bueiro, me abrace forte!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Quase perfeito

Desceu as escadas correndo, como se estivesse com pressa. Mas não estava, não havia necessidade alguma. Já fazia muito tempo que não tinha compromissos, que não vivia. E era bom, era tão bom. Olhou para o relógio disparado, as horas correndo e ela não conseguia acompanhar, tudo a atravessava e ela não sentia nada. Não mais. O amor estava enterrado num vaso amarelo no canto da portaria e ela se recusava a enxergá-lo. Nunca mais, nunca mais - quis se enganar para poder seguir em frente. Deixou o prédio e antes de começar a caminhar fechou os olhos e mordeu os lábios - um breve momento para sentir a brisa morna da manhã. A última, quem sabe. Continuou a andar de olhos fechados pelo meio fio, concentrada nos passos - tão firmes e decididos, embora não soubessem que direção seguir. Não foi muito longe, logo o meio fio acabou, seus pés encontraram a rua e um caminhão encontrou à toda velocidade seu corpo.

Teria sido perfeito se o maldito porteiro não levasse o vaso amarelo para decorar o túmulo.

4 comentários:

Alexandre disse...

Também vou mandar cremar meu amor...

Manuela Acioly disse...

Por acaso achei seu blog um dia, de lá pra cá sempre me encanto com seus textos, sempre tão intensos e com um humor negro único...Parabéns ;]

Manuela Acioly disse...

Inclusive, já postei um texto seu no meu blog, se quiser dar uma olhada: http://collectedesensations.blogspot.com/2009/12/por-fora-uma-armadura-de-aco.html

Rogue disse...

Obrigada, Manuela.

Às vezes me assusto com tanta gente que também abraça o bueiro.