bueiro, me abrace forte!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sexta-feira

Era sexta-feira e eu estava chateada. Tremendamente chateada.

Quis ir para a Augusta. Afinal, o que mais eu poderia fazer? Eu precisava sentar naquela calçada, beber e fumar para colocar meus pensamentos em ordem. Só uma cena decadente como essa para me salvar de uma sexta-feira pavorosa. Peguei minha bolsa e fui.

Quando cheguei, desci em busca da minha parte da calçada, e este pedacinho que me pertence fica em frente a um bar. Lá comprei uma garrafa de cerveja e um maço de L.A. e fui para o meu cantinho decadente. Me acomodei satisfeita por estar a um passo de salvar meu dia. Dei o primeiro gole, fechei os olhos e não contive meu sorriso. Talvez esse seja mesmo o esconderijo do paraíso. Acendi meu cigarro e quase não me sentia chateada. Ficar ali sentada apenas observando as pessoas que subiam ou desciam a rua e, o melhor: sem toques humanos, era uma delícia. Estava calor, mas nem isso me importava. Apesar do sol, apesar do ar poluído, apesar de tudo, eu estava em paz. Solitária e em paz. Ê vidão!

Ah, mas a vida prega peças. Ê vidão sacana!

De repente, uma sombra. De repente, uma voz:

- Você tem um cigarro?

Como assim? Quem ousa me interromper para me pedir um cigarro?
Ainda imersa na calma, sem sequer olhar para a criatura vinda das trevas, respondi:

- Não.

Mas a vida, acima de tudo, quer mesmo é tirar a gente do sério.

- Você tem. Vi você comprando o maço lá no bar.

- Realmente. Mas não tem nenhum pra você. Desculpe.

Achei que desse modo tão educado eu me livraria da figura desumana.
Errei.
Ele se sentou ao meu lado.
Perfeito! Esse delinquente agora vai sacar um revólver e levar meu maço, meu celular, meu dinheiro. É isso que eu ganho por tentar salvar meu próprio dia. Vidão!
Olhei-o de soslaio e vi que estava acendendo um cigarro. Não contive minha fúria:

- Mas... você tem!

- Nunca disse que não tinha. Eu só estava a fim de puxar papo com você. Achei você um tipo interessante.

- E agora você já percebeu que não sou. Que tal, sei lá, você ir embora?

- Não. Gosto dessa vista. E de você. Mas agora só de boca fechada, claro.

E ele sorriu.
Tudo bem, eu tenho sangue frio. Eu não vou dar bola para mais um imbecil. Ah, não. Eu vou me fechar no meu casulo mental e nem sentirei sua presença. Tudo bem, eu posso superar esse sorriso. Não falarei mais nada. Vai ficar tudo numa boa. Filho de uma puta, eu quero é te matar!

Vinte minutos se passaram, bebi toda a cerveja e ele continuou ali, tranquilão. Um silêncio enlouquecedor, aquele sorriso me perturbando as ideias e eu espumando de raiva pelo desaforo. Não me aguentei:

- Olha, cara...

- Ah, sabia. Ganhei.

- Ganhou o quê?

- Você quebrou o silêncio.

- Ah, quer um troféu?

- Você está se saindo muito bem. Temos um diálogo, uma comunicação bacana. A coisa toda está fluindo, percebe?

Eu quis chorar. Como há muito tempo eu não tinha vontade. Finalmente entendi que o jeito seria EU ir embora. Justo EU? Dar adeus ao meu espaço conquistado ao longo de várias tardes e noites.

Pro caralho! Quem vai sair é ele!

- Não dá pra você, sei lá, procurar outra pessoa pra encher?

- Ah, não.

Isso, não perca a oportunidade de me irritar mais.

- Você nunca me viu, não é?

- Não apenas nunca vi, como, inclusive, ficaria assombrosamente feliz se continuasse sem ver.

