bueiro, me abrace forte!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Trancada

Não tenho nenhuma chave, mas esmurro a porta do amor com toda força.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

(Mais) um engano

Estava satisfeita com a casa assim vazia, havia uma garrafa cheia de café e ela decidiu enumerar as lembranças, mas sem distinguir se eram alegres ou tristes. Apenas quis enumerar aquelas que frequentemente a golpeavam dolorosamente nos olhos, em especial. Inúmeras vezes perdeu a conta. Depois perdeu a conta de quantas vezes tentou enumerar, mas fazia com toda paciência. Faltava muito para o dia acabar, e, sozinha, ela se permitia pensar nas coisas que amava, deixando os pensamentos correrem tão soltos até chegar no ponto das coisas que deixou de amar. Dedicou grande parte do tempo com isso: pensar naquilo que já não amava. Afundou o corpo no sofá com um meio sorriso, soltando com uma voz rouca sua conclusão final: talvez ele tenha sido apenas mais um... Permaneceu com essa quase certeza até que o telefone tocou e ela se descobriu ainda ansiosa por qualquer sinal dele.
Era engano.
E ela franziu a testa porque a quase certeza a enganara também.
Agora precisava de uma certeza completa para se levantar daquele sofá.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Peça um drink


Nunca, jamais diga o que sente. Por mais que doa, por mais que te faça feliz. Quando sentir algo muito forte, peça um drink.
Caio Fernando Abreu

Por esta razão virei alcoólatra. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ah, meu bem, deixa eu te avisar que ainda cutucarão suas feridas até reabri-las. Tantas vezes que você perderá a conta, vai por mim. A felicidade alheia será esfregada bem na sua cara enquanto você tentará, inutilmente, cuidar dos ferimentos. A vida não permitirá que cicatrizem. Sobrarão palavras e lágrimas.
Use-as!
Serão o bastante para você criar um blog e contar como tudo isso continua a doer.
Depois, num dia qualquer, tomando seu café em frente ao computador, você vai acabar relendo seus escritos e agradecer por tamanha inspiração.

Ninguém foge do bueiro...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Quase perfeito

Desceu as escadas correndo, como se estivesse com pressa. Mas não estava, não havia necessidade alguma. Já fazia muito tempo que não tinha compromissos, que não vivia. E era bom, era tão bom. Olhou para o relógio disparado, as horas correndo e ela não conseguia acompanhar, tudo a atravessava e ela não sentia nada. Não mais. O amor estava enterrado num vaso amarelo no canto da portaria e ela se recusava a enxergá-lo. Nunca mais, nunca mais - quis se enganar para poder seguir em frente. Deixou o prédio e antes de começar a caminhar fechou os olhos e mordeu os lábios - um breve momento para sentir a brisa morna da manhã. A última, quem sabe. Continuou a andar de olhos fechados pelo meio fio, concentrada nos passos - tão firmes e decididos, embora não soubessem que direção seguir. Não foi muito longe, logo o meio fio acabou, seus pés encontraram a rua e um caminhão encontrou à toda velocidade seu corpo.

Teria sido perfeito se o maldito porteiro não levasse o vaso amarelo para decorar o túmulo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Corpo inabitado

Todos me xingando porque eu fico olhando 
como se eu já não estivesse mais dentro do meu corpo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Tem cura?

No começo, parecia remédio. 
Mas agora só dói.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Saudades

Sinto saudades de quem não me despedi direito, das coisas que deixei passar, sem curtir na totalidade; de quem não tive mas quis muito ter.
- Clarice Lispector

