bueiro, me abrace forte!

quinta-feira, 11 de março de 2010

A carta que não escrevo

Meses depois, após a passagem do seu furacão, saí do meu corpo para verificar os estragos. Está tudo quebrado, é claro. Mas lhe sou grata por cada estilhaço, por cada coisa que ficou fora do lugar e imersa na merda dos que cagaram sobre elas por pura diversão. Te escreveria uma carta para agradecer, com todos os pontos e vírgulas e as suas reticências típicas que condizem com o modo como você fala. Descreveria meu julho de tardes tão frias, meu agosto de puro desgosto e o setembro que assassinou minha ilusão para culminar no outubro mais tenebroso. Citaria os dias de novembro que se resumiram a me embebedar do teu veneno a fim de que eu chegasse em dezembro já morta. Entretanto, foi nele que renasci rodeada pelas velhas borboletas orientais de asas partidas, as mesmas que me empurraram pro teu abismo em outros tempos, as mesmas que jamais olhariam para o meu bueiro, pois sempre temeram meu lado sombrio. Revelaria como meu janeiro não passou de uma música, a música que me deixou sem coragem para contar os meses seguintes porque também as borboletas partiram sem sequer um adeus. Ao final da carta, diria que, em gratidão, te deixo levar qualquer página imunda que aqui se encontra, pois quase todas foram escritas inspiradas em você e nessa desordem que deixou, na minha úlcera que batizei com o teu nome. Você que transformou meus dedos em navalhas afiadas para que tudo o que eu escrevesse sangrasse e, sem saber, você espalhou esse sangue de maneira tão indiscriminada que tantas mãos se sujaram com ele.
Mas não irei enviar carta alguma, você a leria em cinco minutos e demoraria mil anos para entender, porque eu nunca soube e nunca quis ser explícita. Guardarei a carta não-escrita junto com o carinho que também guardo por ti, embora você desconheça e sempre desconhecerá.

2 comentários:

Felipe Zuanetti Portugal disse...

Muito bom, você se expressa muito bem! Gostei! =)


Não importa quantos bueiros, quantas borboletas, ou por qual miséria se passar lembre-se: "Eu Só Penso Em Mim, Só Irei Pensar Nos Outros Quando Os Outros Forem Nós!"


Lágrimas, sangues e outras coisas são tiradas e arrancadas para nascer outras mais resistentes no lugar.

Alexandre disse...

Cirrose, hepatite, pancreatite agúda...batizada com nome dela.