bueiro, me abrace forte!

quarta-feira, 31 de março de 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

Anúncio

Doa-se um amor.

Com toda a sinceridade e humildade, devo declarar - sem qualquer resquício de dor - que meu amor se afogou no seco e jaz gangrenado no chão. Pobrezinho, só mastigava pedras de desilusão, foi perdendo os dentes, e, mesmo assim, abria um sorriso desdentado, todo satisfeito, exibindo  sua necrose gengival. Aos interessados, faz-se necessário saber sobre seu estilo de vida: meu amor fora viciado em tristeza, vivia na sarjeta, bêbado, chorando com prostitutas; mas se manteve, sem sombra de dúvida, puro e inocente. Assim, após absorver todas as amarguras, hoje ele jaz fétido, podre, contaminado por melancolia e coberto por confetes de lembranças nostálgicas. Quem quiser, esteja à vontade, que coma essa merda que já não pertence a ninguém. Que se farte, pois, embora impalatável por tamanha acidez, é possível saciar algum faminto - mas sendo imprescindível fazer o uso abusivo de vodca como acompanhamento.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Conselhos

- Eu acho que você deveria parar de tomar tanta bebida alcoólica, largar o cigarro, as noitadas, deixar sua hostilidade de lado e, claro, procurar um psicoterapeuta. Você precisa se amar e não se matar desse jeito!

- Meu caso é mesmo muito grave. Mas o seu é fácil: eu só acho que você deveria tomar no cu...

domingo, 28 de março de 2010

Acontece

acontece que meu silêncio amargo
faz ainda mais ruído e estrago

engulo meus gritos
 e rolo por cacos de vidro

Como você me dói de vez em quando

Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio de uma praça.

Então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada, só olhando e pensando – Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando.


Caio Fernando Abreu

sábado, 27 de março de 2010

Minha força está na solidão

Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Clarice Lispector

sexta-feira, 26 de março de 2010

Porra, eu só quero desligar essa máquina


"Não sei quanto aos outros, mas eu só estava à procura da paz".

Foi essa a mensagem que deixei quando cometi suicídio. Ainda fico pensando se escrevi de modo que pudessem entender o que eu estava querendo dizer. Enfim, a mensagem era: não sei se os outros suicidas também se mataram porque procuravam a paz, mas no meu caso, sim. Tentei ser simples e objetiva. Não que a minha vida fosse uma guerra. Oras, eu tinha comida, nunca me apontaram uma arma, jamais perdi um membro. Meu inferno era o fato de viver. Eu estava perdida, eu não sabia o que fazer comigo e, principalmente, eu não sabia o que fazer com os outros. Havia muito espaço dentro de mim e minha alma ficava oscilando para lá e para cá, como se agonizasse no vácuo. Eu bebia demais, fumava demais, acumulava dias terríveis. Eu não tinha esperança, não existia um sinal de salvação. Então chegou um domingo, desses bem domingos mesmo, de um cinza melancólico que era a coisa mais linda. É um ótimo dia para morrer. Eu senti vontade de escrever uma poesia, uma carta bonita para quem quisesse ler. Mas foi mais fácil deixar uma frase que resumisse o desejo "mórbido" da minha vida inteira. Escrevi na parede, com giz de cera preto. A casa estava vazia, ninguém voltaria tão cedo. Barbitúricos. Um sono profundo e eterno. Perfeito.

Que engano.

