bueiro, me abrace forte!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Porra-louca-solitária

- Você escolhe demais.
- Hã?
- Vai acabar solteirona.

Era natal e esse foi o diálogo com minha adorável tia ao nos despedirmos. E foi algo que me fez parar para pensar. Pensar que já perdi a conta de quantas vezes já disseram que eu "escolho demais" ou que "vou acabar solteirona". Concordo com a previsão de que jamais me casarei ou mesmo chegue a namorar. Ninguém precisa me conhecer muito bem para saber disso, acho que já vem estampado na minha testa. Meus amigos chegaram a questionar minha sexualidade durante muitos anos até que comprovaram que eu era uma heterossexual não praticante pura e simplesmente por minoria de votos, opção, timidez, acaso, destino, enfim...
O fato é que eu não dou certo com as pessoas. Sequer dou certo comigo mesma. Meus "casos" nunca passam de dois encontros. Falta interesse de alguma das partes ou de ambas. Quase não me apego a ninguém. Quase. Porém, esse "quase" quando acontece, é sinal de que me apeguei além do necessário. Além do permissível, do suportável. E é exatamente aí que mora a cagada toda. É o que me fere por dentro, é o irremediável, é a minha doença. Passei muito tempo perdida em amores completamente platônicos mas hoje esses amores se tornaram um pouco mais "palpáveis" e, em virtude disso, muito mais dolorosos. Conseguir aquilo que se quer, pode ser nocivo. Ainda mais quando você não consegue por inteiro. Quando ele é apaixonado por alguém e você foi só uma distração, uma manobra errada, uma tentativa inútil de esquecer a "mulher inesquecível". Ou quando ele mora longe e você precisa estar programada na agenda de compromissos, encontros, sorte do destino.
Não me apaixono pelo mais bonito, pelo mais saudável, mais popular, mais amável. Nada que é perfeito ou fácil ou possível. É sempre pelo mais confuso, mais curioso, (in)diferente, complicado, distante. Sempre pelas impossibilidades que tornam alguém tão atraente aos meus olhos. Talvez porque eu seja assim tão neurótica e impossível também. São por essas razões que inevitavelmente eu terminarei meus dias sozinha, sem nunca ter vivido um amor correspondido, um relacionamento duradouro ou mesmo um "rolo". Mas isso não me faz parar.
Estou sempre fora da roda, montada na minha loucura. Sou a porra-louca-solitária que abraça com força o bueiro. Não são livres escolhas.

Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado comigo: um dia encontro.
Caio Fernando Abreu

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