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sei que muitas vezes você se pergunta porque diabos ainda fala comigo, enquanto eu me pergunto o mesmo, pois não há mais nada para falar. Tudo já se desintegrou, tudo o que era para ser e não foi - o que você não deixou ser, aliás, e não tiro sua razão. Mas o seu silêncio consegue ser ainda mais destruidor. Não te cobro nada e nem poderia. Fico escrevendo seu nome repetidas vezes no caderno, como se isso pudesse te aproximar de mim, como se isso me aliviasse ao admirar a harmonia das letras e imaginar que com elas, quem sabe, eu pudesse reescrever nossa história. Mas então volto à realidade aos trancos dolorosos e constato que nunca houve nada para chamar de nosso, havia você de um lado da linha e eu do outro, nunca convergimos de verdade, pois, afinal, tínhamos interesses diferentes. Eu fui sua distração e você... Ah, o que importa? Eu te compreendo, já tive as minhas também. Mas agora estou tão cansada que não me aguento, fico arrasada com cada um dos meus fracassos, com essas milhões de tentativas inúteis de acreditar que não foi nada demais, que vai passar, que vai passar. Porque uma hora passa, não é?  Prendo meus cabelos e meu desespero, tiro os óculos e ah que saco, ainda tenho uma vida inteira nascendo e morrendo nela a cada história mal resolvida. Sei que nem sou velha demais para já dizer que estou exausta desses tombos irracionais que levo e da montanha de erros grotescos frutos da minha ingenuidade, mas é uma merda analisar um por um e perceber que nunca aprendo.


Garçom, traga mais vodca e me faça um cafuné. Mas não exagere no afeto, senão eu me apego...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Business

Me ignora, meu bem, me ignora

Me ignora, que esse drama me rende boas histórias

Tão frágil e patética

A vida prega peças que estão além da nossa compreensão. O dia era bom, ela tinha amigos, sol e cerveja, e era perfeito, mas  se sentia vazia. Porque ela estava sendo obrigada a encarar mais uma história sem desfecho. Não sabia o que fazer ou onde colocar as mãos. E a pressão nas temporas a impedia de falar, como se tivesse algo a esconder, como se ela quisesse se esconder enfim. Porque era simples, simplesmente dizer. Mas não dizia, porque certos silêncios falam por si só. Restou apenas sua mudez e o olhar parado encontrando o nada. O mais absoluto nada, o mais agonizante, o mais desesperador. O que passava na cabeça dela? Nem ela sabia, não nomeava os sentimentos assim, pois desistiu de tentar entender. Tão frágil e patética - disse finalmente, como se fosse a melhor explicação para o próprio estado.
Mas ninguém ouviu.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sobrei

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui.
Clarice Lispector in “A hora da estrela”

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Não vejo o amor, descobriu acordando: desvio dele e caio de boca na rejeição.
 Caio Fernando Abreu

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval de merda

Então era sábado de carnaval e, pela primeira vez, eu não quis reclamar, praguejar e ficar injuriada. Eu quis ir pra buatchy, beibe. Porque eu continuo sendo muito ingênua, porque eu acreditei que essa época poderia ser boa se eu estivesse disposta a dar uma chance. Eu tinha minhas opções: as baladas alternativas. Uma open bar, uma vip, uma GLS e uma super descoladinha. A open bar além de cara, era perigosa (uma turma de alcoólatras num open bar? NO); a vip sempre me traz certas recordações que eu prefiro dispensar ultimamente; a GLS botava medo na fração masculina do grupo. Sobrou a super descoladinha. No site, ela era magnífica. Não saia no carnaval, meu pai disse. Mas sou jovem e idiota, fui mesmo assim. Chegamos sóbrios, empolgados e muito cedo. Hora do esquenta. Algumas cervejas naquele calor infernal, algum tempo caminhando, mais algum tempo esperando e finalmente entramos. De tão descoladinho, o lugar tinha cheiro de mofo na entrada. De tão descoladinho, não havia quase ninguém lá. De tão descoladinho, as bebidas eram muito caras. De tão descoladinho, todos os caras tinham pinta de veado metido. De tão descoladinho, rolavam músicas tão alternativas que eu nem conhecia. De tão descoladinho, eu pedi uma música SUPIMPA para o DJ e ele não tocou. De tão descoladinho, eu me senti uma estranha no ninho. De tão descoladinho, eu fiquei de saco cheio. De tão descoladinho, meu amigo dormiu profundamente no sofá. De tão descoladinho, minha amiga foi pedida em namoro. De tão descoladinho, eu não tive vontade de dançar. De tão descoladinho, eu queria voltar para minha casa e dormir. De tão descoladinho, eu aprendi duas lições:

  1. Carnavais são, definitivamente, uma merda;
  2. Meu pai sabe disso.

    Nada mais clichê

    Hoje eu poderia escrever mil linhas com esses meus dedos agitados, expor minhas palavras guardadas à sete chaves. Mas nesse exato momento, devido à minha babaquice e ao elevado teor etílico no sangue, só consigo olhar tua foto e dizer: pois é, eu (ainda) estou apaixonada por você.

    sábado, 13 de fevereiro de 2010

    De puro curda - Otros Aires

    Hey Waiter! give me another glass of vodka
    I drink whithout reason, I don`t know why
    I don`t do it just for love like in the old times
    Don´t eather to decive my broken heart.

    No tengo un mal recuerdo que me aturda
    No tengo que olvidar una traición
    Yo tomo porque si, de puro curda
    Para mi siempre es buena la ocasión

    I really don´t care what people tell about
    That spend all my life, just into the bar
    I don´t stop to be decent, I don´t stop to be human
    That cares for the people that need to be touch.

    Me gusta y por eso le pego al escabio
    A nadie provoco no obligo jamás
    Y al fin si tomando, me hago algún daño
    Lo hago conmigo, de curda nomás.

    Yo tengo bien templado el de la zurda
    No tomo pa´aguantar un tropezón
    Yo tomo porque si, de puro curda
    Para mi siempre es buena la ocasión.

    I really don´t care what people tell about
    That spend all my life, just into the bar
    I don´t stop to be decent, I don´t stop to be human
    That cares for the people that need to be touch.

    No more tears

    O nó bem apertado na garganta, invisível
    Deixava a respiração difícil
    Cada vez mais, cada vez mais
    Nenhuma música, apenas o som dos carros na rua
    Nó apertadíssimo, o ar não entrava e nem saía
    Mas ter os olhos tão secos era a pior agonia.

    sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

    Nem um bolero

    Os cotovelos apoiados no balcão, encarava o bartender. Contou a ele: pois é, e tudo o que ficou foi o que se desprendeu. Ele não deu atenção. Ela continuou: pequenas lascas, no máximo, e girando no olho do furacão, escapando desses meus dedos de unhas compridas pintadas de vermelho. Blá blá blá, desistiu dele e passou a conversar consigo. Garrafas de café durante a madrugada, discos de blues e lexotan, lembrou fatigada. Um último suspiro por essa história que já não vale mais nada, prometeu. Não cumpriu, pois o coração continuava a bater. Insistente mesmo entre os hematomas, mesmo com a ferida aberta que latejava. Coração esburacado e idiota, maldita insistência. O amor é infecção generalizada, escreveu no guardanapo. Mas não havia nada de poético ou fabuloso, não servia nem para compor um bolero sequer. Nem um bolero. Girou mais uma vez o dedo dentro do copo vazio com duas pedras de gelo, apagou o cigarro e pediu outra dose. O bartender atendeu.

    quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

    Paralelamente

    Acordou e olhou para o relógio: 06h00. Pulou da cama com raiva, rangendo os dentes. Acordar tão cedo era revoltante. Lavar o rosto, escovar os dentes, trocar de roupa. Café com leite e pão com manteiga. Urinar e escovar os dentes mais uma vez. Sem maquiagem hoje, não tinha disposição. Tudo corria como o de costume até que se lembrou re-pen-ti-na-men-te: ele ainda deve estar dormindo. Lembrou dele, como há muito tempo não se lembrava. Pelo menos não assim tão cedo, ao acordar. Certamente ele estava dormindo, só levantaria mais tarde e tomaria um suco, comeria pão integral com queijo branco. Quem sabe um mamão também. Pensamentos indo e vindo e ela pegou sua mochila, chave nas mãos e partiu. Ele também pegaria a mochila, chave nas mãos e partiria para o trabalho. Ela pegou o trem para a universidade. Ele pegaria um ônibus. Ela viajou lendo contos de Caio Fernando Abreu ao som de Janis Joplin, a cabeça abaixada enfiada no livro, as pernas cruzadas balançando impacientemente. Ele se contentava apenas com os fones de ouvido. Ela conhecia o set list dele. Então antes que ela chegasse para a aula, ele realmente acordou, tomou um suco de maçã, comeu uma fatia de pão integral com queijo branco. Pegou a mochila que estava jogada em cima da cama, chaves na mão e caminhou até o ponto. Subiu no ônibus, fones nos ouvidos. Chegou ao trabalho, bom dia bom dia como-vai-tudo-bem com licença. E a manhã passou assim, sem grandes emoções. Ela assistindo aulas, ele sentado em frente ao computador. Dis-tra-i-da-men-te ela lembrava dele, desenhava, escrevia poemas. Ele reclamava da mesmice do trabalho. Chegou a hora do almoço e ele pediu comida chinesa. Ela voltou para a casa, lendo mais contos ao som de The Smiths. Almoçou qualquer-coisa-que-a-mãe-deixou-pronta e depois dormiu pesadamente. A tarde também passou assim, sem grandes emoções. Ela teve um sonho com ele, pagou contas e cortou o cabelo. Ele reclamou das dores na coluna. Chegou a noite, ele voltou para casa, tomou banho, jantou. Ela também voltou para casa, tomou banho, jantou. Ambos ligaram o computador. Novamente, ela se lembrou dele, desta vez com mais doçura, porque as noites de verão eram assim doces e leves, então escreveu e publicou qualquer bobagem em seu blog. Ele leu, mas nem lembrou dela.

    quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

    Se eu gritasse

    Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante.

    – Clarice Lispector

    terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

    Quando tudo é demais eu escolho existir menos. Escolho a fuga, a loucura, os devaneios, o meu bueiro. As veias dilatam e eu corro desse lugar que chamo de mim. Vou me deixando pelo caminho, os restos, os rastros, meus pequenos pedaços nas entrelinhas. Quem quiser que pegue ou deixe que o vento leve, assim para bem longe para que eu me esqueça, sem dor e sem rancor, dessa verdade que me sangra da alma.

    segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

    Drama Queen


    - Ué, por que então não liga pra ele?

    - E dizer o quê? Que sequei as garrafas, atirei as taças, fumei quatro maços numa noite, bati o carro, roi as unhas até não me servirem nem para arranhar minha própria pele em dias de angústia? Que dormi no piso gelado, acordei com olhos inchados e molhados e me viciei em calmantes? Que, para esquecer e me livrar das lembranças tão amargas ou muito doces, frequentei bares e boates, mas que nada adiantou? Que esperei e esperaria eternamente? Que li em algum lugar que quem ama perdoa e acreditei e perdoei? Que ainda fui muito mais tola, que acreditei em nós mesmo sabendo que "nós" nunca existiu? Que deixei de ser fera para que, no final, me ferissem assim?

    - É, pode ser isso mesmo. Foi dramático, gostei.

    - Talvez cause maior impacto dizer que perdi o apetite e fiquei anêmica também...

    domingo, 7 de fevereiro de 2010

    A culpa não é sua,
    sou eu quem adora encarnar a
    "história da borboleta que se apaixonou por um soco".

    sábado, 6 de fevereiro de 2010

    ... você sempre parte quando eu preciso que fique.

    sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

    Acreditava que sim. Que sim. Sim.

    Os pés enfiados na areia morna, a brisa resfrescando a face - a pele branca que escondia um monstro tímido. Era monstro porque assim nasceu, não lhe pergutaram o que queria ser, não lhe deram opções. Nasceu monstro e ponto. Ninguém acreditava em sua boa índole e nem ela sabia se a tinha de fato. Mas queria acreditar. Queria, sim. Sim. Ficou ali parada quase uma hora inteira, sem dizer nada, sem dar atenção as pessoas em volta, quase não piscava porque temia deixar escapar algum movimento de ondas. Simplesmente ficou ali, com o olhar perdido e uma ruga entre as sobrancelhas. Quem a visse assim, diria que estava procurando algo, tamanha sua seriedade e concentração. Mas não estava. Longe disso aliás, estava apenas querendo se perder um pouco, ficar alheia, biruta, tonta de loucura ou qualquer coisa absurda que pudesse aliviar tanta dor de existir - embora tivesse grandes dúvidas a respeito de sua própria existência. Seu corpo pedia por isso e a mente implorava, gritava durante a noite para assustar o sono. E conseguia. Já estava há quase uma semana sem dormir, olheiras profundas, aparência mórbida, sem energia. Menina-zumbi, dizia sua avó. Para dar jeito, só mesmo admirar o mar, o horizonte vermelho de fim de tarde, o sol querendo se deitar, cheio de preguiça. Descobriu uma maneira saudável de se perder para se sentir viva, nem que fosse por alguns instantes. Dormiria bem essa noite. Acreditava que sim. Que sim. Sim.

    quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

    Dirty Dancing


    ♫ Now I've had the time of my life
    No, I've never felt like this before
    Yes I swear it's the truth
    And I owe it all to you ♪

    Todos dançavam. Mas de repente ele veio vindo me olhando nos olhos e quase sorrindo. Pareceu que sorria com olhos, e eu o achei bonito. Fiquei um pouco séria, mas querendo sorrir também. Todos estavam suados, ele mais ainda, com uma camisa sobreposta de manga comprida, cabelo desgrenhado e empapado de suor, a testa brilhando prestes a pingar. Foi chegando mais perto, me pegou por uma mão e pousou a outra na minha cintura, me puxando para perto dele. Assim - ele disse. Quê? - perguntei. Assim, ó, você coloca a outra mão no meu ombro, assim ó - ele explicou. Tá - eu assenti. Passou a mão no meu rosto e depois apertou um pouco minha bochecha. Sorriu e eu sorri também. Me olhou nos olhos e eu desviei, olhei para o globo acima da minha cabeça que girava e girava dissipando as luzes coloridas que acertavam as outras pessoas e as paredes. Agora é assim, ó - ele disse novamente. O quê? - perguntei. Então ele me girou e colou seu corpo por trás do meu, senti sua respiração mais forte e meu coração disparado. Colou também o rosto quente junto ao meu e deslizou a mão em minha nuca, apertando e subindo os dedos até os enfiar por entre meus cabelos molhados, e assim se afastou um pouco e ficou me olhando alguns instantes até se aproximar de novo com a boca entreaberta, dizendo:

    - Tô louquinha do meu cu, quase que virei macho, danada! Vamos beber água?

    quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

    Vale mesmo a pena ficar aqui debruçada na janela me derramando junto com essa chuva? Tenho para mim que até essa vista manchada de cinza me ignora, com esses pingos caindo em traços, tudo muito rápido, quase como tiros disparados do céu. Mas aqui não me atingem, nem isso. Aperto mais os olhos, fico rangendo os dentes, braços cruzados contra o peito, meu corpo inclinado para fora da janela querendo ir junto com tudo o que vejo. Mas me detenho. Vento nos cabelos, é tanta solidão que me arrepia. Tanta solidão que se alguém me espremer, sai ácido. A vida está acontecendo lá fora e não aqui dentro. Aqui não tem nada, só um pouco de vodca...

    terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

     
    Meu bem, agora tanto faz...
    mas pisa devagar.                        

