bueiro, me abrace forte!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

E lá estava ela: perdida no vão entre a loucura e a realidade. Humor mórbido, cabelos trançados, maquiagem borrada. Sonhava com o homem que não poderia sonhar e suspirava baixinho todas as manhãs. Depois de tomar seu café sempre tentava escrever um pouco no diário, mas já não havia nada a ser escrito. Tudo se foi de um jeito que ela nem sabe como. Os dias caindo pela janela da cozinha que ela tentava, em vão, agarrar. "Tudo se foi, tudo se foi" ela dizia em tom de melancolia e saudade. Apenas sentia desespero quando a vodka ou o café acabavam. Deixou de fumar e assistir televisão. Ouvia rádio só nas tardes quentes quando lembrava que ainda era capaz de diferenciar o calor do frio. A ferida infeccionada na mama esquerda que há tanto tempo deixou de tratar. Mutilação diária. Gostava de se ferir. Cortes na virilha que ela mesma fazia com a gilete na hora do banho porque achava encantador o modo como o sangue escorria pelas coxas, descendo pelas pernas até encontrar o pé, e então era levado com a água morna para o ralo. Quando a noite chegava, fazia um ou dois telefonemas. Discava qualquer número e ficava muda quando atendiam a chamada. Vez ou outra disparava algo parecido a um chiado, só para não esquecer que estava viva. E estava.

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