bueiro, me abrace forte!

sábado, 16 de janeiro de 2010


Furto migalhas de memórias alheias para escrever poemas falso-amorosos e ficções. Ou talvez tudo não passe da minha realidade que teimo em camuflar. Devo ter exatos mil eus espalhados por aqui e é por isso que me estranho tanto diante do espelho. Essa face que não reconheço, esses olhos inquietos que não se acostumam com o que veêm. Não, esses retratos não são meus! Ou são? Como poderia saber, se estou sempre desfocada, sorrindo falsamente e dolorosamente por não saber quem sou? Alguém entenda que eu não sou capaz de me encontrar, de me sentir, de me pertencer. Não é culpa minha, pois estou sempre procurando a outra ponta do novelo mas só me perco mais e mais, tomando caminhos que não podem ser meus. Caminhos que eu não quero percorrer, não com tantas pedras machucando meus pés, que tornam meus passos desconexos e deixam esse rastro vermelho, formando poças grotescas cada vez que fico parada olhando para o céu esperando algum sinal divino. Mas não há como me salvar desse deserto. Não quando se sabe que a tortura é algo mais aqui dentro, é nessa minha alma desalojada e assustada. Finalizo meus dias sussurrando devaneios, ensaiando alguma honestidade e falho terrivelmente. Calculo meu vazio e o tento ocupar com vícios, mas sobra espaço. Há sempre algo para ser preenchido e eu já estou cansada dessa busca eterna que apenas acumula relacionamentos inférteis, fracassos amargos, cartas rasgadas e pálpebras pesadas por noites insones.
Não sei se para continuar a existir eu deveria me transformar numa farsa completa ou me deitar nessas pedras e jogar sal nos olhos esperando alguém que me resgate e me descubra.

Nenhum comentário: