bueiro, me abrace forte!

domingo, 29 de novembro de 2009

"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?

sábado, 28 de novembro de 2009

Daí que eu acordei, né. E meu corpo estava cheio de manchas vermelhas. E ainda está.

Daí que agora eu estou aqui achando que logo logo vou morrer.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Vá embora e me deixe aqui no meu mundo de escombros.

Novembro está chegando ao fim.

Não tente me perturbar.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Excessos.

Quando menos percebi, eu já estava pela metade. Agora eu quero que você engula cada pedaço que arrancou de mim.

Perda de tempo.
Perda de tempo.
E tarde demais.

sábado, 21 de novembro de 2009

Empurrou o prato. Estava farta. Releu a carta quase quinze vezes e nada. Nenhuma compreensão. Procurou o maço de cigarros. Vazio. "Nem isso", pensou. Cravou as unhas na mesa. Quis gritar, mas já estava afônica. Nada a seu favor.

Desistiu.
Rasgou a carta.
Dormiu sentada.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Novembro engole minhas palavras. Eu fico esperando que me devolva. Mas não devolve. Não vomita. Nem sequer sorri.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

É o seguinte, feras:

Vivemos numa privada e fomos paridos pelo cu.

domingo, 15 de novembro de 2009

Seja lá como for, fico imaginando uma porção de crianças brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de crianças e ninguém por perto – quer dizer ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho que segurar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começa a correr sem olhar onde esta indo eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que ia fazer dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas e a única coisa que eu queria fazer.

J.D. Sallinger - The Catcher in the Rye

sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Se você for tentar, vá até o fim.
Senão, nem comece.

Se você for tentar, vá até o fim.
Isso pode ser perder namoradas, esposas, parentes, empregos e talvez sua cabeça.

Vá até o fim.
Isso pode ser não comer por 3 ou 4 dias.
Pode ser congelar em um banco de praça.
Pode ser cadeia.
Pode ser o ridículo, chacota, isolamento.
Isolamento é a benção.
Todo resto é um teste na sua resistência, de quanto você realmente quer fazer aquilo.
E você vai fazer.

Independente da rejeição,
E das piores dificuldades.
E será melhor do que qualquer outra coisa que você possa imaginar.

Se você for tentar, vá até o fim.
Não existe outra coisa que vá te fazer sentir isso.
Você estará sozinho com os Deuses.
E as noites se inflamarão em chamas.

Faça. Faça. Faça.
Faça.

Até o fim.
Até o fim.
Você guiará sua vida direto para o riso perfeito.
É a única boa briga que existe.

(Charles Bukowski)

sábado, 7 de novembro de 2009


"O vento jogou seus cabelos ruivos sobre a cara. Sacudiu a cabeça para afastá-los e saiu andando lenta em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu azul - daquela não-dor, afinal."
- Caio F.
Perseguir sombras, adorar as sobras, viver no restinho de tudo. Os dedos sujos, os lábios com as marcas das próprias mordidas. O suor escorria misturado com as lágrimas. Gosto salgado. Cheiro acre. Mofo nos lençóis. O maldito calor derretendo suas ideias. O maldito calor se contrapondo às suas vontades. O maldito calor: seu único inimigo. O maldito calor: sua única companhia. Carregava pontos de interrogação nas costas, e já se achava incapaz de suportá-los. Os braços tão finos, as costelas evidentes...

(ainda) Procura-se

O rapaz tem um nariz comprido e fino. Os dentes de baixo são um tanto tortos. Barba quase sempre por fazer. No primeiro encontro com uma garota costuma usar uma camisa manga comprida xadrez. Precisa de lentes de contato e do carro da mãe também. Tem brincos, tatuagem, braço peludo. Ortografia razoável e gosto por arte.

