bueiro, me abrace forte!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Baby, a vida já não tem sentido

eu ando meio pirado
pensando em suicído
eu ando meio tarado
e virado

Tiro os óculos para afundar meu rosto nas mãos, sedenta. Minha fuga é o veneno que eu estou bebendo sem parar. E por mais que o Cazuza berre e berre, cazzo, não dá pra abafar meu choro.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sobre as despedidas

É muita ida

pra pouca vinda.
As coisas se complicam pra mim – que recorro quase sempre (e por que, meu Deus?) ao mesmo erro. O que consigo é me curar de um vício no outro. Não dá pra contar e/ou esperar algo em troca. Também é impossível arrebanhar sequer uma pobre alma e lançá-la no inferno ou no céu que desejamos. Eu to desistido dos outros. Eu quero mesmo é privar de mim, por desforra – todavia é impossível. Por isso, agora, entendo, é que estes pássaros voam ao meu encontro, aqui, atrás da Igreja da Imaculada, no sentido oposto – querem a noite e a alma que lhes roubei por falta de opção – e se espatifam desesperados nas vidraças. Ah! O desespero! Foi deste jeito, com a alma dos pássaros, que aprendi a voar.
Não há, entretanto o que esperar ou querer, há o devir que arrebata e escraviza e a paisagem rebocada é sempre a mesma. Às vezes descerro as cortinas negras do bangalô e desejo o apocalipse. Talvez o que me mantenha seja mesmo esta solidão amaldiçoada, doida e confusa. De quem – como eu – não sabe fazer para amar e ama no travo, perdida em si mais do que deveria, para além do amor. O que eu consegui ao longo do tempo – já disse e repito – foi acumular solidões. E o horizonte, minha querida, somente não é uma farsa completa porque o sol cai atrás, todo dia.

Marcelo Mirisola In Bangalô

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Se eu me deito nos trilhos
ele não passa.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sobre as nucas

- Qual parte do corpo você mais gosta?

- Da nuca.

- Da nuca? Como assim?

- Sei lá. Até hoje só soube amar as nucas, para que nunca me percebam. Assim o dono da nuca só sente um arrepio fantasma de quem está sendo observado. E só. Muito seguro.

- Coisa estranha. Você precisa de tratamento...

- Mas não há segurança quando me seguram pela nuca. Céus, eu derreto e me perco.

Foi você, não eu

Não queria, desde o começo eu não quis. Desde que senti que ia cair e me quebrar inteiro na queda para depois restar incompleto, destruído talvez, as mãos desertas, o corpo lasso. Fugi. Eu não buscaria porque conhecia a queda, porque já caíra muitas vezes, e em cada vez restara mais morto, mais indefinido - e seria preciso reestruturar verdades, seria preciso ir construindo tudo aos poucos, eu temia que meus instrumentos se revelassem precários, e que nada eu pudesse fazer além de ceder. Mas no meio da fuga, você aconteceu. Foi você, não eu, quem buscou.

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Tem comida no meu prato.
Mas a solidão mastiga devagar a minha fome.

domingo, 25 de abril de 2010

Regras do jogo

"ou você dá as cartas

ou se embaralha."


- E nem trapaceando eu ganho ó...

sábado, 24 de abril de 2010

22's

Eu te amei por exatos vinte e dois segundos. Eu te amei até sentir pontadas no meu peito oco, uma dor pungente que me desorientou. Eu te amei tanto que ouvi um baque surdo em algum lugar dentro de mim enquanto o vento nos dilacerava naquele começo de noite. Eu te amei por vinte e dois segundos de puro descuido, sem saber que seus olhos de lança iriam me ferir da maneira mais grave. Eu te amei como ninguém jamais conseguirá te amar, porque eu te amei com todos os erros de concordância possíveis. Eu te amei ignorando a análise sintática e morfológica. Eu te amei por entre os vãos das palavras, inclusive das não pronunciadas - lugar em que me encontro agora. Eu te amei silenciosamente com mais intensidade à cada segundo que transcorria enquanto estávamos parados aguardando o sinal abrir e...

Eu te amei sem economia, persistindo no erro mais tolo e imensurável, justamente por saber que eu não poderia te amar. Mesmo não me sendo permitido, eu te amei. E eu te amei sem querer nada em troca e sem qualquer cobrança.

Mas depois daqueles segundos contados e cravados em metáforas e hipérboles só me restou uma farpa na pele, um corpo estranho que tratei de remover devido à inflamação.

E agora eu quero que você sofra com seu coração arrebentado e sinta suas malditas tripas arrancadas cada vez que olhar para uma mulher e perceber o quanto ela pode ser pior que eu.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sexta-feira

Era sexta-feira e eu estava chateada. Tremendamente chateada.

Quis ir para a Augusta. Afinal, o que mais eu poderia fazer? Eu precisava sentar naquela calçada, beber e fumar para colocar meus pensamentos em ordem. Só uma cena decadente como essa para me salvar de uma sexta-feira pavorosa. Peguei minha bolsa e fui.

