bueiro, me abrace forte!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Porra, eu só quero desligar essa máquina


"Não sei quanto aos outros, mas eu só estava à procura da paz".

Foi essa a mensagem que deixei quando cometi suicídio. Ainda fico pensando se escrevi de modo que pudessem entender o que eu estava querendo dizer. Enfim, a mensagem era: não sei se os outros suicidas também se mataram porque procuravam a paz, mas no meu caso, sim. Tentei ser simples e objetiva. Não que a minha vida fosse uma guerra. Oras, eu tinha comida, nunca me apontaram uma arma, jamais perdi um membro. Meu inferno era o fato de viver. Eu estava perdida, eu não sabia o que fazer comigo e, principalmente, eu não sabia o que fazer com os outros. Havia muito espaço dentro de mim e minha alma ficava oscilando para lá e para cá, como se agonizasse no vácuo. Eu bebia demais, fumava demais, acumulava dias terríveis. Eu não tinha esperança, não existia um sinal de salvação. Então chegou um domingo, desses bem domingos mesmo, de um cinza melancólico que era a coisa mais linda. É um ótimo dia para morrer. Eu senti vontade de escrever uma poesia, uma carta bonita para quem quisesse ler. Mas foi mais fácil deixar uma frase que resumisse o desejo "mórbido" da minha vida inteira. Escrevi na parede, com giz de cera preto. A casa estava vazia, ninguém voltaria tão cedo. Barbitúricos. Um sono profundo e eterno. Perfeito.

Que engano.

Eu ainda estou acordada observando meu corpo se decompor e eu não sei há quanto tempo. Eu tento encontrar uma explicação para o que ocorre e eu não encontro. Não sinto nada, nem fome, nem dor, nem frio. Mas a vontade de comer continua, e isso me chateia. Eu só fico olhando meu corpo se decompor. Não sei como, nem o porquê. Eu simplesmente acordei e dei de cara com o meu corpo, é a única visão que tenho (mas agradeço pela sorte de não ter visto meu velório, não há nada mais irritante que um velório). Primeiro eu vi uma substância esverdeada sair pelos meus orifícios. Não demorou muito e alguns insetos passaram a se alimentar dele. Bacana, faço parte da cadeia alimentar, da ciclagem dos nutrientes. As larvas nasciam e eram vorazes. Cresciam, era uma festa. Meu corpo já tinha uma aparência pegajosa, inchada e grotesca. Eu imaginava o cheiro dos gases, devia ser um odor horrível. Ah, mas seria legal se alguém filmasse, essa coisa toda é muito didática. O que me frustrava era que a minha mente (ou sei lá que diabos me restou) não desligava nunca. Eu apenas acompanhava o que estava rolando, com a minha mente (sim, vamos chamar de mente) ligada à angústia de existir. Porque de alguma maneira, eu existia. Seria uma espécie de castigo? O castigo dos suicidas? Que merda, eu poderia ter estudado mais essas paradas religiosas, espirituais. E agora não dá, estou condenada a uma masturbação mental em tempo integral. E o pior é que eu não sou nenhuma filósofa. Acho que deveria existir um manual que estabelecesse os pré-requisitos para se suicidar.

Enfim, vou permanecer aqui (não tenho outra escolha) até que finalmente meus ossos desapareçam e o espetáculo se encerre. Ai, sim, o botão de desligar surja e...


(Com gentilezas de Alexandre Gentil)

Um comentário:

Alexandre disse...

"Pousa um momento
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!"