Eu ainda estou acordada observando meu corpo se decompor e eu não sei há quanto tempo. Eu tento encontrar uma explicação para o que ocorre e eu não encontro. Não sinto nada, nem fome, nem dor, nem frio. Mas a vontade de comer continua, e isso me chateia. Eu só fico olhando meu corpo se decompor. Não sei como, nem o porquê. Eu simplesmente acordei e dei de cara com o meu corpo, é a única visão que tenho (mas agradeço pela sorte de não ter visto meu velório, não há nada mais irritante que um velório). Primeiro eu vi uma substância esverdeada sair pelos meus orifícios. Não demorou muito e alguns insetos passaram a se alimentar dele. Bacana, faço parte da cadeia alimentar, da ciclagem dos nutrientes. As larvas nasciam e eram vorazes. Cresciam, era uma festa. Meu corpo já tinha uma aparência pegajosa, inchada e grotesca. Eu imaginava o cheiro dos gases, devia ser um odor horrível. Ah, mas seria legal se alguém filmasse, essa coisa toda é muito didática. O que me frustrava era que a minha mente (ou sei lá que diabos me restou) não desligava nunca. Eu apenas acompanhava o que estava rolando, com a minha mente (sim, vamos chamar de mente) ligada à angústia de existir. Porque de alguma maneira, eu existia. Seria uma espécie de castigo? O castigo dos suicidas? Que merda, eu poderia ter estudado mais essas paradas religiosas, espirituais. E agora não dá, estou condenada a uma masturbação mental em tempo integral. E o pior é que eu não sou nenhuma filósofa. Acho que deveria existir um manual que estabelecesse os pré-requisitos para se suicidar.

Enfim, vou permanecer aqui (não tenho outra escolha) até que finalmente meus ossos desapareçam e o espetáculo se encerre. Ai, sim, o botão de desligar surja e...


(Com gentilezas de Alexandre Gentil)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Eu escrevo como quem morre

Sinto como se eu fosse vomitar. Mas esse vômito negro e viscoso não sai. Trata-se da falta de sentido e eu fico com o gosto das minhas angústias na boca, passo a língua nos lábios e sinto o quanto estão ásperos. As pessoas pisam sem querer no meu coração, o mundo faz da minha alma um reles tapete, deixando marcas escuras. Diante do espelho eu me vejo com cor de sangue estancado, fico horas observando minha pele seca, minhas manchas roxas, mas e daí? Sou obrigada a seguir em frente, óbvio. Eis a vida: mate-se ou viva. Ela é bem prática, sou eu quem complica. Não me mato, mas também não vivo. Acredito que estou escapando por uma tangente e finjo e finjo. Porque não querem me ouvir, perguntam se estou bem, mas se eu não disser que estou, a conversa está acabada. Eles se esforçam, querem entender. No entanto, é inútil. Então, fecham os olhos, tapam os ouvidos. Eles estão certos, não há perdão para mim. Eu não mereço nenhum tipo de atenção, é muito horror sendo expelido, uma secreção nojenta e asquerosa. Ninguém deve ver isso, não quero ser injusta, preciso poupá-los. Meus momentos sociais são cinematográficos, têm o mesmo enredo e embora os personagens falem numa língua que eu desconheço, sei exatamente a hora certa em que cada um sairá de cena. Existe um prazo, o tempo é marcado, tudo como deve ser: simples e previsível. O filme passa rápido e em plano-sequência. As cenas se repetem. E eu aqui, vivendo em câmera lenta, tentando desviar, pois já sei como será o próximo instante. Bobagem, uma grande bobagem a minha. Sou atingida. Milhões de vezes eu sou atingida, não tem jeito. Estou cansada, exigem de mim uma existência vertical e digna, mas estou me arrastando porque foi a única coisa que restou para fazer: arrastar-me pela vida, deixar as mãos em carne viva, esfolar os joelhos, quebrar o queixo. Eu exalo um cheiro podre, nem se aproximem.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Não amemos

Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).