Quando cheguei, desci em busca da minha parte da calçada, e este pedacinho que me pertence fica em frente a um bar. Lá comprei uma garrafa de cerveja e um maço de L.A. e fui para o meu cantinho decadente. Me acomodei satisfeita por estar a um passo de salvar meu dia. Dei o primeiro gole, fechei os olhos e não contive meu sorriso. Talvez esse seja mesmo o esconderijo do paraíso. Acendi meu cigarro e quase não me sentia chateada. Ficar ali sentada apenas observando as pessoas que subiam ou desciam a rua e, o melhor: sem toques humanos, era uma delícia. Estava calor, mas nem isso me importava. Apesar do sol, apesar do ar poluído, apesar de tudo, eu estava em paz. Solitária e em paz. Ê vidão!

Ah, mas a vida prega peças. Ê vidão sacana!

De repente, uma sombra. De repente, uma voz:

- Você tem um cigarro?

Como assim? Quem ousa me interromper para me pedir um cigarro?
Ainda imersa na calma, sem sequer olhar para a criatura vinda das trevas, respondi:

- Não.

Mas a vida, acima de tudo, quer mesmo é tirar a gente do sério.

- Você tem. Vi você comprando o maço lá no bar.

- Realmente. Mas não tem nenhum pra você. Desculpe.

Achei que desse modo tão educado eu me livraria da figura desumana.
Errei.
Ele se sentou ao meu lado.
Perfeito! Esse delinquente agora vai sacar um revólver e levar meu maço, meu celular, meu dinheiro. É isso que eu ganho por tentar salvar meu próprio dia. Vidão!
Olhei-o de soslaio e vi que estava acendendo um cigarro. Não contive minha fúria:

- Mas... você tem!

- Nunca disse que não tinha. Eu só estava a fim de puxar papo com você. Achei você um tipo interessante.

- E agora você já percebeu que não sou. Que tal, sei lá, você ir embora?

- Não. Gosto dessa vista. E de você. Mas agora só de boca fechada, claro.

E ele sorriu.
Tudo bem, eu tenho sangue frio. Eu não vou dar bola para mais um imbecil. Ah, não. Eu vou me fechar no meu casulo mental e nem sentirei sua presença. Tudo bem, eu posso superar esse sorriso. Não falarei mais nada. Vai ficar tudo numa boa. Filho de uma puta, eu quero é te matar!

Vinte minutos se passaram, bebi toda a cerveja e ele continuou ali, tranquilão. Um silêncio enlouquecedor, aquele sorriso me perturbando as ideias e eu espumando de raiva pelo desaforo. Não me aguentei:

- Olha, cara...

- Ah, sabia. Ganhei.

- Ganhou o quê?

- Você quebrou o silêncio.

- Ah, quer um troféu?

- Você está se saindo muito bem. Temos um diálogo, uma comunicação bacana. A coisa toda está fluindo, percebe?

Eu quis chorar. Como há muito tempo eu não tinha vontade. Finalmente entendi que o jeito seria EU ir embora. Justo EU? Dar adeus ao meu espaço conquistado ao longo de várias tardes e noites.

Pro caralho! Quem vai sair é ele!

- Não dá pra você, sei lá, procurar outra pessoa pra encher?

- Ah, não.

Isso, não perca a oportunidade de me irritar mais.

- Você nunca me viu, não é?

- Não apenas nunca vi, como, inclusive, ficaria assombrosamente feliz se continuasse sem ver.

- Ah, deixa disso! Você já me viu sim. Apenas não se lembra. Mas eu me lembro de você. Algumas vezes aqui sentada e bebendo. Algumas vezes subindo ou descendo a rua com um ou outro. Mas as vezes em que você estava sozinha e bebendo eram as melhores. Você fica inteiramente concentrada no mais absoluto nada!

Excelente. Que modo sutil de me chamar de biscate. Subindo ou descendo a rua AUGUSTA com um ou outro. Ele poderia até mencionar com uma ou outra também, assim, além de biscate, ficaria explícita a minha bissexualidade. Excelente sexta-feira. Eu não poderia exigir mais nada dos deuses para garantir minha felicidade.

Tomada pela raiva, perguntei:

- E da sua vida, quem cuida?

- Precisa falar assim comigo? Eu só quero conversar um pouco com você. Seja amistosa.

Bufei. Bufar é a minha maneira de demonstrar amistosidade em casos como esse.
Não satisfeito, ele prosseguiu:

- Não sei por qual motivo você se mostra tão cheia de espinhos. Você não sabe lidar com quem se interessa por você, ó grande cacto. Nem isso você consegue aceitar. Quem te fez mal? Quem te deixou esse trauma? É uma bela tarde para resolver seus conflitos.

Sabe, eu nem me espanto com esses porra-loucas que me aparecem. Eu me espanto é comigo que não saio prontamente correndo e gritando por socorro.
E era o momento perfeito para eu fazer isso. Mas não fiz. Mais uma vez. Dei trela:

- E você traçou meu perfil psicológico por que é um estudioso da área ou só por que é um enviado do planeta dos chatos-pra-caralho com a missão de me torrar a paciência?

- Desculpe, foi apenas um comentário. Sabe, se você tivesse me dado o bendito cigarro, tudo seria diferente.

- Imagino...

- Estou sendo legal com você.

- Está...

- Tente ver o copo meio cheio.

Eu quero é ver a hora em que eu vou quebrar a garrafa inteira na sua cabeça, isso sim.

- Estou vendo...

- Coloca o sarcasmo de lado, só por enquanto. Qual o seu nome?

- Macabéa.

- Datilógrafa, virgem e gosta de coca-cola.

Ah, desgraçado, você lê.

- Já que sou, o jeito é ser...

- Gostei. Nota-se que você tem cultura.

