bueiro, me abrace forte!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Os fios da ilusão

Eram soldados que serviram todas as guerras de amor. Em cada uma das guerras, perdiam um pedaço do corpo. Estavam mutilados, tinham cicatrizes, marcas impossíveis de serem apagadas ou ignoradas. Eram feios de sentir pena. O que lhes restava era apenas suas metades, por isso não caminhavam. Com muito esforço podiam se arrastar alguns metros sozinhos, mas era uma situação dolorosa demais, não suportavam a solidão, o desamparo. Assim, tentaram resolver o problema: cada um permanecia na estrada aguardando os soldados que ofereciam sua outra metade do corpo. Era um trabalho simples, bastavam alguns fios de ilusão e uma agulha infectada de esperança - que também servia para anestesiar. Em poucos dias, pronto: estavam costurados uns aos outros para que fosse possível seguir em frente. Um gesto de solidariedade? De maneira alguma. Tratava-se apenas da pior espécie de desespero: o medo de morrer só, bem ali no meio do caminho, imersos na solidão. Acreditavam que ao final da estrada poderia existir uma fonte mágica que os tornariam belos e felizes novamente.

Entretanto, isso não passava de uma invenção, pois não havia fonte, não havia magia: havia um vasto deserto chamado realidade.

Claro, existia também uma minoria composta por resignados. Estes aceitavam sua condição e unicamente se uniam a outros para descobrirem novas paisagens que a estrada oferecia. Usavam fios de nylon, agulhas esterilizadas e suportavam a dor. Tentavam, sempre que podiam, alertar os outros sobre a tal invenção. Tudo em vão, e por isso sempre eram condenados à marginalidade.

Eis a dinâmica dos relacionamentos desesperados frutos do temor da solidão: os seres decepados se unem por fios de ilusão. Quando os fios são frágeis, a união não dura muito tempo, logo ocorre a separação, então seus corpos ficam agonizando a espera de quem consiga se aproximar para se costurarem mais uma vez. Há também os que conseguem utilizar fios extremamente resistentes. Estes são os que concluem a jornada. E se decepcionam: o que sempre os uniu, não passava de uma ilusão e seus objetivos, uma mera invenção.



(Título sugerido por Alexandre Gentil)

2 comentários:

Alexandre disse...

O jeito é se costurar com a solidão, fiel companhia.

Rogue disse...

Solidão, solidão minha. Só goste de mim, só goste de mim.