Fernando Pessoa

E aquilo que você me deixou continua ocupando o mesmo espaço.
Juntando os cacos e farelos...
É, até que dá pra se aproveitar algo.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Os fios da ilusão

Eram soldados que serviram todas as guerras de amor. Em cada uma das guerras, perdiam um pedaço do corpo. Estavam mutilados, tinham cicatrizes, marcas impossíveis de serem apagadas ou ignoradas. Eram feios de sentir pena. O que lhes restava era apenas suas metades, por isso não caminhavam. Com muito esforço podiam se arrastar alguns metros sozinhos, mas era uma situação dolorosa demais, não suportavam a solidão, o desamparo. Assim, tentaram resolver o problema: cada um permanecia na estrada aguardando os soldados que ofereciam sua outra metade do corpo. Era um trabalho simples, bastavam alguns fios de ilusão e uma agulha infectada de esperança - que também servia para anestesiar. Em poucos dias, pronto: estavam costurados uns aos outros para que fosse possível seguir em frente. Um gesto de solidariedade? De maneira alguma. Tratava-se apenas da pior espécie de desespero: o medo de morrer só, bem ali no meio do caminho, imersos na solidão. Acreditavam que ao final da estrada poderia existir uma fonte mágica que os tornariam belos e felizes novamente.

Entretanto, isso não passava de uma invenção, pois não havia fonte, não havia magia: havia um vasto deserto chamado realidade.

Claro, existia também uma minoria composta por resignados. Estes aceitavam sua condição e unicamente se uniam a outros para descobrirem novas paisagens que a estrada oferecia. Usavam fios de nylon, agulhas esterilizadas e suportavam a dor. Tentavam, sempre que podiam, alertar os outros sobre a tal invenção. Tudo em vão, e por isso sempre eram condenados à marginalidade.

Eis a dinâmica dos relacionamentos desesperados frutos do temor da solidão: os seres decepados se unem por fios de ilusão. Quando os fios são frágeis, a união não dura muito tempo, logo ocorre a separação, então seus corpos ficam agonizando a espera de quem consiga se aproximar para se costurarem mais uma vez. Há também os que conseguem utilizar fios extremamente resistentes. Estes são os que concluem a jornada. E se decepcionam: o que sempre os uniu, não passava de uma ilusão e seus objetivos, uma mera invenção.



(Título sugerido por Alexandre Gentil)
São 4h da madrugada e eu estou sem sono. Rolei na cama algumas vezes e não adianta. Liguei o computador. Nova postagem. Escrever. Força, enfia o dedo na garganta e vomita, Karine.

Ok, eu consigo.

Me cobraram tanto que eu perdi o sono. Cobram textos, parcerias, trabalhos, relatórios, minha presença, minha companhia. "Se vista melhor, beba menos, converse mais, atenda ao telefone, socialize, não seja tão hostil, tão dura, estude, trabalhe, viva essa merda e sorria". Você pode não entender nada de matemática, mas a vida te sacaneia, a vida te cobra em progressão geométrica. Que grande bosta. Cobranças exponenciais, que inferno... Cobram até a minha felicidade. Pois lhe digo: esse troço que chamam de felicidade passou por mim e nem me deu oi. Eu fui deixada para trás, fui abandonada e nem questionei. Então não me cobrem. O que eu tenho é uma tristeza que me devora por dentro para depois cuspir meus pedaços. E eu não sei o que fazer com eles. Porra, eu quero afundar na poltrona e tragar meu cigarro, secar uma garrafa de vodka vendo as pás desse ventilador girarem. Eu quero mesmo é me arrastar na minha própria lama, lamber minhas feridas, saborear o meu rancor até a última gota. Porque eu não sou suficiente, porque eu não quero estar no centro. Quero ficar nas margens, nas minhas beiradas, continuar a viver das sobras.

Por favor, aspirinas para suportar essa dor existencial. Grata.

domingo, 21 de março de 2010

Graças a esse artifício

Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado.
Gabriel Garcia Marquez

sábado, 20 de março de 2010

Você se transformou nisso

Você estava tão seco que foi se desfazendo, se desfazendo. Fechei minha mão com toda força para não te deixar escapar e minhas unhas ficaram cravadas na palma. Você se transformou nisso: marcas vermelhas que não me alcançam as veias.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O mesmo sabor


Desci a rua da frustração, dobrei a esquina da solidão, entrei num bar e pedi por obséquio um amor. Um amorzinho nem que fosse paraguaio, uma dose de paixão só para molhar a garganta.

- Só tem tristeza e ilusão.

- Desce primeiro a ilusão com açúcar e depois a tristeza, dose dupla. No final, o gosto fica igual...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Tremor fisiológico

Eu disse que sentira saudade e era absolutamente verdade. Só depois da cagada, veio aquele tuiiin na cabeça: eu falando a verdade assim? Tuiiiin. Esse tremor, merda, esse maldito tremor nessa hora imprópria. Minha perna tremendo e eu sem o menor controle. Agora o tronco e os braços também. Movimentos involuntários. Ah, não! Raios e trovões. Respira, idiota, respira. Sinapses nervosas, descarga de norepinefrina, tudo fisiologicamente explicado, biofísica, potencial de ação, os ínos de cálcio, as fibras musculares. Respira e não treme, cazzo! Músculos intercostais externos, diafragma, expandir pulmões, pressão interna negativa, rápido! Mais um pouco e você bate até os dentes. Calma... concentra! Argh, hipotálamo safado. Fecha os punhos, morde os lábios. Emocional abalado. Ignora, desgraça!

- É impressão minha ou você está tremendo?

- Quê? Não! - risada sem graça - É esse ar condicionado.

terça-feira, 16 de março de 2010

A última coisa que se pode dar de si


Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si.

Clarice Lispector

segunda-feira, 15 de março de 2010

Puzzle

- Cabelo de fogo, chega pra cá. Me dá agonia te ver sempre isolada no canto da sala. O pessoal fica comentando, sabia?

- Dane-se.

- Conta pra mim, por que você sempre fica tão longe?

- Pra evitar esses papinhos de corno aí.

- Deixa a armadura de lado, filhinha. Começa a contar, eu quero saber que diabos se passa nessa sua cabeça incandescente. Manda ver, fala o que acontece contigo. Titio aqui te ouve.

- Ah, acho tem a ver com um quebra-cabeças...

- Claro, isso explica tudo! Continua...

- Então... há uma paisagem e as peças são as malditas pessoas...

- Tem Deus nessa história?

- Acho que foi ele quem projetou, e até que é tudo muito bem bolado. Especialmente nessa sacanagem...

- Não, não para!

- Todo quebra-cabeças tem um número x de peças, e cada uma delas têm seu formato para que haja um encaixe sempre perfeito. O problema é que nesse aqui em que estou - estamos - eu sou uma peça que sobra, não encaixo de jeito nenhum. E o dono do jogo - a vida - fica me forçando, aqui e ali, sem resultados e por isso fica irritada, sei lá, embaralha mais e tudo continua na mesma. Só que em cada tentativa de encaixe, a vida me força com mais brutalidade e minhas bordas se desgastam. As outras peças se desgastam um pouco também, mas voltam a se encaixar, algumas não com tanta perfeição como antes, mas ao menos não sobram no jogo. Apenas eu que vou perdendo pedaços e deixando o vão sempre maior e maior, não estou chegando perto de nenhuma agora.

- Sabe que assim tão próxima você continua casca grossa mas dá pra notar umas rachaduras? É preciso prestar muita atenção, e para saber até que ponto elas vão... só se tocar.

- Nem vem.

- Ah, na boa, eu continuo achando que o teu problema é falta de pica.

domingo, 14 de março de 2010

Mas quem sabe, ela pensou distraída,
 nesse abraço
 tenha espaço
para escrever um sonho.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto

Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto.