Basta! É muita afronta. Cansei de estender uma conversa idiota e fechei a cara de vez. Ele que fale sozinho. Desisto, vou embora. Sou uma loser, admito.
Levantei, peguei a garrafa para devolver ao bar.

Mas o infeliz me puxou pelo braço. Que audácia!

- Espera!

- Uma ova! Me solta, senão eu grito!

- Tudo bem, calma. Só uma coisa. Uma última coisa!

- Vá dar seu rabo, cretino!

Atravessei a rua tremendo de raiva e entreguei a garrafa. E ele ali do outro lado me olhando. Parado. Sorrindo.
Comecei a subir para a estação e ouvi o demente gritando:

- Na próxima, seja diferente com quem te abordar! Por favor, não custa nada! Não custa, gracinha! Tente outra coisa! Qualquer coisa!

Aquilo me tocou. Profundamente, aliás. Eu preciso mesmo mudar a maneira como reajo. Para o meu próprio bem.

Acendi outro cigarro, numa boa. Todo aquele ódio já não me servia. O malucão estava certo, afinal, o tempo todo, ele só queria me dar um toque. Uma lição de vida, nada demais. E finalmente eu entendi.

Quase chegando a Av. Paulista, um cara surgiu diante de mim. Lindo, um príncipe. Com uma voz aveludada, disse:

- Você pode me emprestar o isqueiro?

Prontamente respondi:

- Posso!

Enfim, eu tinha mudado. E para demonstrar o quanto, completei:

- Mas só se for para enfiá-lo no seu cu...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A vida


terça-feira, 20 de abril de 2010

my way of life

- Vai rolar uma festa bacana da USP, vamos?
- Ah, não sei...
- Mas é open bar!
- Opa! Eu vou!
- E, pensa, vai estar cheio de universitários pra você.
- Quê? Não, não. Só quero saber da bebida.
- Mas você não gosta de homens?
- Olha, até que eu gosto...
- Então!
- Eles que não gostam de mim.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Raramente grito. Quando grito é um grito vermelho e esmeralda. Mas em geral eu sussurro. Falo baixinho para timidamente dizer. (...) Estou cansada: é por isso também que falo baixo - é para não me ofender.

Clarice Lispector

sexta-feira, 16 de abril de 2010

"jeitinho"

Philippe diz:
 me perguntaram uma pergunta difícil no formspring
 um professor aplicara uma prova a uma sala com duração de 1h contada em seu relógio. Porém esse professor, durante a prova irá andar a 0,96c (96% da velocidade da luz). Quanto tempo ira durar a prova para os alunos?
яσġυє diz:
 céus
Philippe diz:
 achei a resposta
 3 horas e meia
яσġυє diz:
 parabéns
 eu mandaria o professor enfiar o relógio no cu a uma velocidade de 0,96c
Philippe diz:
 imaginava, pelo seu histórico
(falando bem baixinho e pausadamente, com todo meu cuidado maternal, bêibe)


Então é assim: você vai se apaixonar. Resista o quanto puder, mas, no fim, será em vão. Você pode rejeitar (ou desviar de) uns dez, uns vinte, uns cem. Não adianta, sempre haverá um filhodaputa à sua espera, e de braços abertos ainda. Ou não. Tanto faz. Você vai se apaixonar e ponto. E não será por algo inanimado, entenda isso de uma vez por todas. Além de entender, aceite. Pois o primeiro passo é a aceitação. E talvez você se apaixone por vários ao mesmo tempo. Talvez. Mas não se condene por mais essa falha, afinal, com ou sem essa possibilidade, você vai se foder. Em diversos graus e dimensões. Literalmente, até. E por n motivos. Não importa. Você vai se foder, com toda a crueldade e naturalidade, mais cedo ou mais tarde. Vezes o bastante para você se perguntar porra, de novo? Sim, de novo. E, buscando se ausentar da responsabilidade, você encontrará um culpado. Ótimo. Mas nem isso te inocenta, simplesmente porque não faz a menor diferença.

só não se esqueça de tirar a cara do meio da merda. aprenda que é sempre cada um por si.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Quero me desfazer dos meus sentimentos. Puro desamor rolando solto aqui dentro. Puro desamor, meu bem. Amém.

Eu deveria cobrar ingressos para o circo de horrores que é esse blog!

Tá, eu sei, ninguém pagaria.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Desliga

- Alô. Desliga. Eu não quero falar e não está barato pra caramba. Nem a essa hora da madrugada. Porra, se você voltasse. Ah, se você voltasse.  Não, seu merda, não volte. Desliga, eu não quero falar. Desliga, antes que eu diga. Desliga. Eu não quero ir pra tua cidade quente. Desliga. Alô. Eu me desfiz do presente que ia te dar. E deu tudo errado. Eu não acerto nunca. Desliga! Desliga, porque eu estou sangrando. Desliga, porque nem eu sei como ainda tenho teu número. Desliga, porque eu não sei como, mas eu ainda te amo. Por que você ainda me escuta, porra? Desliga.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Se

