimular este sistema, tornando-a mais forte, pois nós a reconstruímos, revemos o filme.

Logo, toda vez que tentamos esquecer algo, primeiro, nós precisamos lembrar "de esquecer" e ao lembrarmos, resgatamos e reconstruímos a informação. Um círculo vicioso.

Agora, alguém, por favor, me ensine a te esquecer. Seguirei à risca o protocolo.

A Natural Disaster

















It's been a long cold winter without you
I've been crying on the inside over you
You just slipped through my fingers as life turned away
It's been a long cold winter since that day

And it's hard to find
Hard to find
Hard to find the strength now
But I try
And I don't want to
Don't wanna
Don't wanna to speak now
Of what's gone by

Cause no matter what I say
No matter what I do
I can't change what happened
I can't change what happened
No matter what I say
No matter what I do
I can't change what happened
I can't change what happened

You just slipped through my fingers
And I feel so ashamed
You just slipped through my fingers
And I've failed

Cause no matter what I say
No matter what I do
I can't change what happened
I can't change what happened
No matter what I say
No matter what I do
I can't change what happened
I can't change what happened
No matter what I say
No matter what I do
I can't change what happened
I can't change what happened
No! no! I can't change

You just slipped through my fingers
And I feel so ashamed
You just slipped through my fingers
And I've failed

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tóxica

Ah, meu bem, esse borrão vermelho e venenoso aqui acabou  por se infiltrar na sua vida. Ninguém poderia prever que fosse ser assim, que minha influência amarga e anormal pudesse te contaminar de forma irreversível. Minhas palavras pesadas são capazes de esmagar a sua mente, alterando até a frequência dos seus batimentos e você nada pode fazer para controlar.  Adoro ver o modo como você perde tempo tentando me decifrar e destrinchar, e é nesse meu emaranhado que você se confunde mais por descobrir em mim infinitos personagens. Meus dramas ordinários lhe caem muito bem e essa tem sido a minha diversão: saber que o hematoma permanente que você me deixou agora se tornou coágulo nos seus vasos sanguíneos. E já é impossível me negar, você me absorve lentamente e se delicia.

O que te pulsa não cessa nunca.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tudo isso dói.

Tudo isso dói.
Mas eu sei que passa, que se está sendo assim é porque deve ser assim, e virá outro ciclo, depois.
Para me dar força, escrevi no espelho do meu quarto: 'Tá certo que o sonho acabou, mas também não precisa virar pesadelo, não é? ' É o que estou tentando vivenciar.
Certo, muitas ilusões dançaram - mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo, eu faço força para manter algumas esperanças acesas, como velas. Também não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros insolúveis, becos-sem-saída.
Nada é muito terrível. Só viver, não é?
A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora. Até que os dois ritmos naturalmente se encaixem outra vez e passem a fluir.
Porque não estou fluindo.
Caio F.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Hadouken I


Um dos muitos 'hadoukens' que já levei nessa vida foi descobrir que não posso ser doadora de sangue. Isso ocorreu pouco após eu completar 18 anos. Eu sentia uma necessidade de ser útil, ajudar alguém nesse mundãodemeudeus com meu sangue tipo O. E lá fui eu para o hospital, bem cedo. Enfrentei a fila. Teste de glicemia: OK. Aferir a pressão sanguínea: baixa, mas OK. Enfim, a próxima etapa: a entrevista com a médica. Eu tinha a idade, o peso e me achava em condições físicas para realizar essa grande e bela ação. A médica foi super simpática, eu me senti muito a vontade. Hepatite? Nunca. Drogas injetáveis? Jamais. Tatuagem recente? Quem dera. Relações sexuais? Nem perto, nem beijo na boca dei, doutora. Alguma doença respiratória? Ops, asma. Usa broncodilatadores? Uso. Bem, você não pode ser doadora. Como assim, por quê? Durante o processo, você perde oxigênio junto com o sangue que retiramos, enfim, você pode morrer.


Inaptidão definitiva para doação de sangue.

Saí da entrevista derrotada. Eu precisei viver 18 anos para concluir que minha existência não tinha serventia alguma. Nem para doar meu sangue, nem isso, cazzo! Que merda, nada em mim prestava, absolutamente nada!

Fiquei deprimida por meses. Troquei o dia pela noite. Estava entregue ao ócio. Meu nome era Tédio. Estava entregue ao ostracismo. O êxtase do meu dia era o cine corujão. Eu era um cadáver à espera de quem quisesse fazer a parte suja do trabalho. Foi gostoso, eu perdi alguns quilos, meu ciclo menstrual foi interrompido por dois meses e eu pensei "maravilha, adeus cólicas, enjôos e vômitos - eu me tornei um homem!". Mais uma vez a minha ingenuidade me passou a perna. Que rasteira colossal. Quando a minha menstruação finalmente veio, ela veio com tudo e mais um pouco. Eu estava me esvaindo em sangue, escoando pelo ralo, literalmente. Meu nome Tédio adquiriu um sobrenome: Tédio do Rio Vermelho. Minha morte era certa se eu não procurasse um médico com urgência. Dessa forma, seria realmente melhor não procurar.
Mas eu acabei concluindo que se gasta muito dinheiro para enterrar alguém. Meus pais não iriam gostar. Além disso, seria frustrante minha mãe contando que sua filha foi encontrada morta e completamente seca, sem uma gota de sangue dentro dela. Sem contar, é claro, que eu seria o assunto da festa do próximo natal.

