bueiro, me abrace forte!

domingo, 31 de janeiro de 2010

Nunca teve pretensões a amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor.
- Gabriel Garcia Marquez

sábado, 30 de janeiro de 2010

Teria sido fatal

"Aprendi a amar menos, o que foi uma pena, e aprendi a ser mais cínica com a vida, o que também foi uma pena, mas necessário. Viver pra sempre tão boba e perdida teria sido fatal." 
Caio Fernando Abreu

Baseado em fatos reais. Ou não.

- Qual seria o melhor processo: a reprodução sexuada ou assexuada? - perguntou a professora.

A aluna pensou rapidamente analisando a vantagem da variabilidade genética e respondeu:

- Sexuada.

O colega que estava setando ao lado disse baixinho em seu ouvido:

- E mais gostosa, né?!

- Pô, não sei... - respondeu com sinceridade e deu de ombros.

- Quê? Você é vir...

- Shhh! Presta atenção na aula, merda!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Simples assim

Você não me ama e a culpa é minha
Afinal, se você fosse alcançável,
Eu não te amaria

Domingos

Fiquei sentada no banquinho branco da praça mais triste que encontrei e me senti vazia demais até parar chorar. As lágrimas não vinham. Não mais. Eu poderia estar louca por um cigarro, mas não estava. Era domingo, dia em que travamos uma guerra interna. Nem se sabe contra o quê exatamente, mas guerriamos e eu acabo me esfarelando mais. Culpa das lembranças, culpa dos domingos serem assim sempre tão cinzas até quando tem sol. Acho que domingos ensolarados são ainda piores, derretem as imagens de um jeito que me deixa desolada. Avisto essa paisagem distorcida, com rostos desconhecidos e fico me perguntando qual seria exatamente o meu lugar no mundo. Nenhuma resposta surge e também não ouso quebrar o silêncio. Um monte de palavras querendo sair e não saem, não tenho meios de colocá-las pra fora. Meus domingos são de ressaca e saudade, cabeça pesada e olhos que tentam marejar e ficam barrados na tentativa.
Mas quem sabe tudo isso não esteja sendo forjado só para eu clicar em nova postagem e escrever?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Não ando triste, tampouco alegre. Ando bem fingida e dissimulada a ponto de sorrir para estranhos, dizer qualquer bobagem para quem quiser ouvir. Estou num estado de solidão que parece até castigo, mas não é. É apenas uma das muitas consequências dos meus atos, dessa máscara safada que eu uso, que abafa meus sentimentos. Tua falta já não me dói, nem tua indiferença. Tenho caminhado mais pelas curvas, dormido mais, me demorando na arte de viver. Descumpri algumas promessas pra esse ano, me trai, esqueci de retornar ligações, interpretei errado o que me disseram e nem tive o trabalho de me magoar. Estou desviando do mundo e dos toques humanos. Faço de caso pensado, mas nem sempre. Porque tem coisas que a gente não controla, quando percebe, já está feito e tudo bem, quem se importa? Ninguém, claro. Desmarco compromissos, não me despeço e tanto faz. Vou continuar vivendo mais um pouco para dentro de mim mesma e não me enxergar. E tudo bem.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Uma história com um começo-sem-começo
Um meio suspenso
E um fim que eu desconheço

Tão confusa que me perco



Minha loucura é intencional.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


Todos já se foram e eu só acordei agora.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Eu me perco nessas (im)possibilidades

Você me lê e minha vontade é te escrever desenfreadamente.

Então contenho meus dedos para que tudo não me escape e me denuncie.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Porra-louca-solitária

- Você escolhe demais.
- Hã?
- Vai acabar solteirona.

Era natal e esse foi o diálogo com minha adorável tia ao nos despedirmos. E foi algo que me fez parar para pensar. Pensar que já perdi a conta de quantas vezes já disseram que eu "escolho demais" ou que "vou acabar solteirona". Concordo com a previsão de que jamais me casarei ou mesmo chegue a namorar. Ninguém precisa me conhecer muito bem para saber disso, acho que já vem estampado na minha testa. Meus amigos chegaram a questionar minha sexualidade durante muitos anos até que comprovaram que eu era uma heterossexual não praticante pura e simplesmente por minoria de votos, opção, timidez, acaso, destino, enfim...
O fato é que eu não dou certo com as pessoas. Sequer dou certo comigo mesma. Meus "casos" nunca passam de dois encontros. Falta interesse de alguma das partes ou de ambas. Quase não me apego a ninguém. Quase. Porém, esse "quase" quando acontece, é sinal de que me apeguei além do necessário. Além do permissível, do suportável. E é exatamente aí que mora a cagada toda. É o que me fere por dentro, é o irremediável, é a minha doença. Passei muito tempo perdida em amores completamente platônicos mas hoje esses amores se tornaram um pouco mais "palpáveis" e, em virtude disso, muito mais dolorosos. Conseguir aquilo que se quer, pode ser nocivo. Ainda mais quando você não consegue por inteiro. Quando ele é apaixonado por alguém e você foi só uma distração, uma manobra errada, uma tentativa inútil de esquecer a "mulher inesquecível". Ou quando ele mora longe e você precisa estar programada na agenda de compromissos, encontros, sorte do destino.
Não me apaixono pelo mais bonito, pelo mais saudável, mais popular, mais amável. Nada que é perfeito ou fácil ou possível. É sempre pelo mais confuso, mais curioso, (in)diferente, complicado, distante. Sempre pelas impossibilidades que tornam alguém tão atraente aos meus olhos. Talvez porque eu seja assim tão neurótica e impossível também. São por essas razões que inevitavelmente eu terminarei meus dias sozinha, sem nunca ter vivido um amor correspondido, um relacionamento duradouro ou mesmo um "rolo". Mas isso não me faz parar.
Estou sempre fora da roda, montada na minha loucura. Sou a porra-louca-solitária que abraça com força o bueiro. Não são livres escolhas.

Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado comigo: um dia encontro.
Caio Fernando Abreu
Pego meu maço de cigarros para fumar e me acomodo na sacada. É dia de contemplar esse mundo podre e sujo. Tão bonito que me dá vontade de voar igual essas pombas feias da cidade. Mas eu seria uma pomba gigante. A maior que vocês puderem imaginar, do tamanho de um Zeppelin, por exemplo. É! Tudo isso só pra poder cagar na cabeça das pessoas que eu vejo lá embaixo. Quase me mijo de euforia imaginando o gozo que deve ser. Sublime! As pessoas andando, umas mais apressadas e outras menos, mas todas carregando seus problemas, seus sonhos, e, de repente, um monte de bosta caindo bem na cabecinha distraída delas. Eu seria um avião militar russo despachando bombas. De merda! Plaaaaft! E eu capricharia mesmo na cagada, no duro! Seria uma cagada cem por cento, dessas dignas de serem filmadas e exibidas em câmera lenta num programa de TV. E então essas pessoas ficariam cabreiras, muito putas e cheias de merda me xingando indignadas com o ocorrido. Mas eu estaria lá em cima, bem no alto mesmo e nem poderia ouvi-las. Eu sorriria. O sorriso que os retardados esboçam quando comem sabonete. Falo assim porque eu já vi essa cena e é a coisa mais legal de se ver, fora de brincadeira! Seria o tipo da coisa que me deixaria realmente feliz. E agora eu já fumei uns cinco cigarros e meu pulmão está um pouco mais preto.
É, eu sei que nunca vou poder sair por aí voando e cagando nos outros. Uma lástima.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010


E é isso que me inspira. Todo dia.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

The woman on p. 194


Lizzie Miller, modelo, 20 anos. Linda e loira, ficou conhecida como "a mulher da página 194" após seu trabalho numa das edições da revista americana "Glamour". Ela atua no mercado das modelos “plus size”, ou seja, de tamanhos grandes.

– É triste – afirma Lizzie. – Na indústria (da moda), qualquer coisa acima do 36 é considerada "tamanho grande".

Medindo 1,79m, pesando 79kg e vestindo manequim entre 42 e 44 - um insulto ao mundo das anoréxicas -, Lizzie fez com que a revista recebesse inúmeras cartas e e-mails em razão dessa barriguinha saliente. Porém, o teor das mensagens indicavam alívio e aprovação. Uma mulher de corpo real. Sem Photoshop ou retoques, vendendo saúde e não ilusão.