SIGNS




esse cara me lembra alguém...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

E lá estava ela: perdida no vão entre a loucura e a realidade. Humor mórbido, cabelos trançados, maquiagem borrada. Sonhava com o homem que não poderia sonhar e suspirava baixinho todas as manhãs. Depois de tomar seu café sempre tentava escrever um pouco no diário, mas já não havia nada a ser escrito. Tudo se foi de um jeito que ela nem sabe como. Os dias caindo pela janela da cozinha que ela tentava, em vão, agarrar. "Tudo se foi, tudo se foi" ela dizia em tom de melancolia e saudade. Apenas sentia desespero quando a vodka ou o café acabavam. Deixou de fumar e assistir televisão. Ouvia rádio só nas tardes quentes quando lembrava que ainda era capaz de diferenciar o calor do frio. A ferida infeccionada na mama esquerda que há tanto tempo deixou de tratar. Mutilação diária. Gostava de se ferir. Cortes na virilha que ela mesma fazia com a gilete na hora do banho porque achava encantador o modo como o sangue escorria pelas coxas, descendo pelas pernas até encontrar o pé, e então era levado com a água morna para o ralo. Quando a noite chegava, fazia um ou dois telefonemas. Discava qualquer número e ficava muda quando atendiam a chamada. Vez ou outra disparava algo parecido a um chiado, só para não esquecer que estava viva. E estava.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sinto muito, mas preciso lhe dizer: não sinto tudo isso por você. Eu minto em progressão geométrica. Minhas mentiras têm vida própria, se reproduzem dentro da minha loucura vomitada no chão. Nem todos esses amores errados são meus e nem todas essas dores são minhas também.

Eu não sou feliz aqui,
Um beijo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cansei dos meus vícios. Talvez amanhã eu vá procurar Deus. Mentira, não vou. Tenho medo. Procuraria um médico, mas tenho medo também. Não estou pronta, jamais consegui estar inteira. Sou tirana. Sou bêbada. Sou escrota. Sou medrosa. Sou também o que não sei. Fiz de mim o que não sei nomear. Não tenho coerência. Não sei me equilibrar, sempre caio. E não divido cigarros. Sou contra o mundo, mas eu mesma me saboto. Acabei construindo um muro em volta de mim que nem eu sei como destruir. Sou vítima de mim mesma porque já não sei de quem me protejo, se eu sou a única pessoa que pode me fazer algum mal.
Novembro me amedronta porque faz dezembro estar mais próximo. Quase me toca a boca. Penso que já posso até sentir seu cheiro.
Sinto enjôo.
Não te tocar, não pedir um abraço, não pedir ajuda, não dizer que estou ferido, que quase morri, não dizer nada, fechar os olhos, ouvir o barulho do mar, fingindo dormir, que tudo está bem, os hematomas no plexo solar, o coração rasgado, tudo bem.
Caio F.

domingo, 1 de novembro de 2009


"A mensagem é simples. Se você já perdeu um dedo, ou é estéril, mais feio do que gostaria, menos alto do que o permissível, explorado pelo sistema, envolvido por amarguras, não tem o suficiente ou tem excesso de insuficiências, se espera e nunca alcança, se alcança o que você não espera, se vem quando não quer e parte quando mais ama, se tudo que reluz não é ouro e a vida não está ao seu alcance é porque você alcançou a vida. Que é, desde sempre, um projeto fracassado. Cada um paga seu preço. Contente-se se o seu não é alto.
Só uma coisa é certa. No fim o bandido morre,
E o mocinho também.
E toda a platéia."


Millôr Fernandes (?)
A verdade é que estamos cansados. Cansados da rotina, da mesmice e até dos porres e do cheiro de cigarro impregnado na roupa e nos cabelos. Estamos fodidos. Estamos fodidos mesmo. E agora meu corpo oscila para lá e para cá na tentativa de esbarrar em outro corpo que me sustente. Não encontro. Mas também não desabo. Não existe chegar perto, não existe chegar lá. Nem sequer um tapa na cara para acordar. Todos se esquivam, todos fogem, todos vivendo suas vidas. Não tenho pressa. É domingo, wow!