bueiro, me abrace forte!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

"(...) Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”
Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Que vontade de fazer uma coisa errada. O erro é apaixonante. Vou pecar. Vou confessar uma coisa: às vezes, só por brincadeira, eu minto. Não sou nada do que vocês pensam. Mas respeito a veracidade: sou pura de pecados.
Clarice Lispector

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sei que eu não tenho mais porra nenhuma a perder




Silenciosamente eu recolho meus cacos, meus trapos, meus restos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A dor da paixão não satisfeita é essa: o apaixonado deseja possuir o objeto do seu amor, mas ele escapa sempre. Por isso ele sofre. Movido pela dor, quer possuí-Io. Não sabe que, para que sua paixão continue a existir, é preciso que ele continue escapando sempre. A paixão só ama objetos livres como os pássaros em vôo.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Aos Apaixonados”

domingo, 7 de junho de 2009

he says

"Por que você não se desmonta inteira, se você não faz nada pra se manter junta?... Isso quer dizer, o que mantêm suas moléculas unidas?
Porque elas simplesmente se desejam e seguem seus instintos...
Imagine se elas agissem como você... você nem sequer existiria!"

sábado, 6 de junho de 2009

Ah, se ousássemos

Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama, e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul , e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você. Ah, se ousássemos.

Caio F.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sou forte mas também destrutiva. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado.

Clarice Lispector