bueiro, me abrace forte!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cem beijos

Ela chegou ao local marcado com sua antecedência característica. Claro, ela sabia que ele não chegaria naquele momento, por isso se encostou contra a parede e abriu um livro. Leu dez páginas e escutou o celular tocar.

- Alô?
- Ei. Você já chegou?
- Já.
- Estou preso no trânsito. Vou atrasar uns minutos. Você me espera?
- Espero.
- Em quinze minutos eu chego.
- Ok.
- Beijo.
- Tchau.

Mais algumas páginas lidas e, vinte minutos depois, ele chegou. Ela não o notou e continuou a ler. Ele puxou o livro das mãos dela e sorriu.

- Oi. 
- Oi.
- Então, nem um beijinho?
- Em qual bar vamos?
- Ok, sem beijinho. Vamos nesse aqui mesmo em frente à estação. Pode ser?
- Pode.

Escolheram uma mesa e se sentaram. Como de costume, ele apoiou a mão sobre o joelho dela. Ela se afastou um pouco e cruzou as pernas.

- Chope?
- Chope.
- Qual?
- Escuro.
- Para combinar com seu humor. 
- Sim, para combinar com meu humor.

Ele fez o pedido ao garçom e ela vasculhou a bolsa à procura de um maço. Encontrou o maço perdido e amassado com apenas dois cigarros dentro. Puxou um deles e acendeu.

- Eu não sabia que você fumava.
- Simples: você não sabe nada sobre mim.
- Tabagismo faz um mal danado.
- Por isso você só fuma o "natural", né?!

O garçom os serviu.
Não houve brinde.

- Olha, você me surpreendeu aceitando sair comigo.

Ela tragou fundo, olhou para o céu cinza da cidade de concreto e soltou a fumaça pelas narinas, com certo tom de exaustão e respondeu:

- Há meses você está me enchendo com isso. 
- Mas você poderia simplesmente me ignorar.
- Poderia. Mas você disse que pagaria a conta. Não resisti.
- Faz sentido.
- Faz.
- Eu te incomodo? Você sempre parece incomodada.
- Um pouco, mas eu gosto. Você faz bem para o meu intestino.
- Quê?
- Você me causa dor de barriga, porque me deixa meio nervosa, ansiosa, sei lá. Você me faz cagar bastante. Acho que se a gente tivesse mais contato eu nem precisaria tomar activia.
- Você diz umas coisas lindas que até me deixa pasmo.
- Por que você ainda me procura?
- Porque você ainda deixa. Por que você deixa?
- Porque eu fico esperando.
- Meus Deus! Mas esperando o quê?
- Ter uma boa briga com você. Que a gente se ofenda bastante, de maneira irreversível e então eu te mandaria, enfim, pro caralho.
- Que horror!
- Mas a gente não briga. Nem isso.
- Nem quando você me estressa com suas grosserias, com esse jeito seco que você me trata.
- Sim, e você é uma doçura, um encanto de rapaz. Agradável como ninguém consegue ser.
- Eu me divirto muito com seu sarcasmo.

Ela tragou forte o cigarro novamente e em seguida engoliu o chope. Ficou um tempo olhando diretamente nos olhos dele e deixou escapar um suspiro. Um suspiro de saudade de um passado que ainda não passara.

- Você com essa camisa verde fica tão bonito que me dói um pouco, sabia?
- Dói? Dói como?
- Uma dor assim doída e gostosa. Mas, relaxa, não tem nada a ver com tesão. Eu só te acho bonito de doer.
- Poxa, obrigado. Você nunca me elogiou.
- Nem estou elogiando. Loucura minha te achar assim bonito de doer. Loucura minha. Minha.
- Você parece meio lésbica às vezes. Acho que nem mesmo o demônio é capaz de ser tão louco quanto você.
- Por quê?
- Ah, esquece.
- Esqueço. Bebo. Bebo e esqueço.
- Diz pra mim, você está apaixonada por alguém?
- Às vezes.
- Às vezes?
- É. Quando eu lembro.
- Como agora, por exemplo?
- Não. Agora eu só lembrei que às vezes eu lembro.
- Meu Deus! Suas respostas são muito confusas!

 Ela apagou o cigarro e sorriu.

- A culpa é sua por me fazer perguntas.
- Fico meio curioso, só isso. Talvez seu mundo maluco me atraia um pouco.
- Deixe de ser besta, vivemos no mesmo maldito mundo.
- Não, não! Você cria uma espécie de realidade paralela, distorce uma porção de coisas. Principalmente sua própria imagem, meu Deus, como você a distorce. Eu fico te achando mesmo toda torta e tenho vontade de te rasgar inteira para descobrir quem é a garota que está ai dentro.
- E, depois dessa, a louca sou eu?
- Sim, no dicionário a palavra louca deveria estar associada ao seu nome.
- Assustador, hein.
- Muito.

O celular dele tocou. Ele pediu licença e se levantou para atender. Ela secou o copo num único gole. Ele voltou apressado.

- Ei, problemas!
- Você precisa ir?
- Sim, desculpe. Meu chefe me ligou. Poxa, me desculpa mesmo.
- Tudo bem.
- Vou pagar os chopes. Você ainda vai ficar aqui?
- Vou.
- Então vou deixar pago mais um para você, como pedido de desculpas. Sei que você vai ficar aqui enchendo a cara e fumando.
- Que nada, só vou ficar aqui parada e sonhar.
- Desse jeito você também chega a me doer um pouco, sabia?
- Vá logo.

Ele entrou no bar para pagar a conta. Pouco depois retornou para se despedir. Curvou-se para beijá-la na testa e afagou um pouco seus cabelos, só por farra. Ela permaneceu estática e indiferente, com os cotovelos apoiados na mesa. Em seguida, ele se afastou um pouco e disse:

- Um beijo.

Ele deu uns passos para trás e foi se afastando mais. Ela puxou outro cigarro e o acendeu enquanto viu que ele já estava de costas esperando o sinal abrir para ir embora. Ela o observou ajeitar o boné e se lembrou do modo como ele sempre ajeitava o boné segundos antes de beijá-la. Lembrou do tempo do abraço em que ambos eram outras pessoas. O sinal abriu e com os olhos quase marejados ela o acompanhou atravessar a avenida, ele com as mãos nos bolsos provavelmente tentando encontrar as chaves do carro. Deixou escapar outro suspiro, tragou o cigarro e disse baixinho, enquanto soltava a fumaça:

- Cem beijos.

2 comentários:

Mônica Wesley disse...

Só vc pra fazer a gente rir e chorar no mesmo texto. Queria saber escrever ficção dessa forma... Tuydo meu é auto biográfico. =/
Enfim...

jaqueline disse...

você escreve 'ficção' como ninguem kah!