Se eu corresse mais rápido, talvez eu pudesse chegar a tempo de dizer que eu não tenho mais nada para dizer. Mas isso é um mero talvez. Uma incerteza. Bobagem, eu diria. E deixemos de bobagem por hora. 
Tendo em vista os últimos acontecimentos, eu só posso mesmo é sentir um cansaço físico e, principalmente, mental. Coisas aqui e ali e acolá, atrás e na frente, de um lado e do outro. Coisas demais. Coisas juntas e coisas soltas. Coisas demais, eu repito como se isso finalmente fosse capaz de amenizar qualquer uma dessas coisas. Outra bobagem.
Mais um gole de café. Gelado. 
Eu venho para cá e vejo esses meus pseudo-amores espalhados sem um pingo de coerência. Esses pseudo-amores carentes de atenção, pedintes sofridos puxando meu casaco nesse frio. E eu penso, porra, nem chegou o inverno. Mas logo depois eu lembro que estou no mesmo inverno há meses. Meu inverno, meu inferno. Um inverno que alguém me deixou de presente pela minha loucura. Lá naquela grande avenida, numa tarde cinza. Merecidamente. Sim, eu devo ser louca. Eu só posso ser louca. E eu não quero saber da dor de corno dos outros. Eu não estou podendo. Arrancaram a unha do meu hálux esquerdo e meus dentes estão sensíveis. Respeitem a minha dor.



e se está assim barato pra caramba, eu vou fazer um ddd, código de área 19 e dizer "a culpa é toda sua, bundão".  
- atingir esse grau de loucura há de ser libertador!

Do outro lado da tarde

Sim, deve ter havido uma primeira vez, embora eu não lembre dela, assim como não lembro das outras vezes, também primeiras, logo depois dessa em que nos encontramos completamente despreparados para esse encontro. E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você. Certamente houve, porque tenho a vaga lembrança - e todas as lembranças são vagas, agora -, houve um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo em que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Depois, aquela primeira vez e logo após outras e mais outras, tudo nos conduzindo apenas para aquele momento.

Às vezes me espanto e me pergunto como pudemos a tal ponto mergulhar naquilo que estava acontecendo, sem a menor tentativa de resistência. Não porque aquilo fosse terrível, ou porque nos marcasse profundamente ou nos dilacerasse - e talvez tenha sido terrível, sim, é possível, talvez tenha nos marcado profundamente ou nos dilacerado - a verdade é que ainda hesito em dar um nome àquilo que ficou, depois de tudo. Porque alguma coisa ficou. E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante. Porque não se vive mais em lugares onde existam rodas-gigantes. Porque também as rodas-gigantes talvez nem existam mais. Mas foram essas duas coisas - a chuva e a roda-gigante -, foram essas duas coisas que de repente fizeram com que algum mecanismo se desarticulasse dentro de mim para que eu não conseguisse ultrapassar aquele momento.

De repente, eu não consegui ir adiante. E precisava: sempre se precisa ir além de qualquer palavra ou de qualquer gesto. Mas de repente não havia depois: eu estava parado à beira da janela enquanto lembranças obscuras começavam a se desenrolar. Era dessas lembranças que eu queria te dizer. Tentei organizá-las, imaginando que construindo uma organização conseguisse, de certa forma, amenizar o que acontecia, e que eu não sabia se terminaria amargamente - tentei organizá-las para evitar o amargo, digamos assim. Então tentei dar uma ordem cronológica aos fatos: primeiro, quando e como nos conhecemos - logo a seguir, a maneira como esse conhecimento se desenrolou até chegar no ponto em que eu queria, e que era o fim, embora até hoje eu me pergunte se foi realmente um fim. Mas não consegui. Não era possível organizar aqueles fatos, assim como não era possível evitar por mais tempo uma onda que crescia, barrando todos os outros gestos e todos os outros pensamentos.

Durante todo o tempo em que pensei, sabia apenas que você vinha todas as tardes, antes. Era tão natural você vir que eu nem sequer esperava ou construía pequenas surpresas para te receber. Não construía nada - sabia o tempo todo disso -, assim como sabia que você vinha completamente em branco para qualquer palavra que fosse dita ou qualquer ato que fosse feito. E muitas vezes, nada era dito ou feito, e nós não nos frustrávamos porque não esperávamos mesmo, realmente, nada. Disso eu sabia o tempo todo.

E era sempre de tarde quando nos encontrávamos. Até aquela vez que fomos ao parque de diversões, e também disso eu lembro difusamente. O pensamento só começa a tornar-se claro quando subimos na roda-gigante: desde a infância que não andávamos de roda-gigante. Tanto tempo, suponho, que chegamos a comprar pipocas ou coisas assim. Éramos só nós depois na roda gigante. Você tinha medo: quando chegávamos lá em cima, você tinha um medo engraçado e subitamente agarrava meu braço como se eu não estivesse tão desamparado quanto você. Conversávamos pouco, ou não conversávamos nada - pelo menos antes disso nenhuma frase minha ou sua ficou: bastavam coisas assim como o seu medo ou o meu medo, o meu braço ou o seu braço. Coisas assim.

Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou. Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram - e a roda-gigante parou. Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado. Esperamos. Acho que comemos pipocas enquanto esperamos. Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse. Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas.Não sei se chegamos a nos abraçar, mas sei que falamos. Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar. E nós tínhamos tão pouca experiência disso que falamos e falamos durante muito e muito tempo, e entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava, ou eu disse que te amava - ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas, bobas, insiginificantes. Porque nada modificaria os nossos roteiros. Talvez você tenha me chamado de fatalista, porque eu disse todas as coisas, assim como acredito que você tenha dito todas as coisas - ou pelo menos as que tínhamos no momento.