Então eu deixo a perfeição para os iludidos e continuo com minhas gordurinhas, gostem vocês ou não.

Sucesso pra Lizzie.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sobre o tempo e as mudanças

"O tempo muda tudo. O tempo vai mudar você, menina. E você nem sabe..."

Nossa última conversa se encerrou assim, e eu não imaginava que ele estivesse tão certo. Não que eu tenha mudado radicalmente. "Radicalmente" nunca fez parte da minha vida. Mas eu mudei e isso é evidente. Algumas coisas em mim mudaram. E talvez eu ainda nem saiba o quanto, pois não tenho coragem de ir a fundo em nada, muito menos em mim mesma, com tanta coisa bagunçada e suspensa que eu carrego.

O tempo muda tudo. O tempo deve ter mudado esse cara e vai mudar você também, não é uma questão de escolha...
Manter a cabeça ocupada evita a doença do amor?

Fica a dúvida...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Urgências

Eu prefiro que você desapareça. É minha necessidade urgente. Eu prefiro e eu preciso, embora não queira de fato. Tenho que respeitar minha fraqueza e aceitar que é melhor que eu sofra sua ausência, que me sinta vazia e solitária. A verdade é que cada movimento teu faz eu me descobrir ainda mais tola e iludida, porque você me rodeia de lembranças e falsa atenção. Então meu coração não acalma e te reinventa, reunindo os pedacinhos que eu quebrei só pra te diminuir em mim. Mas de nada adianta se você sempre faz questão de reaparecer nas horas mais impróprias, voltar com mais força e estremecer minhas estruturas já trincadas por tantos abalos. Se você não sumir, eu vou acabar desmoronando e não haverá quem me reconstrua.

Sou incapaz de te mandar embora, mas deixo esse meu apelo.
Nós, os humanos, temos essa horrível e maravilhosa capacidade de sofrer pelo que não existe. Somos neuróticos.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Dor-de-Idéia”
A vida me força a engolir nãos e o que me conforta são meus momentos de solidão.

Eu não caibo no coração de ninguém...

sábado, 16 de janeiro de 2010


Furto migalhas de memórias alheias para escrever poemas falso-amorosos e ficções. Ou talvez tudo não passe da minha realidade que teimo em camuflar. Devo ter exatos mil eus espalhados por aqui e é por isso que me estranho tanto diante do espelho. Essa face que não reconheço, esses olhos inquietos que não se acostumam com o que veêm. Não, esses retratos não são meus! Ou são? Como poderia saber, se estou sempre desfocada, sorrindo falsamente e dolorosamente por não saber quem sou? Alguém entenda que eu não sou capaz de me encontrar, de me sentir, de me pertencer. Não é culpa minha, pois estou sempre procurando a outra ponta do novelo mas só me perco mais e mais, tomando caminhos que não podem ser meus. Caminhos que eu não quero percorrer, não com tantas pedras machucando meus pés, que tornam meus passos desconexos e deixam esse rastro vermelho, formando poças grotescas cada vez que fico parada olhando para o céu esperando algum sinal divino. Mas não há como me salvar desse deserto. Não quando se sabe que a tortura é algo mais aqui dentro, é nessa minha alma desalojada e assustada. Finalizo meus dias sussurrando devaneios, ensaiando alguma honestidade e falho terrivelmente. Calculo meu vazio e o tento ocupar com vícios, mas sobra espaço. Há sempre algo para ser preenchido e eu já estou cansada dessa busca eterna que apenas acumula relacionamentos inférteis, fracassos amargos, cartas rasgadas e pálpebras pesadas por noites insones.
Não sei se para continuar a existir eu deveria me transformar numa farsa completa ou me deitar nessas pedras e jogar sal nos olhos esperando alguém que me resgate e me descubra.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Não me peça para ficar, porque eu não fico. Me atiro no abismo antes, não penso duas vezes. Quero me poupar. Por isso eu só me ouso no silêncio e tenho mãos aflitas. É pra me proteger. Abafo o grito, mordo a língua e nem me preocupo com a hemorragia. Eu disfarço pra dentro e guardo meus estilhaços nos bolsos do casaco. Ninguém sabe, ninguém vê e é assim que eu escapo. Vou embora com meus arranhões. Sozinha.
Escrever - e você sabe disso - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Eu acho então que se escrever te dá um sentido para estar viva (ou a ilusão de um sentido, que importa?), então vai e escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel.

    Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

“O que salva é escrever distraidamente”


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras - quais? Talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no fundo do poço.

Clarice Lispector.
 Ele era o cara. Ela, apenas uma menina, que nem menina é mais. Ou talvez ainda seja, dependendo do modo como cada um a vê. Mas o que interessa é que ela era uma entre as muitas que ele já conheceu. Entrentanto, havia algo nela, inegavelmente havia algo nela. E ele reconhecia. Confuso. Talvez porque ela se definisse como sendo feita de pedra. Talvez porque ela dissesse que no final dos seus dias acabaria cega. Cega por enxergar demais, pois tinha os olhos intrusos e perturbados. Era uma menina que vivia entre as aspas, rodeada de metáforas e demonstrava isso nas bobagens que escrevia. E, de alguma forma, ele gostava disso. Achava interessante, curioso. Intrigante até. Mas não passava disso. E ela sabia... Pois era apenas uma menina que escrevia a partir das retinas. E ele era o cara que lia. Tudo não passava de uma questão gramatical. Ela era UMA menina e ele era O cara. Artigo indefinido e definido, respectivamente.

Mas o cara nunca entendia...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Eu estou aqui e é isso o que importa agora. Então senta, larga esse cigarro e presta atenção, porque tudo está prestes a se partir. Juro que estou tentando segurar, mas não estou aguentando mais. Pesa feito chumbo, estou formigando por inteira. Ouça bem, pois é verdade o que digo, ainda mais quando eu ensaio e minto. O mundo inteiro me apavora, entende? O mundo inteiro! Até os copos vazios em cima da pia. Até esse cinzeiro lotado de bitucas. E chorar não basta. Tudo escorre por entre meus dedos, tudo se perde a cada momento e não há o que fazer para reverter. Mas isso não é nada enquanto você continua viva e o chicote permanece estalando em suas costas, deixando a carne exposta, sangrando e apodrecendo. Eu já deveria ter parado de tentar ir contra a corrente e fechar meus olhos para não arderem. Tantas e tantas vezes eu deveria ter aceito. Ter sido mais esperta, menos ingênua. Ter sido outra pessoa. Mas talvez eu morra repetindo tudo isso com espamos pequenos e sussurros profundos enquanto você continua com seu cigarro na boca, entediado.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Viver não me parece fácil...

Tem horas que eu dou um nó em mim mesma e não consigo mais desatar. Um milhão de voltas em torno do mesmo eixo e as quedas fatais. Eu faço planos sozinha e sempre fecham a porta na minha cara, com as chaves do outro lado. Nada me satisfaz, nada me sustenta e eu não me liberto do pensamento de que a tendência é piorar. E piora. Basta qualquer coisa estar fora do lugar e todos os meus afetos são afetados e a falta de reciprocidade me fere até os ossos. Toda essa desordem não cabe dentro de mim, então o jeito é vomitar tantas palavras confusas e frases soltas, porque tudo isso me sufoca e quando não sai espontaneamente eu enfio o dedo na garganta. Não me preocupo se vai fazer sentido, eu só não quero explodir.

Eu só não quero ver meus pedaços sujando as paredes brancas dessa sala.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Das vezes que o sol aparece

E nos deixa patéticos.

A verdade é que inevitavelmente sempre encontramos alguém que mexe conosco de um jeito tão bonito que fica até impossível de fugir.

Um abraço. Eu ainda pensei em desprendê-lo dos meus braços, pois tive medo de sufocar, mas assim que comecei a movimentá-los para me soltar percebi que os braços dele ainda estavam grudados em mim tanto quanto eu queria estar colada neles.
Que se há de fazer?
Permaneci ali.

Ah bueiro...  fazia tanto tempo que eu não sentia o coração de alguém pulsar perto de mim...
Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.

Caio F. Abreu

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


Concluo que sou exatamente como o café: essa bebida amarga que as pessoas precisam adorçar para aturar.
Talvez tenha chegado a hora de não olhar mais para trás. Ainda que o céu pareça desbotado, ainda que os gostos estejam amargos, ainda que os rostos estranhos lembrem um rosto tão conhecido. Ainda que lateje a falta. Talvez seja preciso ajustar o foco, direcionar o olhar para outras coisas e pessoas. Talvez seja isso, mesmo com tantas incertezas, juntar os cacos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Uma submetralhadora, por favor.

