bueiro, me abrace forte!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente

Olha bem pra mim ― tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito?
Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente.
Caio Fernando Abreu
Para ser franca, eu saio por aí dizendo que vou cair fora dessa, tomar jeito, endireitar e coisa e tal, mas isso é uma grande mentira. Uma das milhares que eu conto todos os dias. Pra mim. Pro mundo. Porque não é fácil. Porque se fosse fácil, eu ainda sim complicaria ao máximo. E eu posso. Eis um dos meus poucos dons: o poder de complicar.

Ah, parar de beber não vai mudar nada.
Entrar pro yôga e fazer origami também não.

Minha vida é um desastre e eu bato a porta gritando FODA-SE - como se eu ainda fosse adolescente mimimi.

- A verdade é que uma boa putaria alivia e justifica qualquer coisa. Vai dizer que não?
E é disso que eu preciso. Do contrário, logo estarei ouvindo Los Hermanos... E aí, meu amigo... Melhor nem pensar...

terça-feira, 29 de setembro de 2009


Ainda que você tente se controlar, inevitavelmente, acabará por seguir os rastros dela. Lambendo os restos, os cacos e as quinas que ela te deixou. Porque é só isso que você é capaz de fazer: rastejar e lamber.

E ela nem te considera.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Só que dessa vez doeu menos, bem menos. Acho que a gente vai se doendo e se doendo até que acostuma, deixando de lembrar o tanto que doía. Então ri das cartas que escreveu, das bobagens que falou e menospreza as lágrimas que derramou. No final a gente solta um riso meio bobo, faz uma cara meio assim querendo dizer que não tem jeito não, toma um café amargo pra poder seguir em frente. Levanta da cama e lembra de regar as plantas, trocar a fechadura, tratar da gastrite e visitar o cabeleireiro. Porque o cabelo cresce, criatura! E um dia a gente se olha no espelho e toma um susto daqueles. Chega também a hora de pintar as unhas para não roer mais. E a gente não rói.

Senta na cadeira de balanço, solta um suspiro de alívio e espera o próximo vendaval chegar pra foder tudo de novo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ó, e antes que eu me esqueça: é melhor você não se animar. Os móveis estarão todos no teto e agora cada uma de nós vai pro seu canto. E ponto. Não, não vai adiantar fazer essa cara de desentendida, olhar pros lados fingindo que dessa vez eu estou a falar com as paredes. Meu bem, não tenha grandes esperanças. Melhor: não tenha esperança alguma. Você já aspirou todas as cores desse lugar e eu me cansei. Porque eu sempre acordava sobressaltada toda vez que o mundo estava dormindo. Então pelo espelho eu te via sonhando ao lado e isso me fazia sentir uma imensa vontade de cortar teus cachos. É, a gente se trai por qualquer bobagem.

Que droga, o diazepam acabou...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Então eu fico aqui declamando meus horrores pra ver se alguém finalmente se enjoa do meu nojo.

A verdade é que eu ando terrível...


Impossível evitar aquelas esquinas, bares e calçadas da Augusta.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Desisto. Minha auto-estima se matou. Esfrego a cara no chão e me afogo no seco.

Vou me dissolver nisso que não é de ninguém: porra nenhuma.

Deus deve amar os imbecis, pois fez uma porrada deles. Inclusive eu.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Espero que você encontre esta carta. Por isso mesmo a deixei junto com sua caixa de froot loops em cima da mesa. Pois é, campeão, Curitiba me deu no saco e estou caindo fora. Larguei o curso de jornalismo. Vou pra Rússia, já que lá o teor etílico permitido das bebidas me atrai muito mais. Vendi o microondas, a máquina de lavar e a torradeira pra vizinha do 74, pobre coitada. Mas eu precisava de um pouco mais de grana e esse foi o jeito de conseguir. Hoje pela manhã aquele seu amigo baterista veio aqui atrás de notícias suas e eu contei que você morreu. De overdose. Te encontraram no meio da rua. Agora você está no IML como indigente faz uns três dias, porque eu tive vergonha de reclamar o corpo. Quero mais é que ele vá lá te procurar. Admito que chorei acreditando no que eu mesma estava contando. Sempre fui mitomaníaca, mas acho que agora passei dos limites.

Bum! Mentira de novo!

Olha só, estou de partida e dessa vez é pra sempre. Tua mãe me irrita horrores e é uma vagabunda de marca maior, só aparece aqui pra me pedir dinheiro e você sabe. Xinguei muito essa biscate no telefone hoje.

Deixo meu computador para você, sem essa merda tu não vive mesmo. Além disso, quem sabe assim você me perdoe por ter estourado novamente as cordas da guitarra. Levo comigo os livros de filosofia, os discos da Enya e o álbum de fotos. Não preciso de muitas coisas para onde eu vou.


Esta não é uma carta de despedida. Apenas de esclarecimento.

Aguarde meus postais.


ps: Borzoi morreu ontem a noite e isso é verdade. Não quis te ligar, não quis te preocupar nem nada. Sei do quanto você gostava daquele peixe. Dei descarga -rest in peace.

domingo, 13 de setembro de 2009

Esta madrugada tive vontade de te ligar para saber do seu paradeiro, como se isso adiantasse. Tive também vontade de tomar um chá. Mas estava quente demais e no calor minhas vontades derretem. Inevitável: eu sempre arrumo uma desculpa para tudo. O relógio já marcava 3:30, então fui para a varanda fumar aquele cigarro que guardei a semana inteira. Era o último. Não consegui sequer dar a primeira tragada. Apenas o segurei entre os dedos e deixei queimar, como se fosse um incenso. Do nada me veio um ódio muito grande e eu nem sabia do quê. Acho que foi de você. De mim.

Eu me deitei no chão gelado e esperei isso passar tentando resistir para não fechar os olhos, afinal, seria deprimente demais. Imagina se alguém me visse nesse estado? Não, ninguém me veria. Ou veria? Ahh, que merda! Nem isso eu era capaz de responder. E o ódio não passava e eu não esfriava. Diabos! Peguei o celular. Disquei. Caixa postal. Caixa postal. Caixa postal.

EU NÃO QUERO DEIXAR PORCARIA DE RECADO NENHUM PARA VOCÊ!

Eu só queria saber como você está. Eu só queria ouvir a droga da sua voz, entendeu? Eu só queria poder tomar um chá, comer uns biscoitos na cozinha e conversar um pouco, cazzo! Eu só queria te contar uma parábola.

E dizer que naquele ambiente escuro ele não pôde deixar de reparar na garota grande que usava decote. Que dela se aproximou, como um retardado. Mas que ela não deu bola, esnobou. Que ele ficou mais retardado ainda, querendo puxar assunto, querendo puxá-la pra perto de si. Que a música era alta. E ele ansiava pelo feedback dela. Que todos transpiravam álcool e cigarro. Que a lei anti-fumo ainda não estava vigorando. Dizer que ela ignorou, deu as costas e sumiu. Mas que voltou e deu atenção. Então o erro. O erro absurdo. Tão retardada quanto ele, quanto qualquer um ali. Estúpidos.


Nada pessoal.

Eu estou aqui deitada nesse chão gelado, com meus olhos fechados, tentando dissipar esse calor infernal que está fazendo...

E agora eu não tenho nenhum cigarro para me acalmar. Eu fico aqui nesse estado hiperativo por dentro, com centenas de coisas passando pela minha cabeça e querendo arremessar meu celular no jardim. Eu espero que acerte bem nas flores da minha mãe. É.

Vai amanhecer, vai ser domingo. Vai ser um inferno e minha mãe vai se queixar das flores.

HEHEHE, dane-se.




Se ao menos dessa revolta, dessa angústia, saísse alguma coisa que prestasse.

Caio F.




Quieta garota, cale sua boca,
Faça a Helen Keller e fale com os quadris.

sábado, 12 de setembro de 2009

Solidão, solidão minha.

Goste apenas de mim e me afague os cabelos. Conte uma história bonita que me faça sorrir. Ame meus pés, chupe o meu dedinho torto. Estrale meus dedos, me deixe também um pouco de dor. Sou meio masoquista às vezes, você sabe. Sente-se aqui do meu lado e me traga vodka. Procure um isqueiro e acenda meu cigarro. Diga que isso vai acabar com a minha vida, tome conta de mim. Cante algo do Cowboy Junkies. Só goste de mim. Só goste de mim.

Sábados

Têm dias em que chove por dentro e o pensamento inevitavelmente vai procurar aquilo que nos falta. Chovem ratos por aqui e eu me distraio. É uma hora estúpida pra aprender a nadar quando você já está se afogando...

Tudo bem.



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

"...sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro pra viver a minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não se casava com o outro. Pouco me importava."

Charles Bukowski

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Então desabar de joelhos na calçada da Augusta e observar a chuva que não cai, sentir o vômito que não sai. Amargar teus ódios insolúveis, forçar a vista na ânsia de encontrar um rosto conhecido. Nada. Ninguém. Apenas ouvir os risos das putas, sentir a heroína correr nas tuas veias. Quente. Conviver passivamente com tudo que ameaça ser mas não é. A tua faca cega que te impede o suicídio.