Depois de não sei quanto tempo, as luzes se acenderam, a roda-gigante concluiu a volta e um homem abriu um portãozinho de ferro para que saíssemos. Lembro tão bem, e é tão fácil lembrar: a mão do homem abrindo o portãozinho de ferro para que nós saíssemos. Depois eu vi o seu cabelo molhado, e ao mesmo tempo você viu o meu cabelo molhado, e ao mesmo tempo ainda dissemos um para o outro que precisávamos ter muito cuidado com cabelos molhados, e pensamos vagamente em secá-los, mas continuava a chover. Estávamos tão molhados que era absurdo pensar em sairmos da chuva. Às vezes, penso se não cheguei a estender uma das mãos para afastar o cabelo molhado da sua testa, mas depois acho que não cheguei a fazer nenhum movimento, embora talvez tenha pensado.Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora.

Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante - seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou.

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desgosto

No quintal da minha casa,
eu estou alimentando o desgosto

E esse bicho agora está enorme

Qualquer dia
ah, ele me come.

domingo, 11 de abril de 2010

Estou cheia de urgências e pendências e sentenças. E eu não vou abrir o berreiro.
Porque eu sou uma grande filha da puta.
É isso.
- Cansei. Acabou.
- Hã?
- Nossa história acabou. Agora é cada uma por si.
- Mas...
- No ifs, ands or buts. Está acabado!
- Você vai jogar fora 21 anos assim?
- 21 infelizes anos. Sim.
- Você não pode!
- Posso. Eu não aguento mais. Você é muito burra!
- Por quê?
- Você ainda pergunta? Isso só prova o quanto você é burra!
- Você não tem o direito de me ofender.
- Tenho. Tenho sim. É o que eu mais tenho. Eu me estresso com suas atitudes.
- Eu também me estresso com as suas, mas nem por isso te ofendo.
- Porque você é burra. Porque você só sabe nos meter em encrenca. Porque o tempo todo eu estou avisando que está tudo errado e você não me escuta!
- Você tenta me dominar o tempo todo, isso sim!
- Se você não fosse tão incrivelmente otária, eu não precisaria perder meu tempo te alertando e controlando.
- Você tenta me privar de tudo. Nem telefonemas eu posso fazer. Controla minhas palavras, meus movimentos.
- Porque só sai merda da sua boca.
- Porque só sai verdade e você só sabe mentir.
- Porque eu sou zelosa e atenta.
- Não! Você é ruim! Você é egoísta! Seca. Fria! Eu também não te suporto. Você nem sabe dançar!
- E você acha que sabe? Poupe-me, mulher-maravilha!
- Insensível!
- Blá, blá, blá! Você só sabe choramingar. Você chora até diante de um simples cladograma e não me deixa estudar.
- Porque você fica horas estudando. Quando não está fazendo isso, só sabe encher a cara e voltar para a casa fedendo a cigarro.
- Ah, como se você não se aproveitasse! Que santa que você é! Você se aproveita dos meus momentos ébrios, sua safada. É isso que mais está nos ferrado. Porra, você não aprende nunca! Só me arruma merda, uma merda pior que a outra. Perdi a paciência, toda hora preciso te lembrar "desmancha esse sorriso, que essas coisas não são pro nosso bico". E adianta? Adianta nada. Na minha primeira distração, lá vai você fazer cagada. Imprestável! Só me dá dor de cabeça...
- Você se acha muito esperta, né?!
- Sou mais que você. Isso nem se pode contestar.
- Você espanta todo mundo com a sua "esperteza".
- E você atrai idiotas. Depois o trabalho de dar um fim neles sobra pra mim. Porque você é tola como eles.
- Interesseira e materialista. Você não vale nada. Você não tem coração!
- E você torra o meu dinheiro com gente panaca. Presentinhos e mimimi. Argh, que raiva!
- Quer saber? Também me enchi. Você que vá pro inferno!
- Eu vou. Mas você vai também. A diferença, boneca, é que eu estarei na ala VIP, bebendo pinga com o diabo. Já você, estará condenada a lavar cuecas sujas de bosta por toda eternidade.
- Eu sou a parte boa de você. Mas, chega! Cansei dessa humilhação. Eu quero as minhas coisas.
- Enfim, alguma atitude sensata e útil! Pois leve suas porcarias! As roupas coloridas, os sapatos de salto, a maquiagem. Livre-me desse lixo!
- Levo mesmo. Você que fique com aquelas roupas pretas e cinzas surradas, sua velha! Não quero mais te ver.
- Grata!


E a briga se repete. Todo dia.

sábado, 10 de abril de 2010

Não ter pode ser bonito

Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "porquê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 9 de abril de 2010

É preciso



É preciso coragem para não dormir. Mas é preciso dormir. É preciso ainda mais coragem para acordar, porque é preciso abrir os olhos e é preciso olhar. Muitas vezes é preciso fingir que não vê. Mas é preciso ver para poder fingir que não, porque é preciso aprender a enxergar. É preciso enxergar para seguir, porque é preciso andar e é preciso correr. É preciso tropeçar, porque é preciso aprender a cair. É preciso levantar, mas também é preciso ficar no chão. É preciso não se perder entre a falta de sentido e direção. É preciso perder, porque é preciso encontrar. É preciso tentar, porque é preciso aprender a desistir. É preciso fechar o livro e encarar, porque é preciso não se dissolver nas próprias lágrimas. É preciso saber a hora toda hora e é preciso saber a hora de parar. É preciso também continuar quando a hora chegar. É preciso chegar, porque é preciso partir para depois voltar se for preciso.

É preciso aceitar que se pode morrer milhares de vezes, porque é preciso sobreviver. É preciso não perder a calma e estancar a hemorragia, porque é preciso pulsar sempre quando for preciso.


É preciso suportar o rombo no peito e a maldita agonia do mundo.

É preciso.
Eu preciso.

Preciso?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sobre as coisas

Tenho tantas coisas suas que já nem sei se são minhas ou suas ou se são suas as minhas ou até mesmo minhas todas as suas coisas e que se são tão suas não poderiam ser minhas mas parecem ser de tão suas que são. Essas minhas coisas suas se autocoisando e produzindo coisas que fica impossível definir se são minhas ou suas essas coisas que se autocoisam coisando outras coisas também que eu não sei de quem são: suas ou minhas ou minhas as suas ou suas as minhas. Essas coisas todas se misturando e eu não sei se se misturam assim porque são minhas ou suas e por isso se misturam tanto umas coisas com as outras e as outras com as umas misturadas numa mistura de coisas. São tantas e tantas coisas as minhas e as suas. Mas nunca as nossas. Nenhuma coisa para chamar de nossa, mesmo com tantas e tantas coisas suas e minhas misturadas.
Eu me mato

mas não morro.

Atiro de novo e de novo.


[Não, isso não foi um vômito. Foi só um arroto.]

quarta-feira, 7 de abril de 2010

à mercê das teorias

Meu mais querido e inexistente diário,

Hoje à tarde eu passei horas debruçada na janela do quarto que não existe, observando diretamente do nono andar que não há nesse prédio pelo simples fato de eu não morar em prédio algum, mas que agora tanto faz, porque eu só fiquei observando a rua deserta que eu não podia enxergar. Segurei um punhal imaginário  contra o peito que representava aquilo que eu mais desejava ser e não sou por puro descuido que eu tenho e me privo e me privo de ser, enfim, alguém. Mas eu sinto que estou sempre perto de ser, a um passo de. Alguma coisa aqui anda me sufocando e eu disparo para logo depois parar ali na frente e eu me concentrar mais uma vez no meu pânico que me desafia e me força a manter no centro de tudo isso os meus dramas mais mesquinhos. É estranho como não sei exatamente dizer o que quero, mas digo e repito e em seguida já me contradigo sobre aquilo que não quero. Estou queimando minhas possibilidades porque deixei meu sofrimento no piloto automático, deixei que o bicho do cinismo se apoderasse da minha boca para ficar passeando, pisando em minha língua devagar e deslizando junto com a saliva, invertendo os pólos e cantarolando o dia inteiro. Desse modo eu deixo que me analisem no silêncio, já que eu gosto de ficar à mercê das teorias.

Acho que eu só quero a minha unha de volta e escrever ideia com acento. Eu sinto muita falta de coisas como essas e das putas tristes, das garrafas cheias e bromazepam.
Há quem diga que eu não valho meia pinga.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Assim, assim, assim

Ô, moço, às vezes, bem assim pela manhã ou finalzinho da tarde ou quem sabe também pouco antes de eu finalmente conseguir dormir, eu sinto assim, não sei se sou capaz de me fazer entender, uma saudadezinha puída de você. Assim uma saudade gasta pela fricção dos meus pensamentos, porque eu vejo essa história  toda turva de neblina e que de tão próxima já se faz longe em algum lugar aqui dentro e agora meio que caindo para fora de mim e de nós, percebe? Nada grave, apenas um coágulo que brilha e entope meus canais emocionais e por isso eu fico assim paradinha sem dizer nada, sem fazer nada, sem querer pensar em nada. Assim paradinha só olhando olhando olhando eu nem sei pra onde, mas eu fico olhando, ai eu fico olhando assim porque é assim desse jeito que fica latejando latejando latejando.

Quero te pedir assim que não leve à mal o meu afastamento e excessivo desespero de quem não sabe o que fazer com isso - porque isso eu simplesmente não sei o que é.

Ô, moço, agora eu descobri que sinto essa saudadezinha assim durante a madrugada também e por isso acordei sobressaltada pra te escrever. Perdoa, moço, perdoa quando te escrevo assim. Cuida de nós.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cem beijos

Ela chegou ao local marcado com sua antecedência característica. Claro, ela sabia que ele não chegaria naquele momento, por isso se encostou contra a parede e abriu um livro. Leu dez páginas e escutou o celular tocar.

- Alô?
- Ei. Você já chegou?
- Já.
- Estou preso no trânsito. Vou atrasar uns minutos. Você me espera?
- Espero.
- Em quinze minutos eu chego.
- Ok.
- Beijo.
- Tchau.

Mais algumas páginas lidas e, vinte minutos depois, ele chegou. Ela não o notou e continuou a ler. Ele puxou o livro das mãos dela e sorriu.

- Oi. 
- Oi.
- Então, nem um beijinho?
- Em qual bar vamos?
- Ok, sem beijinho. Vamos nesse aqui mesmo em frente à estação. Pode ser?
- Pode.

Escolheram uma mesa e se sentaram. Como de costume, ele apoiou a mão sobre o joelho dela. Ela se afastou um pouco e cruzou as pernas.