- Mãe, estou morrendo! Estou parecendo um carimbo vermelho marcando todas as cadeiras em que sento. Preciso passar no médico para saber quantos dias ainda tenho para viver. Preciso avisar meus amiguinhos virtuais que só responderei scraps através de um medium.

Minha mãe se compadeceu e fomos ao pronto socorro. Ala ginecológica. Nessa ala eu descobri que tinha verdadeira fobia de grávidas. Eu quase pari um feto imaginário junto com aquelas mulheres que estavam sofrendo as dores do parto.
Foi horrível.
Finalmente, fui atendida. Eu estava crente que o médico fosse extrair meu útero com um fórceps e tudo ficaria bem. Ou não.
O médico apalpou meu ventre apenas. Excluídas algumas possibilidades e depois de um mero exame de sangue (para isso meu sangue serve pelo menos) constatou-se que eu estava num quadro de menorragia devido a uma anemia. Injeções na bunda, remédios à base de ferro e alguns fitoterápicos aliados a hábitos mais saudáveis seriam capazes de resolver o problema. Resolveram. E eu não morri. Foi só um hadouken.

Um dos muitos.

terça-feira, 4 de maio de 2010


Sinto-me livre para fracassar
(Hilda Hilst)

Resolvi que irei me meter em tudo. De novo. Resolvi que o amor é uma barata nojenta, e, se eu quiser, eu piso e ouço o clac e ainda deliro de prazer. Se eu quiser, eu salto, eu piro, atiro os copos. Se eu quiser, danço sobre meus próprios pedaços. Resolvi aceitar que nunca me faltou malucos e malucas. Resolvi que, se eu quiser, viro puta ou meto o pé na estrada. E se eu quiser beber e não tiver grana, arrumo quem pague. Adeus. É maio. Dia desses vou contar para vocês como um maio pode enlouquecer alguém. Ou não, pois quem sabe eu resolva parar de escrever e livre todos dessa minha loucura.  Mas se eu quiser também, invento um milhão de histórias. Desce mais vodca, sinto que posso construir o que eu bem entender com tudo isso que (não) aconteceu.
Digamos que um dia você percebesse que o seu único grande amor era uma falácia, um arrepio sem razão. Digamos que você percebesse que 40% de álcool apenas te garantiam emoção concentrada como sopa Knorr, arriscando o telefonema internacional que dá margens a suores contrariando o I Ching que manda que eu me cale, ou diga pouco, ou pelo menos respeite esse silêncio.

Ana C.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ne me quitte pas, Bueiro

Bueiro, me abrace forte
E não me solte

Bueiro, afague meus cabelos
E cale meu desespero

Bueiro, o que eu sinto apenas nós dois sabemos
E por isso guardamos segredo

Bueiro, está tudo rodando
De novo, outro lampejo

Bueiro, eu lamento,
na próxima, eu juro beber menos...


Bueiro, impossível esconder minha paixão
Eu te amo inteiro
De alma, fígado e coração.

domingo, 2 de maio de 2010

Era domingo

Deitou-se na cama a fim de se afogar em lágrimas, morrer asfixiada com o próprio vômito ou qualquer coisa que fosse capaz de colocar um ponto final àquilo tudo. Aguardou por mais de quinze minutos e o pranto não veio. Permaneceu fitando o teto cor de gelo como se isso pudesse oferecer algum conforto, como se um anjo pudesse surgir iluminando o quarto e estender sua mão até ela. Ela desejava que o sobrenatural a tocasse com tanta força que a fizesse acreditar novamente em qualquer coisa. Mas nada aconteceu. Apertou o dedo indicador contra a garganta e finalmente percebeu que sequer a ânsia viria dessa vez. Estava só, completamente só com suas vontades inexplicáveis, sua insanidade. Não havia nada para sair, embora as pontadas no estômago persistissem, embora se sentisse cheia de alguma coisa enorme e desesperada para escapar. Sentia uma necessidade urgente de se rasgar para se livrar daquele incômodo, mas não sabia por onde começar e também não estava convicta se realmente existia algo lá dentro ou era uma impressão causada pela falta dos psicotrópicos. Então quis deixar pra lá, sabendo que aquele estado prostrado não resolveria nada e que a resposta para qualquer questão maluca que ela inventasse a deixaria ainda mais confusa. Mas quando se deita da forma como ela estava deitada e entregue à loucura, fica impossível pôr-se em pé mais uma vez. E disso ela sabia.

sábado, 1 de maio de 2010

Sobre os beijos

Inútil procurar o gosto de um
na boca de outro.
Maio é tempo de vodca.