- Ah, deixa disso! Você já me viu sim. Apenas não se lembra. Mas eu me lembro de você. Algumas vezes aqui sentada e bebendo. Algumas vezes subindo ou descendo a rua com um ou outro. Mas as vezes em que você estava sozinha e bebendo eram as melhores. Você fica inteiramente concentrada no mais absoluto nada!

Excelente. Que modo sutil de me chamar de biscate. Subindo ou descendo a rua AUGUSTA com um ou outro. Ele poderia até mencionar com uma ou outra também, assim, além de biscate, ficaria explícita a minha bissexualidade. Excelente sexta-feira. Eu não poderia exigir mais nada dos deuses para garantir minha felicidade.

Tomada pela raiva, perguntei:

- E da sua vida, quem cuida?

- Precisa falar assim comigo? Eu só quero conversar um pouco com você. Seja amistosa.

Bufei. Bufar é a minha maneira de demonstrar amistosidade em casos como esse.
Não satisfeito, ele prosseguiu:

- Não sei por qual motivo você se mostra tão cheia de espinhos. Você não sabe lidar com quem se interessa por você, ó grande cacto. Nem isso você consegue aceitar. Quem te fez mal? Quem te deixou esse trauma? É uma bela tarde para resolver seus conflitos.

Sabe, eu nem me espanto com esses porra-loucas que me aparecem. Eu me espanto é comigo que não saio prontamente correndo e gritando por socorro.
E era o momento perfeito para eu fazer isso. Mas não fiz. Mais uma vez. Dei trela:

- E você traçou meu perfil psicológico por que é um estudioso da área ou só por que é um enviado do planeta dos chatos-pra-caralho com a missão de me torrar a paciência?

- Desculpe, foi apenas um comentário. Sabe, se você tivesse me dado o bendito cigarro, tudo seria diferente.

- Imagino...

- Estou sendo legal com você.

- Está...

- Tente ver o copo meio cheio.

Eu quero é ver a hora em que eu vou quebrar a garrafa inteira na sua cabeça, isso sim.

- Estou vendo...

- Coloca o sarcasmo de lado, só por enquanto. Qual o seu nome?

- Macabéa.

- Datilógrafa, virgem e gosta de coca-cola.

Ah, desgraçado, você lê.

- Já que sou, o jeito é ser...

- Gostei. Nota-se que você tem cultura.

Basta! É muita afronta. Cansei de estender uma conversa idiota e fechei a cara de vez. Ele que fale sozinho. Desisto, vou embora. Sou uma loser, admito.
Levantei, peguei a garrafa para devolver ao bar.

Mas o infeliz me puxou pelo braço. Que audácia!

- Espera!

- Uma ova! Me solta, senão eu grito!

- Tudo bem, calma. Só uma coisa. Uma última coisa!

- Vá dar seu rabo, cretino!

Atravessei a rua tremendo de raiva e entreguei a garrafa. E ele ali do outro lado me olhando. Parado. Sorrindo.
Comecei a subir para a estação e ouvi o demente gritando:

- Na próxima, seja diferente com quem te abordar! Por favor, não custa nada! Não custa, gracinha! Tente outra coisa! Qualquer coisa!

Aquilo me tocou. Profundamente, aliás. Eu preciso mesmo mudar a maneira como reajo. Para o meu próprio bem.

Acendi outro cigarro, numa boa. Todo aquele ódio já não me servia. O malucão estava certo, afinal, o tempo todo, ele só queria me dar um toque. Uma lição de vida, nada demais. E finalmente eu entendi.

Quase chegando a Av. Paulista, um cara surgiu diante de mim. Lindo, um príncipe. Com uma voz aveludada, disse:

- Você pode me emprestar o isqueiro?

Prontamente respondi:

- Posso!

Enfim, eu tinha mudado. E para demonstrar o quanto, completei:

- Mas só se for para enfiá-lo no seu cu...

2 comentários:

kokeshisblog disse...

KKKKKKKKKKKKKKK
Fria e calculista

Gloritha disse...

Otimo blog!