bueiro, me abrace forte!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Eu escrevo como quem morre

Sinto como se eu fosse vomitar. Mas esse vômito negro e viscoso não sai. Trata-se da falta de sentido e eu fico com o gosto das minhas angústias na boca, passo a língua nos lábios e sinto o quanto estão ásperos. As pessoas pisam sem querer no meu coração, o mundo faz da minha alma um reles tapete, deixando marcas escuras. Diante do espelho eu me vejo com cor de sangue estancado, fico horas observando minha pele seca, minhas manchas roxas, mas e daí? Sou obrigada a seguir em frente, óbvio. Eis a vida: mate-se ou viva. Ela é bem prática, sou eu quem complica. Não me mato, mas também não vivo. Acredito que estou escapando por uma tangente e finjo e finjo. Porque não querem me ouvir, perguntam se estou bem, mas se eu não disser que estou, a conversa está acabada. Eles se esforçam, querem entender. No entanto, é inútil. Então, fecham os olhos, tapam os ouvidos. Eles estão certos, não há perdão para mim. Eu não mereço nenhum tipo de atenção, é muito horror sendo expelido, uma secreção nojenta e asquerosa. Ninguém deve ver isso, não quero ser injusta, preciso poupá-los. Meus momentos sociais são cinematográficos, têm o mesmo enredo e embora os personagens falem numa língua que eu desconheço, sei exatamente a hora certa em que cada um sairá de cena. Existe um prazo, o tempo é marcado, tudo como deve ser: simples e previsível. O filme passa rápido e em plano-sequência. As cenas se repetem. E eu aqui, vivendo em câmera lenta, tentando desviar, pois já sei como será o próximo instante. Bobagem, uma grande bobagem a minha. Sou atingida. Milhões de vezes eu sou atingida, não tem jeito. Estou cansada, exigem de mim uma existência vertical e digna, mas estou me arrastando porque foi a única coisa que restou para fazer: arrastar-me pela vida, deixar as mãos em carne viva, esfolar os joelhos, quebrar o queixo. Eu exalo um cheiro podre, nem se aproximem.

2 comentários:

Alexandre disse...

Esse post é o que mais faz jus a palavra "vomitado"

Rogue disse...

No ato de escrever, eu vomito. No ato de falar, as palavras saem em gotas contadas...