- Chope?
- Chope.
- Qual?
- Escuro.
- Para combinar com seu humor. 
- Sim, para combinar com meu humor.

Ele fez o pedido ao garçom e ela vasculhou a bolsa à procura de um maço. Encontrou o maço perdido e amassado com apenas dois cigarros dentro. Puxou um deles e acendeu.

- Eu não sabia que você fumava.
- Simples: você não sabe nada sobre mim.
- Tabagismo faz um mal danado.
- Por isso você só fuma o "natural", né?!

O garçom os serviu.
Não houve brinde.

- Olha, você me surpreendeu aceitando sair comigo.

Ela tragou fundo, olhou para o céu cinza da cidade de concreto e soltou a fumaça pelas narinas, com certo tom de exaustão e respondeu:

- Há meses você está me enchendo com isso. 
- Mas você poderia simplesmente me ignorar.
- Poderia. Mas você disse que pagaria a conta. Não resisti.
- Faz sentido.
- Faz.
- Eu te incomodo? Você sempre parece incomodada.
- Um pouco, mas eu gosto. Você faz bem para o meu intestino.
- Quê?
- Você me causa dor de barriga, porque me deixa meio nervosa, ansiosa, sei lá. Você me faz cagar bastante. Acho que se a gente tivesse mais contato eu nem precisaria tomar activia.
- Você diz umas coisas lindas que até me deixa pasmo.
- Por que você ainda me procura?
- Porque você ainda deixa. Por que você deixa?
- Porque eu fico esperando.
- Meus Deus! Mas esperando o quê?
- Ter uma boa briga com você. Que a gente se ofenda bastante, de maneira irreversível e então eu te mandaria, enfim, pro caralho.
- Que horror!
- Mas a gente não briga. Nem isso.
- Nem quando você me estressa com suas grosserias, com esse jeito seco que você me trata.
- Sim, e você é uma doçura, um encanto de rapaz. Agradável como ninguém consegue ser.
- Eu me divirto muito com seu sarcasmo.

Ela tragou forte o cigarro novamente e em seguida engoliu o chope. Ficou um tempo olhando diretamente nos olhos dele e deixou escapar um suspiro. Um suspiro de saudade de um passado que ainda não passara.

- Você com essa camisa verde fica tão bonito que me dói um pouco, sabia?
- Dói? Dói como?
- Uma dor assim doída e gostosa. Mas, relaxa, não tem nada a ver com tesão. Eu só te acho bonito de doer.
- Poxa, obrigado. Você nunca me elogiou.
- Nem estou elogiando. Loucura minha te achar assim bonito de doer. Loucura minha. Minha.
- Você parece meio lésbica às vezes. Acho que nem mesmo o demônio é capaz de ser tão louco quanto você.
- Por quê?
- Ah, esquece.
- Esqueço. Bebo. Bebo e esqueço.
- Diz pra mim, você está apaixonada por alguém?
- Às vezes.
- Às vezes?
- É. Quando eu lembro.
- Como agora, por exemplo?
- Não. Agora eu só lembrei que às vezes eu lembro.
- Meu Deus! Suas respostas são muito confusas!

 Ela apagou o cigarro e sorriu.

- A culpa é sua por me fazer perguntas.
- Fico meio curioso, só isso. Talvez seu mundo maluco me atraia um pouco.
- Deixe de ser besta, vivemos no mesmo maldito mundo.
- Não, não! Você cria uma espécie de realidade paralela, distorce uma porção de coisas. Principalmente sua própria imagem, meu Deus, como você a distorce. Eu fico te achando mesmo toda torta e tenho vontade de te rasgar inteira para descobrir quem é a garota que está ai dentro.
- E, depois dessa, a louca sou eu?
- Sim, no dicionário a palavra louca deveria estar associada ao seu nome.
- Assustador, hein.
- Muito.

O celular dele tocou. Ele pediu licença e se levantou para atender. Ela secou o copo num único gole. Ele voltou apressado.

- Ei, problemas!
- Você precisa ir?
- Sim, desculpe. Meu chefe me ligou. Poxa, me desculpa mesmo.
- Tudo bem.
- Vou pagar os chopes. Você ainda vai ficar aqui?
- Vou.
- Então vou deixar pago mais um para você, como pedido de desculpas. Sei que você vai ficar aqui enchendo a cara e fumando.
- Que nada, só vou ficar aqui parada e sonhar.
- Desse jeito você também chega a me doer um pouco, sabia?
- Vá logo.

Ele entrou no bar para pagar a conta. Pouco depois retornou para se despedir. Curvou-se para beijá-la na testa e afagou um pouco seus cabelos, só por farra. Ela permaneceu estática e indiferente, com os cotovelos apoiados na mesa. Em seguida, ele se afastou um pouco e disse:

- Um beijo.

Ele deu uns passos para trás e foi se afastando mais. Ela puxou outro cigarro e o acendeu enquanto viu que ele já estava de costas esperando o sinal abrir para ir embora. Ela o observou ajeitar o boné e se lembrou do modo como ele sempre ajeitava o boné segundos antes de beijá-la. Lembrou do tempo do abraço em que ambos eram outras pessoas. O sinal abriu e com os olhos quase marejados ela o acompanhou atravessar a avenida, ele com as mãos nos bolsos provavelmente tentando encontrar as chaves do carro. Deixou escapar outro suspiro, tragou o cigarro e disse baixinho, enquanto soltava a fumaça:

- Cem beijos.

domingo, 4 de abril de 2010

Mas eu corro

Cada passo que dou é uma tentativa de voltar para trás. Meus pés acumulam bolhas por não saírem do chão e eu carrego no peito uma certeza  pesada de que tudo não passa de um absurdo. Um absurdo que me assombra, que me faz assassinar aquilo que os outros querem me dar de melhor. Minha natureza é exatamente essa: cortar antes que cresça; e tomo a providência digna de alguém covarde que é repelir aqueles que têm o poder de me tocar fundo, principalmente os lugares  que julgo inacessíveis. Escorregadia e insensata, eu sou um rancorzinho sistemático e louco, um corpo parvo habitado por uma alma afônica e engasgada com os gritos estridentes das perguntas que não faço. Absorvo meus soluços ásperos de desespero com doses cada vez maiores de aflição e o que acaba por se esvair de mim é um mero gemido mudo, um suor gélido de uma dor que não se explica. Tenho um temperamento melancólico e inadequado que está distante da compreensão. Minhas palavras se resumem a cacos pontiagudos do mais absoluto nada porque não são capazes de expressar o que sinto, me saem como farpas arrancadas diretamente da derme com toda violência, fato que talvez justifique meus momentos de silêncio e procrastinação, esse meu isolamento doentio e, aparentemente, ingrato e sem lógica.

De nada vale folhear o meu catálogo de erros se a única coisa que faço é me condenar até o fim, sem qualquer respeito a mim mesma. Sou inteiramente submissa à minha própria crueldade e nem ao menos espero que entendam o quão desgraçada e miserável sou por isso, pois o pior de tudo é saber que por mais que eu corra ou me esconda de tudo e todos, eu sempre estarei comigo - o que é insuportável.
- Isso são horas de chegar em casa?

- Oras, não se apegue tanto aos detalhes.

- Você foi mesmo ao cinema?

- Mas é claro!

- Então como você me explica isso?

- Isso o quê?

- O fato de você estar bêbada.

- Ah, pai, é que o filme era um porre...

sábado, 3 de abril de 2010

(entre)surtos & (entre)linhas

Ela costuma escondê-lo entre linhas confusas, entre uma palavra e outra, entre as frases soltas, entre as letras perdidas e umas imagens cretinas. Ela o maquia com pó e rímel e ele nem percebe, acha até bonito. Ela tenta descarregar toda sua eletricidade e ele nunca sente o choque. Às vezes, também tenta escondê-lo de si mesma usando álcool etílico e cafeína, aumentando a distância das suas cidades, chutando-o para o canto da sala, guardando-o na gaveta de rascunhos.

Ela o esconde a fim de se esconder também.


(Um beijo pro moço que percebeu que ela escreve em código - e que ela até que gosta um tanto, embora nem demonstre o quanto)

Ai, bueiro, me abrace forte (mais uma vez)

Ah, bueiro, eu confesso: eu amo e fumo e bebo e não tem jeito. Estou quebrada e não procuro conserto, insisto em cutucar feridas antigas, arrancar suas cascas para que não cicatrizem e eu não perca minha única distração. Não tomo cuidado com as palavras, não me esforço para escrever coisas bonitas e o que eu faço é escandalizar os que tentam entender meu mundo, já que não me escondo do monstro do tédio que me devora por dentro e por fora. A vida me escapa das mãos, porque eu vivo apenas para escapar da vida. Bueiro, só você sabe que eu atravesso a madrugada para falar da tristeza e fico desejando que seu abraço seja tão forte que chegue a me quebrar uns ossos, que chegue ao ponto em que eu estoure em lágrimas geladas, porque eu preciso vazar o meu vazio e me trancar no escuro com meus medos, nessa luta diária que nunca acaba.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

então foi assim que eu pensei em escrever sem letras maiúsculas ou vírgulas ou pontos e principalmente as reticências que é pra tirar o fôlego de quem lê porque é assim que eu me sinto quando tento ir até a superfície para respirar já que aqui embaixo eu fico engolindo tanta água suja e podre e o problema é que nesse poço os degraus estão cheios de limo e eu escorrego e caio e me firo e vou perdendo a esperança e quero desistir deixar pra lá e aceitar o meu destino cruel e ficar submersa sem que ninguém ouse me resgatar pois seria inútil salvar alguém que não quer ser salvo alguém que só quer afundar nesse poço doido sem fim e ponto

O tempo passou

Às vezes me lembro dele, sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou. Nunca mais o vi, depois que foi embora. Nunca nos escrevemos. Não havia mesmo o que dizer, ou havia? Ah, como não sei responder as minhas próprias perguntas! É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra. Acho que, se tornasse a vê-lo, custaria a reconhecê-lo.



Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Eu abuso do meu dom que é me reduzir a poeira nessa estrada.

Houve um sonho cinza. Sobraram as cinzas. 

Agora assopre-as. E seu caminho estará livre.

Minha quimera

Eu te inventei.

E eu fui além: te amei na minha invenção.

Eu te amei em todos os detalhes.

Você transcendeu e ganhou vida.

Tornou-se insustentável.

Eu, sendo inclinada ao homicídio, planejei teu fim.

Eu te matei com doses exageradas de álcool e ácido, pedaço por pedaço, sem nenhuma piedade.

Mas teu fantasma ainda me assombra.



Todo dia.