Preciso matar essas borboletinhas meio orientais que estão dançando no meu estômago e me deixando com esse sorriso bobo.


Resisto e desisto e despedaço. Insisto. "Machuca mas não mata". A vida me joga isso na cara todos os dias. "Você não vai morrer, você não vai morrer disso" são as palavras estancadas no meu peito furioso e às vezes muito cansado. Mais um dia e há sempre um novo erro a ser cometido. Então eu resisto e desisto e despedaço. Mas insisto. Porque machuca mas não mata.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Estava sentada à mesa, no café de sempre. Centro da cidade, tarde de feriado, calor infernal. Nada mal. Comecei a reparar em todos os cantos, nos detalhes do lugar, nas pessoas. Percebi então a maldição: ele não estava lá. Não mais. Nunca mais. Nem nos cantos, nem nos detalhes, muito menos nas pessoas. Nada. Ele só existia na minha memória agora. E essa era a crueldade, a minha crueldade comigo mesma. "Já é hora de recomeçar" eu repetia sem deixar a voz escapar, apenas movimentando os lábios. Acho que o senhor da mesa à frente percebeu. Ele também estava só. Solitário com seu jornal, despreocupado e meio alheio ao tempo. Deve ser coisa da idade avançada e eu tão nova já compreendo. Sorri para ele, aquele sorriso de quem diz "prazer, sou uma idiota". Ele sorriu de volta. Por pena, solidariedade ou educação. Mas sorriu. E eu corei. Quis sorrir, com aquele sorriso de quem diz "a timidez é uma merda, meu senhor", mas desviei o olhar, abaixei a cabeça. Um gole de café ajuda muito nesses casos. Quente. Amargo. Nada mal. Eu até gostaria muito de me sentar ao lado dele, conversar um pouco, pois eu precisava de companhia. Qualquer companhia. Mas depois me lembrei que eu já tinha me esvaziado de assuntos interessantes, eu estava em descompasso com tudo e com todos. "Tarde demais para vida", pensei.

Descobertas

“(…) Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas (…)”
- Gabriel García Marquez

domingo, 3 de janeiro de 2010

(Re)encontro

Eu não havia planejado nada daquilo, muito pelo contrário, insisti para que não o chamassem. Um reencontro. Ele se aproximou e se sentou ao meu lado. Apertou meu joelho, como é de seu costume. Eu me afastei um pouco. Aquilo tudo para mim não fazia sentido. Não fazia o menor sentido. Acho que todos perceberam meu olhar nervoso, o olhar de quem clama por socorro. E também todos esperavam algo de nós, a situação estava armada para isso. Então, a fuga. A minha fuga. Quase não o olhei, quase não falei. Mas eu não era capaz de levantar e simplesmente ir embora. Não assim, não tão rápido. Ele me deixa com as pernas fracas ainda, com o coração sufocado. Constatei isso tarde demais, da pior maneira.
Não ficamos muito tempo próximos, logo eu pude partir. Eu precisava partir. E acho que foi para sempre.

Penso que isso é o que mais dói.

"Quando ela se conformou com o seu eterno adeus, ele já estava guardado."

Aprende

A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores.
Caio F.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ela se remexe até as tripas
Dá uma de contorcionista
Deixa vazar as lágrimas contidas
E os ácidos do estômago
Grita em agonia e alvoroço

Fecha os punhos, veias azuis pulsando
Os dentes rangendo de dor
Está viva, está viva
Não tem métrica nem rima
Agora deixa sangrar

Hoje ela quer se doer inteira
Arregaçar as fraturas expostas
Esfolar a pele
Alguém pra lhe arranhar as costas

Esfrega as mãos rabiscadas na parede
Sangra e sente sede
Desaba com seus joelhos ossudos no asfalto
É a fome masoquista-corrosiva
Ela se mutila e se mutila

Fuma mais, o pulmão tão preto
Pausa cerebral, um coração desatento
Sorri em meio a tanta podridão
Deixa a sinfonia completa tocar
Desesperada pra se embalar