bueiro, me abrace forte!

sábado, 31 de outubro de 2009

Eu bem que poderia ter me apaixonado por ele. Dividir um cigarro e deixar pra ele sempre o primeiro trago. Poderia ter encontrado nele alguma razão. Mas nem ao menos me preocupei em procurar.

Tem jeito não, ó!
Passei a ver graça na desgraça alheia quando a minha chegou ao ponto de assemelhar-se ao tédio.

Sádica eu, né! Felicidade me incomoda muito, gente.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Esta noite eu sonhei que alguém me abraçava prometendo que tudo ficaria bem. Mas logo depois, Adélia me acordou. Abriu as cortinas, foi tanta luz que eu não enxergava mais nada. Atirei o travesseiro nela, ou no naquilo que eu pensava ser ela. Filha de uma puta! "É o fim dos tempos!" eu gritava. Adélia sorriu e foi embora. Outro dia, um cara, não quero citar nomes não, sabe... mas esse cara, ele disse que eu sou linda. Eu deveria agradecer o elogio, mas não falei nada. Naquele dia eu não consegui retrucar uma mentira. Mas por que eu lembrei disso agora?

Eu sou demais para qualquer um suportar. Juro que eu não queria deixar marcas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Por favor, alguém venha me falar por que diabos eu estou aqui parada em frente a essa tela branca se eu já nem tenho mais nada para dizer.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

“É importante não correr para os braços do outro fugindo da chatice da família, da mesmice da solidão, do tédio. É essencial não se lançar no pescoço do outro caindo na armadilha do ‘enfim nunca mais só!’, porque numa união com expectativas exageradas decreta-se o começo do exílio.”
| Lya Luft |
Pois é, Bueiro, cá estou eu. Mais uma vez.

Eu ando péssima. Péssima mesmo. Terrível, como dizem. Então deixe disso e me abraça, Bueiro. Eu voltei para você porque eu não consigo ficar longe do seu cheiro. Você consegue ver? Aqui, bem aqui, dentro dos meus olhos, tá vendo? É por isso que estou aqui, por você ser capaz de ver aquilo que ninguém mais pode. Estúpida, isso mesmo, me chama de estúpida! E essas manchas no meu pescoço, não são dele, são de outro. Meu Deus do céu, Bueiro! DE OUTRO! Eu só queria dizer que a foto dele ficou muito bonita, que ele continua sendo o cara mais bonito que eu já vi e que eu ainda não descobri qual o mecanismo. Sim, o mecanismo. Eu não te falei sobre o mecanismo? Porque os olhos dele mudam de cor, sabe?! Mudam mesmo! E eu não sei qual o mecanismo. Na verdade eu até sei. Mas... você entende o que eu quero dizer, não é? Bueiro, isso é muito sério. É a coisa mais séria que existe e já existiu. Ah... me abraça logo, caralho!

domingo, 25 de outubro de 2009


E seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa

- Caio F. Abreu

quarta-feira, 21 de outubro de 2009



“De algum secreto lugar me vem a força para erguer a xícara, acender o cigarro, até sorrir quando alguém me diz: ‘Você hoje está com a cara ótima’, quando penso se não doeria menos jogar-me de um décimo primeiro andar.”
Lya Luft

“Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho… o de mais nada fazer.”

- Clarice Lispector

O sol brilha forte. Os sorrisos não.



No fim, meu bem, a gente junta os cacos...

sábado, 17 de outubro de 2009


Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência. Estou tentando ser honesto e limpo. Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir.
Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Procura-se


O rapaz fala sozinho, resmunga, odeia tudo o que considera convencional e inventa problemas para se ocupar. Tem mania de desenhar nas paredes e é viciado em coca-cola. Não é filho único e não sabe dividir nada. Gosta de sexo, acredita em Deus e compõe músicas recheadas de palavrões, mas se descontrola quando ouve uma garota pronunciar quaquer "foda-se". Trabalha de segunda à sexta e nos finais de semana joga bilhar. Acredita no amor e se apaixona várias vezes durante o dia. Adora tocar guitarra e enfeitar a casa para o natal. Adora.
Porque já passaram das quatro da tarde e você ainda está dormindo, enrolado nesses lençóis de algodão. E eu estou aqui parada em pé te olhando, mas juro que vou esquecer seu rosto assim que eu sair por aquela porta. Não era paixão e nunca foi amor, era só solidão. Então eu vou pra minha casa carregando essas marcas nas costas e nos braços.
Tentar me perdoar.

Ele não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática e sem aquela necessidade toda de ser amada. Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas. Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos. Ele não sabe que a cada dia eu penso menos nele, mas que conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranqüilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias todos e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos. Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco. Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos. Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim. Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre. Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura. Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso. Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha. Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria.


Marla de Queiroz

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

as coisas boas que um certo alguém me deixou



às vezes, eu sinto o medo da incerteza me incomodar. e eu não posso fazer nada além de me perguntar por quanto tempo eu vou deixar esse medo assumir o volante e me guiar. ele já me guiou antes, e parece ter uma vaga atração maciça, assustadora. mas ultimamente eu tenho começado a achar que eu deveria estar atrás do volante. o que quer que o amanhã traga, eu estarei lá de braços e olhos abertos, sim. o que quer que traga amanhã, eu estarei lá eu estarei lá então se eu decidisse renunciar à minha chance de ser mais um na colméia. eu escolheria água ao invés de vinho e me assumiria e dirigiria? ele já me guiou antes e parece que é assim que todo mundo age. mas ultimamente eu tenho começado a achar que quando eu me conduzo, encontro minha luz.

(incubus - drive)

(…) Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a tua amante humilde, entrelaçada a ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de te amar, sem odiar as tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sob o céu de Saigon




Ele era um desses rapazes que, aos sábados, com a barba por fazer, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado por baixo da barba crescida, quem olhasse para um deles mais detidamente, mas poucos o fazem, perceberia que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim. Costumam usar jeans desbotados, esses rapazes, tênis gastos, camisetas e, quando mais frio, alguma jaqueta ou suéter geralmente puídos nos cotovelos. Quase sempre levam as mãos nos bolsos, o que torna impossível a qualquer um que passa ver melhor suas unhas roídas, seus dedos indicador e médio da mão direita, ou da esquerda, se forem canhotos, amarelados pelo excesso de fumo. Eles olham para baixo, não como se tivessem medo de tropeçar nos solavancos freqüentes das calçadas da Augusta, pois raramente usam sapatos, e as solas de borracha dos tênis amoldam-se com certa suavidade às irregularidades do cimento; olham para baixo, e isso seria visível se se pudesse localizar o brilho nos seus olhos de pupilas um tanto dilatadas por trás das lentes escuríssimas dos óculos, como se procurassem tesouros perdidos, bilhetes secretos, alguma jóia ou objeto que, mais que valor, guardasse também uma história imaginária ou real, que importa? Mas às vezes olham também para cima, e quando o céu está claro, o que é raro na cidade, pode-se imaginar que suas peles brancas procuram desesperadas e quase automaticamente pela luz do sol. E quando o céu está escuro, o que é bem mais comum, sobretudo nesses sábados em que rapazes assim costumam subir ou descer a rua Augusta, pode-se imaginar que procurem balões juninos, objetos voadores não identificados, pára-quedistas, helicópteros camuflados, zepelins ou qualquer outra dessas coisas pouco prováveis de serem encontradas sobrevoando ruas como a Augusta num sábado à tarde. Ou horizontes, talvez busquem horizontes entre o emaranhado de edifícios refletidos nas lentes negras dos óculos que escondem o brilho ou a intenção do fundo dos olhos no momento em que um desses rapazes pára na esquina, como se tanto fizesse dobrar à esquerda ou à direita, seguir em frente ou voltar atrás. Por serem como são, seguem sempre em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. E por serem tão iguais, quem prestar atenção em algum deles, mas poucas vezes ou nunca alguém o faz, jamais saberá se se trata de muitos ou apenas um. Um único rapaz: este, com a barba por fazer e mãos enfiadas no fundo dos bolsos, que agora, logo depois de cruzar o topo da avenida Paulista, começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde.
Ela era uma dessas moças que, aos sábados, com uma bolsa pendurada no ombro, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado que a ausência total de maquiagem nem pensou em disfarçar, quem olhar para uma delas mais detidamente, e alguns até o fazem, pedindo telefone ou dizendo gracinhas sem graça, às vezes grossas, porque elas caminham devagar, olhando as coisas, não as pessoas, mas quem olhar com atenção perceberá que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim, sem muita importância. Costumam, elas também, usar jeans desbotados, sapatos de salto baixo, às vezes tênis gastos, camisetas ou alguma blusa de musselina, seda, crepe ou outro tecido assim fino, que um rápido olhar mais arguto perceberia de imediato não se tratar de uma prostituta ou empregada doméstica. Pois têm certa nobreza, essas moças, não se sabe se pela maneira altiva como fingem não ouvir as gracinhas que alguns dizem, se pelo jeito firme de segurar a alça da bolsa com seus dedos de unhas sem pintura, conscientes de que são fêmeas e estão na selva. Num súbito encontrão, que não seria impossível, menos aos sábados, é verdade, do que nas sextas-feiras ao meio-dia ou de tardezinha, se alguém arrebatasse a bolsa a uma dessas moças para depois rasgá-la num terreno baldio, ficaria decepcionado com o dinheiro escasso, o talão de cheques sem saldo, uma agenda de poucos compromissos, tickets de metrô, algum livro de poesia, esoterismo ou psicologia, uma foto de criança, raramente de homem, quem sabe um cartão de crédito vencido e entradas para teatro ou show, já usadas. Essas moças não olham para baixo nem para cima: com passo decidido, olham direto para a frente, como se visualizassem além do horizonte um ponto escondido para esses outros que passam quase sempre sem vê-las, para onde se dirigem com seus jeans gastos, suas bolsas velhas, suas peles de nenhum artifício. Dessa nitidez no passo, dessa atrevida falta de artifícios no rosto é que brota quem sabe aquela impressão de nobreza transmitida tão fortemente quando passam, mesmo aos que não as olham nem mexem com elas. Podem parar para folhear revistas estrangeiras em alguma banca, sem jamais comprar nada, deter-se para conferir os preços estampados nas portas dos restaurantes, olhar maçãs ou morangos, tocar rosas ou antúrios, mas geralmente apenas seguem em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. Talvez sejam tantas e, se realmente o são, tão parecidas que, se alguém do alto de uma janela no Conjunto Nacional olhasse para baixo e as visse agora, poderia pensar mesmo que são uma só. Uma única moça: esta, com a bolsa velha pendurada no ombro, que depois de cruzar o topo da avenida Paulista começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde.
E porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas, encontraram-se esses dois, esses vários, em frente ao mesmo cinema e olham o mesmo cartaz. Love kills, love kills, ele repete baixinho, sem perceber a moça a seu lado. And this is my way, ela cantarola em pensamento, na versão de Frank Sinatra, não de Sid Vicious, sem perceber o rapaz a seu lado. Outros entram e saem, sem vê-los nem ver-se, remanescentes punks, pregos nas jaquetas, botas pretas, intelectuais de óculos, aros coloridos, paletós xadrez, adolescentes japonesas, casais apertadinhos, elas comendo pipocas, senhoras de saia justa, gente assim, de todo tipo.
E talvez porque rapazes e moças como ele e ela aos sábados à tarde raramente ou nunca se enfiam pelos cinemas, preferindo subir ou descer a rua Augusta olhando as coisas, não as pessoas, os dois se encaminham para as entradas em arco do cinema. Então param e olham para cima, suspirando em suave desespero, um céu tão cinza, como se fosse chover, oh céu tão triste de Sampa.
E então como se um anjo de asas de ouro filigranado rompesse de repente as nuvens chumbo e com seu saxofone de jade cravejado de ametistas anunciasse aos homens daquela rua e daquele sábado à tarde naquela cidade a irreversibilidade e a fatalidade da redondeza das esquinas do mundo ― ele olhou para ela e ela olhou para ele.
Ele sorriu para ela, sem ter o que dizer. Ela também sorriu para ele. Mas disse, a moça disse:
― Parece Saigon, não?
― O quê? ― ele perguntou sem entender. Ela apontou para cima:
― O céu. O céu parece Saigon. Surpreso, e meio bobo, ele perguntou:
― E você já esteve em Saigon?
― Nunca ― ela sorriu outra vez. ― Mas não é preciso. Deve ser bem assim, você não acha?
― O quê? ― ele, que era meio lento, tornou a perguntar.
― O céu ― ela suspirou. ― Parece o céu de Saigon. Ele sorriu também outra vez. E concordou:
― Sim, é verdade. Parece o céu de Saigon.
Nesse momento ― dizem que cabe aos homens esse gesto, e eles eram mesmo meio antigos — talvez ele tenha pensado em oferecer um cigarro a ela, em perguntar se já tinha visto aquele filme, se queria tomar um café no Ritz, até mesmo como ela se chamava ou alguma outra dessas coisas meio bestas, meio inocentes ou terrivelmente urgentes que se costuma dizer quando um desses rapazes e uma dessas moças ou qualquer outro tipo de pessoa, e são tantos quantas pessoas existem no mundo, encontram-se de repente e por alguma razão, sexual ou não, pouco importa se por alguns minutos ou para sempre, tanto faz, por alguma razão essas pessoas não querem se separar. Mas como ele era mesmo sempre um tanto lento, não perguntou coisa alguma, não fez convite nenhum. Nem ela. Que lenta não era, mas apenas distraída. Ela então sorriu pela terceira vez, e já de costas abanou de leve a mão abrindo os dedos, como Sally Bowles em Cabaret, e continuou a descer a rua Augusta. Ele também sorriu pela terceira vez, meio sem jeito como era seu jeito, enfiou as mãos ainda mais fundo nos bolsos, como Tony Perkins em vários filmes, coçou a barba por fazer e resolveu subir novamente a rua Augusta.
Uns cem metros além, ela pela alameda Tietê, ele pela Santos, esse rapaz e essa moça, ou talvez os dois, ou quem sabe até mesmo nenhum, mas de qualquer forma ao mesmo tempo, pensam vagos e sem rancor mas estes sábados sempre tão chatos, porra, nunca acontece nada. Por associação de idéias nem tão estranha assim, ele ou ela, ou nenhum dos dois, talvez olhem ou não para trás procurando quem sabe algum vestígio, um resto qualquer um do outro pela rua Augusta deserta do sábado à tarde.
Mas rapazes e moças assim não costumam deixar rastros, e ambos já tinham sumido em suas esquinas de ladeiras súbitas e calçadas maltratadas. Acima deles, nuvens cada vez mais densas escondem súbitas o anjo. O céu de chumbo, onde não seria surpresa se no próximo segundo explodisse um cogumelo atômico, caísse uma chuva radioativa ou desabasse uma rajada de napalm, parecia mesmo o céu de Saigon, quem sabe pensaram. Embora, de certa forma, eles nunca tivessem estado lá.


Caio F.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

oi

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas.

Caio F.

sábado, 10 de outubro de 2009


mas acho mesmo que todo mundo se foi porque eu tento, mas talvez já não tenha mais nada pra dizer.
Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas! Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade

Esqueça o que lhe disse. Um dia conversaremos sobre isso. Não dê importância, hoje eu estou chateado, amargurado, pessimista. Estava esperando um telefonema, ela não me telefonou. Você vê como são as coisas: por causa de uma namorada a gente chega a emitir conceitos sobre Deus e o mundo, sobre literatura, dizer que a vida é uma merda.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Eu tenho infinitos diálogos imaginários com você. Bebo um copo de cerveja e sirvo a sua coca-cola com gelo e limão enquanto mordo meus lábios sentindo você se dissolver entre meus dedos.

Se eu pichasse nos muros da cidade meus devaneios, bem nos muros que fazem o caminho para o seu trabalho, você notaria?

Gostaria de poder dizer qualquer bobagem, qualquer coisa brega que prendesse sua atenção. Qualquer tolice pra você voltar.

Não posso.

Meu maldito orgulho, mais uma vez.

Mas eu queria muito dizer.

E queria muito que você soubesse que eu queria.

Outubro

Tem dias roxos. E tem morte também.
É o mês que estrangulo palavras, porque outubro me dói.

Outubro só não é pior que dezembro.
Pode acreditar!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cheguei firme, cheguei convicto. Daria um beijo na testa daquela menina enquanto ela estivesse dormindo e partiria o mais rápido possível. Sequer tirei a chave do contato. Ah, meu Deus, que farsa! Abri a porta e atravessei a sala. Subi as escadas. Perto. O corredor estava muito escuro, como sempre. Ela nunca deixava nenhuma luz acesa durante a noite. Lembrei do dia em que quebrei minha perna. Lembrei da briga. Dos insultos. Os copos quebrados. Seria melhor deixar apenas uma carta? Dar um telefonema? Ou não fazer nada? O que doeria menos nela? E em mim? Eu sou tão exagerado. Eu estou parado no meio desse corredor escuro segurando uma flor que eu nem sei o nome. E eu quero chorar. Eu quero chorar. Mas não choro. Quando meus olhos começam a arder, logo penso no meu pai. Se eu chorar, ele me parte a cara. Ele morreu há muitos anos, mas ainda pode me partir a cara, eu tenho certeza. Droga! Eu ouvi mesmo esse barulho? Será que ela está acordada? Estúpido! Como eu sou estúpido! Desci correndo as escadas, não olhei para trás. Tranquei a porta e joguei as chaves no canteiro.

Eu vou mandar um e-mail.

Seguinte, gata... Tou partindo. Quando a neve desaparecer, eu volto.

terça-feira, 6 de outubro de 2009


- Quanto tempo!
- Desculpe ter entrado assim. Não resisti. Estava cansada de cartas.
- Seu cabelo cresceu um bocado.
- Não vai durar muito.
- Você estava chorando?
- Eu estava olhando aquelas pessoas na rua. Tão pequenas vistas daqui.
- Você fica tão bonita quando chora.
- Me poupe!
- Quase parece humana. Mas então você começa a falar e... Pluft!
- Ah... que saco! Eu só queria viver algo bonito, sabe?
- Sei. E sei também que é impossível.
- Você ainda tem aspirinas?
- Sim.
- Eu preciso tanto. Sabe, aspirinas. Muita dor aqui.
- Pra isso nem morfina resolve, coração.
- Mesmo?
- Falo por experiência própria.
- Então como eu faço?
- Não faz.
- Não?
- Não. Você não faz nada. Você só continua.
- Chorando?
- E bebendo. E fumando. E não conseguindo dormir. E saindo com aqueles seus amigos perdidos. Essas coisas todas que você já está habituada. Aliás, nós.
- Às vezes cansa.
- Mas você continua. Eu continuo.
- Mas e aquela gente toda ali embaixo?
- Aqueles casais?
- É.
- Oras, você não vê o que há por trás daquilo tudo?
- Vejo...
- E é isso o que você quer?
- Às vezes. Como agora, por exemplo.
- Tem certeza?
- Suas perguntas me matam!
- Então saia da sacada e pare de pensar nessas coisas idiotas!
- Eu só queria ser tão idiota quanto eles.
- Quer dançar?
- Busquei meus exames hoje...
- E então?
- Nada animadores.
- Sinto muito. Sinto muito mesmo.
- Não importa. Posso pegar as aspirinas?
- Você não quer mesmo dançar? Eu aprendi uns passos novos...
- Vou à farmácia.
- Toma! Mas já disse...
- Já. Queria ir ao teatro esta noite.
- Tenho plantão... Mas...
- Sozinha.
- Você pode voltar amanhã? Quero te ensinar os passos que aprendi.
- Talvez eu passe a semana toda aqui. Algum problema?
- De forma alguma. Faz companhia pro Bóris?
- Faço. Obrigada.
- Olha, se você quiser conversar sobre...
- Não quero. Não agora.
- Preciso ir. Promete não ficar mais na sacada?
- Tudo bem.
- Tem bastante comida que você gosta aqui. Tente se distrair.
- Vou cagar montes no seu banheiro.

domingo, 4 de outubro de 2009

Um dia de monja

Um dia de puta

Um dia de Joplin

Um dia de Tereza de Calcutá

Um dia de merda

Caio F.

sábado, 3 de outubro de 2009

Cuidado com a tristeza. Ela é um vício.
(Gustave Flaubert)



- e é mesmo!