    Baseado em fatos reais (que não são meus)

    Saiu de casa brigada com a mãe, o pai e o irmão. Vou pra sinuca na augusta e me acabar, tenho um maço de L.A. cereja na bolsa e tenho isqueiro também, nem tente me impedir, disse para si mesma com um certo rancor, uma certa coragem que desconhecia. Encontrou os amigos, 20 garrafas de cerveja barata, um maço inteiro e ainda quis mais, subiu e desceu a augusta, beijou o próprio amigo, conversou com o mendigo, depois teve a vodca, teve cachaça pura. Enjôo. Flash: calçada da augusta e catuaba e travestis: é dia do sexo, porra! Flash: banheiro, precisa lavar as mãos assim por causa da gripe suína, tá vendo? Flash: calçada e vômito e calçada. Flash: em cada estação do metrô, pausa para vomitar. Flash: abraçou a lixeira. Flash: já estamos quase em casa. Flash: abriu a porta e se apoiou para não cair, óculos quebrados, e a blusa, cadê a blusa? Que se foda, imundice, imundice. A mãe veio vindo com uma expressão mista de fúria e preocupação:

    - Andou bebendo, foi?

    - Bebi. Bebi mesmo. Só não bebi mais porque o Nelson perdeu o dinheiro.

    segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

    A gente busca coisas inteiras, todos os dias. Juntando cada pedaço e fingindo estar inteiro. Mas a gente só vive mesmo é com as partes.

    A sina do homem

    É preciso largar o cigarro. É preciso largar o açúcar. É preciso largar ou moderar os carboidratos, essa montanha de massas, pães, biscoitos que ingiro, que ingerimos. Eu não bebo, mas quem bebe tem de largar a bebida etc.

    E ficar com o quê?

    ***

    A vida, primeiro, é uma aceitação dos prazeres ou até uma adaptação consumista às necessidades. Lá mais adiante, nos submetem à imperiosidade da renúncia.

    No início, é preciso fisgar essa mulher, atraí-la, enchê-la de afeto, satisfazê-la na lascívia, é uma mão de obra descomunal a conquista.

    Mais tarde, é preciso largar esta mulher (ou este homem). Ela não era quem eu pensava ou simplesmente me cansou. Mas como largar esta mulher agora que os laços econômicos, sociais, existenciais se estreitaram tanto?

    Como largar o cigarro se ele já se incorporou ao meu metabolismo de tal sorte que não suporto a ideia de viver sem ele?

    ***

    Como largar o arroz de leite, o quindim, os ovos-moles, o pudim de laranja que se esparramam todos diante dos meus olhos na carta de sobremesas?

    Mas, então, no meio ou no fim da minha vida, terei de me privar de todos os prazeres a que estou acostumado?

    Terei de criar outras delícias, aprender a comer peixe cru como os japoneses? Mas peixe cru não desliza mais pela garganta e pelas glândulas salivares da minha formação alimentar e hedônica. O que desliza redondo em mim, tornando meu dia prazeroso e minha vida feliz, é o sagu com creme de leite.

    ***

    Então, a vida é um pega e larga constante. Pega o sal, larga o sal, mas só larga o sal depois que estiver bem acostumado com o sal. Com a mulher também. Com os doces, com as massas.

    Depois que gostou do sexo, viciou-se no sexo, tem agora de usar a camisinha. O doce é maravilhoso, mas engorda ou eleva perigosamente a taxa glicêmica. Vê se passa para o alimento dietético, mas o alimento dietético e a camisinha são umas porcarias.

    ***

    A vida é um incessante pegar e largar. Pega o namorado, larga o namorado. Pega o emprego, larga o emprego e mergulha no desespero do desemprego.

    Pegar é bom, largar é um inferno. Casar é bom, tanto que todos se casam, mas descasar, que teria também de ser bom, vira um inferno.

    ***

    Então tem-se de ser muito forte para viver. O homem é um animal muito forte, o mais forte de todos os animais. Porque ele está sempre tendo de iniciar alguma coisa e logo em seguida é obrigado a interromper o processo. E recomeçar tudo de novo.

    Não há mente nem corpo que resistam. Se o homem fosse como o camelo ou a capivara, que sempre bebem e comem a mesma coisa, que fazem sexo sem divórcio e não cuidam da saúde nem têm sequer ideia nem medo da morte e do futuro, só então poderia ser feliz.


    *Texto de Paulo Sant'ana, publicado em 28 de novembro no jornal Zero Hora.