bueiro, me abrace forte!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Paralelamente

Acordou e olhou para o relógio: 06h00. Pulou da cama com raiva, rangendo os dentes. Acordar tão cedo era revoltante. Lavar o rosto, escovar os dentes, trocar de roupa. Café com leite e pão com manteiga. Urinar e escovar os dentes mais uma vez. Sem maquiagem hoje, não tinha disposição. Tudo corria como o de costume até que se lembrou re-pen-ti-na-men-te: ele ainda deve estar dormindo. Lembrou dele, como há muito tempo não se lembrava. Pelo menos não assim tão cedo, ao acordar. Certamente ele estava dormindo, só levantaria mais tarde e tomaria um suco, comeria pão integral com queijo branco. Quem sabe um mamão também. Pensamentos indo e vindo e ela pegou sua mochila, chave nas mãos e partiu. Ele também pegaria a mochila, chave nas mãos e partiria para o trabalho. Ela pegou o trem para a universidade. Ele pegaria um ônibus. Ela viajou lendo contos de Caio Fernando Abreu ao som de Janis Joplin, a cabeça abaixada enfiada no livro, as pernas cruzadas balançando impacientemente. Ele se contentava apenas com os fones de ouvido. Ela conhecia o set list dele. Então antes que ela chegasse para a aula, ele realmente acordou, tomou um suco de maçã, comeu uma fatia de pão integral com queijo branco. Pegou a mochila que estava jogada em cima da cama, chaves na mão e caminhou até o ponto. Subiu no ônibus, fones nos ouvidos. Chegou ao trabalho, bom dia bom dia como-vai-tudo-bem com licença. E a manhã passou assim, sem grandes emoções. Ela assistindo aulas, ele sentado em frente ao computador. Dis-tra-i-da-men-te ela lembrava dele, desenhava, escrevia poemas. Ele reclamava da mesmice do trabalho. Chegou a hora do almoço e ele pediu comida chinesa. Ela voltou para a casa, lendo mais contos ao som de The Smiths. Almoçou qualquer-coisa-que-a-mãe-deixou-pronta e depois dormiu pesadamente. A tarde também passou assim, sem grandes emoções. Ela teve um sonho com ele, pagou contas e cortou o cabelo. Ele reclamou das dores na coluna. Chegou a noite, ele voltou para casa, tomou banho, jantou. Ela também voltou para casa, tomou banho, jantou. Ambos ligaram o computador. Novamente, ela se lembrou dele, desta vez com mais doçura, porque as noites de verão eram assim doces e leves, então escreveu e publicou qualquer bobagem em seu blog. Ele leu, mas nem lembrou dela.

4 comentários:

Gaby disse...

Adooreei´... realmente a vida segue assim com esses pensamentos paralelos... que normalmente só um comete enquanto o outro faz qualquer coisa menos lembrar :/

jaqueline disse...

muito bom kah! o pior é que é sempre assim, isso sempre acontece com a maioria das pessoas "/ contos de Caio ao som de Janis é... só faltou uma garrafa de vodka e o maço pra se sentir como personagem dos contos!

Alexandre disse...

"só faltou uma garrafa de vodka e o maço pra se sentir como personagem dos contos!"
concordo....

Régis Eleutério M. Brandão disse...

Sinceramente, não faltou nada...