bueiro, me abrace forte!

sábado, 26 de dezembro de 2009

O inferno mora no 14º andar

Entrei no elevador prestes à vomitar. 14º andar. Que saco, isso levaria uma eternidade! Antes da porta se fechar, meu vizinho entra. Que saco! Esse garoto é um inferno e eu nem sei o nome dele. Mas odeio o modo como ele me olha. Esses olhos castanhos. Agora a eternidade se multiplicaria pela própria eternidade. Juro por Deus.

Diabolicamente, ele tentou puxar assunto:

- Oi! Tudo bem?

Eu quis dizer que estava de porre, mas... ah, acho que era evidente. Resumi meu estado:

- Bem.

- Andou tomando umas, ?!

- É!

- Quer ir pro meu apartamento? A gente conversa um pouco, bebe ou come alguma coisa. Quero aproveitar que hoje você está simpática.

Não disse que esse garoto é um inferno? Tenho quase idade pra ser a mãe dele (nem tanto, mas é assim que eu me sinto), e ainda sim ele não me respeita. Ele é um inferno cheio de vida e tem lá seu encanto. Ou talvez eu esteja bêbada feito uma gambá no cio.

- Deixa pra outro dia, cansada.

- Ah, não! Eu estou sozinho hoje, meus pais foram viajar. Diz que sim!

Esse filho da puta não deve nem ter 20 anos e tá querendo me comer? Será que ele perdeu completamente a noção da realidade? Fiquei calada. Tamanha era a minha indignação.

Finalmente o 14º andar. Eu já estava indo em direção ao MEU apartamento quando ele me pega pelo braço. Um tremendo filho da puta cheio de disposição.

- Você vem comigo.

- Não vou. Eu já fa...

- Você vem comigo!

Então eu pensei "o que é um peido pra quem tá cagado?". Aceitei ir.

- Vou entrar, tomar um café e sair. Sério.

- Já é alguma coisa, adorável vizinha alcoólatra!

Deus está testando minha paciência, ?! Na verdade, é o próprio diabo! Tive certeza!

Entrei no apartamento dele. Se eu estivesse sóbria, certamente iria reparar na decoração, na limpeza e todas essas coisas. Mas eu não estava e isso não tinha a mínima importância: eu era apenas uma vaca destinada ao abate mesmo. O mundo é injusto.

- Senta aí, moça bonita.

Espera! Minha cabeça está girando mais agora. Moça? Moça bonita? Olha pro meu estado! Eu pareço uma capivara penteada até quando estou sóbria, imagina agora! Esse menino usa tóxicos? O cérebro dele derreteu? Ele precisa de ajuda psiquiátrica ou está tirando uma com a minha cara? A juventude está mesmo perdida e não há salvação.

Sentei.

- Vou fazer seu café. E alguma coisa pra você comer, porque você precisa.

Pronto! Agora ele quer ser meu pai. Agora ele acha que sabe alguma coisa, acha que pode cuidar de mim. Querido, me dá sua privada que eu quero mais é vomitar e dormir pra sempre. E com o rosto lambuzado de vômito.

- Só o café mesmo. Já estou de saída.

- Que isso! Você nunca interage com ninguém aqui do prédio, deixa eu aproveitar esse privilégio. Eu sei cozinhar, viu!

- Tá tarde. Outro dia eu volto aqui pra tomar café, tá?!

- Fica essa noite comigo?

- Quê?

- A gente, sabe... Vai, colabora! Deixa de ser...

Para tudo! Minha cabeça está girando de novo. Esse merda é muito audacioso! Alguém me tire desse conto erótico e me transporte pro mundo real, por favor!

- Olha, garoto...

- Eu sei o seu nome e você não sabe o meu. Eu sei dos seus horários, sei onde trabalha e sei também que você nunca traz ninguém pro seu apartamento. E...

- Você é um psicopata, é isso?

- Não! É que eu não me conformo como você pode viver assim! Você é muito sozinha.

- Você não tem nada a ver com a minha vida. Só está a fim de... Enfim. Até aí tudo bem, eu estava quase topando. Só que agora eu já desisti, então vamos deixar pra lá essa bobeira toda. Não vai rolar.

- Não, não. Não é isso. Eu só quero que você...

- indo embora.

- Por que você foge de todo mundo desse jeito? É medo do quê?

- Abre a porta!

- De verdade, eu queria muito te entender. Você é toda fechada pro mundo, até minha mãe já disse isso.

Mãe? Nem sei quem é a mãe desse garoto! Mas já a detesto com todas as minhas forças. Detesto essa vadia bisbilhoteira pela estupidez de ter levado a gestação desse diabinho até o fim. De agora em diante, sou a favor do aborto. É isso!

- Tudo bem, eu mesma abro. Boa noite.

- Espera! Deixa eu te falar uma coisa...

- Mais? Você é um chato que não sabe de porra nenhuma.

- Eu espero que um dia você encontre alguém que não desista.

- Não desista do quê?

Por que eu ainda dou trela, meu Deus, por quê?

- De você. Porque você faz de tudo pra que isso aconteça.

A rapariga que é a mãe dele deve ter dito isso também. Dei de ombros e fui embora. Entrei no meu apartamento e sequer acendi a luz. Sentei ali mesmo no chão da cozinha e adormeci encostada contra a parede. Alguém tocou a campainha, acordei e vi que já tinha amanhecido. Nem me mexi. Estava me fingindo de morta. Quem sabe eu fingisse tão bem a ponto de eu mesma acreditar e morrer de uma vez. Seria muito prático. Seria bom demais para ser verdade.

Então ouvi:

- Abre! Preparei seu café da manhã. Eu sei que você está aí! Abre, vai!

Esse garoto é ou não é um inferno?

2 comentários:

Régis Eleutério M. Brandão disse...

vc gosta dele!!!! uahuahauha
= P

adoro cronicas!
muito bom os diálogos!!!
parabens!

bejo
= *

jaqueline disse...

você gosta dele!