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 11 de março de 2010

A carta que não escrevo

Meses depois, após a passagem do seu furacão, saí do meu corpo para verificar os estragos. Está tudo quebrado, é claro. Mas lhe sou grata por cada estilhaço, por cada coisa que ficou fora do lugar e imersa na merda dos que cagaram sobre elas por pura diversão. Te escreveria uma carta para agradecer, com todos os pontos e vírgulas e as suas reticências típicas que condizem com o modo como você fala. Descreveria meu julho de tardes tão frias, meu agosto de puro desgosto e o setembro que assassinou minha ilusão para culminar no outubro mais tenebroso. Citaria os dias de novembro que se resumiram a me embebedar do teu veneno a fim de que eu chegasse em dezembro já morta. Entretanto, foi nele que renasci rodeada pelas velhas borboletas orientais de asas partidas, as mesmas que me empurraram pro teu abismo em outros tempos, as mesmas que jamais olhariam para o meu bueiro, pois sempre temeram meu lado sombrio. Revelaria como meu janeiro não passou de uma música, a música que me deixou sem coragem para contar os meses seguintes porque também as borboletas partiram sem sequer um adeus. Ao final da carta, diria que, em gratidão, te deixo levar qualquer página imunda que aqui se encontra, pois quase todas foram escritas inspiradas em você e nessa desordem que deixou, na minha úlcera que batizei com o teu nome. Você que transformou meus dedos em navalhas afiadas para que tudo o que eu escrevesse sangrasse e, sem saber, você espalhou esse sangue de maneira tão indiscriminada que tantas mãos se sujaram com ele.
Mas não irei enviar carta alguma, você a leria em cinco minutos e demoraria mil anos para entender, porque eu nunca soube e nunca quis ser explícita. Guardarei a carta não-escrita junto com o carinho que também guardo por ti, embora você desconheça e sempre desconhecerá.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Funciona assim:


Quando começa, é quase amor.
Quando termina, é quase morte.

terça-feira, 9 de março de 2010

Descubro

Meu coração, ainda que arrasado por guerras intermináveis, tem mais quartos que um prostíbulo, e abriga paixões efêmeras e amores incuráveis.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Coração partido

- (…) E o amor é sempre complicado. Mas, mesmo assim, os seres humanos precisam se amar, querida. A gente precisa ter o coração partido algumas vezes. Isso é um bom sinal, ter o coração partido. Quer dizer que a gente tentou alguma coisa.
- Meu coração se partiu com tanta força da última vez – falei – que ainda está doendo. Não é uma loucura? Ainda estar com o coração partido quase dois anos depois do fim de uma história de amor?
- Querida, sou do sul do Brasil. Sou capaz de ficar com o coração partido durante dez anos por causa de um mulher que nem cheguei a beijar.
Elizabeth Gilbert in “Comer, Rezar, Amar”

sábado, 6 de março de 2010

Reconheço

Não sou nada além de um mero produto do teu tédio,
um estorvo auto-piedoso.

Diálogo de Todo Dia

— Alô, quem fala?
— Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala.
— Mas eu preciso saber com quem estou falando.
— E eu preciso saber antes a quem estou respondendo.
— Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala?
— Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.
— Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.
— Ah, sim. No aparelho não está ninguém.
— Como não está, se você está me respondendo?
— Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém.
— Engraçadinho. Então, quem está fora do aparelho?
— Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.
— Não parece. Se fosse para me servir, já teria dito quem está falando.
— Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro.
— Se eu conhecesse não estava perguntando.
— Você é muito perguntador. Note que eu não lhe perguntei nada.
— Nem tinha que perguntar. Pois se fui eu que telefonei.
— Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas.
— Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.
— Estou respondendo.
— Pela última vez, cavalheiro, e em nome de Deus: quem fala?
— Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?
— Bolas!
— Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar?

Silêncio.

— Vamos, diga: com quem deseja falar?
— Desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. Esqueci. Chau.

(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Volto para casa, derrotada, 
As pálpebras pesadas
E eu me arrasto com a tristeza no meu encalço
Mas não sinto nada...

Sentir é luxo.

E eu sou lixo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Fica quieto, suas palavras não adicionam nada. Já sei de tudo, decorei essa lorota, toda noite é a mesma coisa. Deixa eu te contar tudo o que tá rolando por aqui, garoto. Me acompanha? Ah, benzinho, eu me esqueci: você não bebe. Nem fermentado nem destilado, porque cuida do corpo. Quantas horas na academia puxando ferro? Deixa pra lá, nem estou a fim de saber. Quer cigarro? Esqueci também: você não fuma. Faz bem, você está todo certo. Mas olha só, jogo a fumaça na sua carinha bonita, tão diferente da minha, que é inchada e borrada de maquiagem. Já vi muitos de você, em toda esquina tem um igualzinho, até no modo de se vestir e pentear essa merda de cabelo. Acho uma chatice, uma tremenda chatice. Mas igual a mim, você já viu? Talvez sim. Talvez uma de mim sentada na sarjeta bebendo cerveja, talvez outra lendo um livro velho no metrô com fones nos ouvidos ou, pior, uma garota com a cara amarrada e os braços cruzados com aquele ar impaciente de quem espera por alguém, encostada num muro sujo qualquer. Mas essa espera doída nunca é recompensada, porque o amor que ela quer nunca chega, porque a cerveja nunca é suficiente para curar tanta solidão, porque nem mergulhada na literatura ela se conforta. Dessas você já viu algumas, mas não muitas, eu sei. Não deu importância, porque não fazia parte do seu mundinho ridículo. Mas e agora eu aqui parada, sozinha e dissimulando simpatia, você se aproxima todo empolgado, não é?! Vá à merda você e todos os outros, não me encha com esse papinho de "gatinha-minha-querida-quié-que-você-faz-da-vida" que eu vomito fácil, aqui e agora, porque eu não suporto tua falsa empatia e esse excesso de músculos hipertrofiados. Ah, não gosta de ouvir essas coisas? Olha pra mim, tô com jeito de quem se importa? Você vai sair daqui me xingando e logo virá outro e outro, enquanto eu estiver aqui virão todos, acredite, eu sei como é. Porra, caralho, que merda, eu só me deprimo com esse lixo!

Mas eu sou ainda mais idiota que você, porque eu tenho esperança de que alguém pode vir aqui pra me puxar pela mão e me salvar.

quarta-feira, 3 de março de 2010


De repente, pareceu estar muito perto
mas quando eu estiquei a mão para tocar
só então eu percebi o quanto sempre esteve longe.

terça-feira, 2 de março de 2010

Para sempre

É realmente difícil voltar para casa após uma bebedeira daquelas. Eu cambaleava devagar e tropeçava em qualquer obstáculo, mas isso não era nada, porque eu não lembrava qual era o nome da minha rua. Todas as ruas eram iguais e as placas não me diziam coisa  alguma. Talvez eu tivesse desaprendido a ler,  mas eu continuava a andar já que meus pés pareciam estar anestesiados. Entrei por uma rua escura, a mais parecida com a minha. Só faltava encontrar a casa certa, mesmo  que não fosse exatamente a minha, à essa altura a casa certa seria aquela que estivesse aberta ou que, sem duelar com a fechadura, por mágica, minha chave servisse para abrir a porta.

São tantas as dificuldades que alguns se perdem no caminho. 
Para sempre.



(Com a colaboração de Alexandre Gentil)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Se pulsar demais acaba matando


O sonho já foi muito longe e eu não cheguei à tempo.
Essa minha fama de má só me gera bebidas goela abaixo e me faz rasurar dramas no diário. São apenas tolices na ponta do lápis riscando a folha pautada e aquela sensação que me desola, porque falta um pedaço, o mais importante, eu até me ousaria dizer. Trata-se daquele destroçado coração que está guardado dentro do armário para que assim eu possa atravessar os dias, sem que estes ultrapassem o limiar do suportável, porque quando se sabe, com pesar, que sua presença no peito é imensamente mais dolorosa que a ausência, é a única decisão possível que se consegue tomar.