bueiro, me abrace forte!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

De quando a espera é uma doída demora

Se valeu a pena?
Ah, é aquele passo que você dá e dói. Mas tem o resto da dança.


Acho que ele não bate muito bem da cabeça, mas eu gosto mesmo assim.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

- Alô?
- Posso te contar uma coisinha?
- Hã?
- Calma! Eu só preciso de cinco minutos!
- Putz, eu estava...
- Dormindo. Eu sei.
- Deixa eu continuar dormindo então!
- Quer me escutar, por favor?
- Vai, acaba com a minha noite de vez.
- Eu te vi agorinha mesmo.
- Impossível.
- Eu sei. Mas eu vi.
- Pelo amor de Deus...
- E você não parava de dançar. Bebia muito. Mais que eu até. Você precisava ter visto a cena.
- Olha, eu tive um dia cheio...
- Deixa eu falar, merda!
- São quatro da manhã, surtada! Passei a noite toda em casa, agora deixa de besteira!
- Eu sei que ele não era você. Então eu acho que ele roubou o seu boné, porque era igualzinho!
- Eu tenho dezenas de bonés e nenhum foi roubado, eu garanto...
- Mas era igualzinho, eu juro. Isso é muito sério.
- Acabou?
- Não! Porque ele dançava e eu nunca te vi fazendo isso. Mas dançava muito mesmo, sabe?!
- Tá bom. Tô desligando agora, ok?! Um beijo pra vo...
- Espera! Porque tinha a barba. Eu ainda nem te contei da barba! Era impressionante!
- Deixa eu adivinhar... Igual também?
- Era sim! Era bonita mesmo, sabe?!
- Pronto?
- Não! Porque tinha a roupa...
- Camiseta preta e calça jeans. Ah, tenha dó!
- Mas era toda do seu jeito.
- Tá bom. E ele era bonito?
- Bonitinho igual você. Com brincos nas orelhas e tudo.
- Agora você deixa eu dormir? Antes que eu me enforque com o fio do telefone... sei lá, me liga mais tarde pra ficar falando essas suas idiotices...
- Mas eu só tenho essa hora pra falar, você me conhece. Se eu não falo quando tenho vontade, acaba tudo depois. Evapora.
- Pois é. E foi por causa disso que a gente se separou. Você sempre deixava evaporar. Olha, eu ainda gosto de você, mas...
- Fica quieto! Não foi por isso que eu te liguei!
- Foi falar com esse infeliz pelo menos?
- Fui nada. Fiquei com medo que ele tivesse a sua voz também...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Por fora, uma armadura de aço. Por dentro, toda ao avesso. Tudo no lugar errado, inclusive os sonhos. Traz sempre os olhos perdidos, distantes e indecifráveis que deixam cair cacos de vidro invisíveis. Com muito esforço ameaça um sorriso quando alguém a tira desse quase transe contínuo. Puro disfarce. Viver tão rápido passou a ser inevitável até mesmo quando está parada e atônita. Sufoca com qualquer aproximação e não deixa as palavras escaparem. Tem uma mordaça imaginária na boca e isso explica tanto silêncio. O toque alheio nunca é bem-vindo. Queima. Somente os goles e tragos são capazes de acalmá-la. Impedem o tremor das mãos. Chega esquiva e parte sem adeus com o peito fechado. Teme deixar escapar algum pedaço da alma destroçada enquanto se arrasta pela vida. Egoísta.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A beleza de estar sozinho durante a noite é essa: você se debruça sobre a janela para admirar a imensidão de bares e luzes. E pessoas indo e vindo. Tudo tão opaco e sujo. E você não tem nada nas mangas: só um grito rouco por dentro. Talvez uma garganta seca. Talvez. Mas a verdade é que você só tem essa paisagem de infernos noturnos que uma cidade grande te proporciona. Talvez você disponha de um telefone também. Mas isso faz perder todo o encanto. Porque o agradável é você mergulhar no seu labirinto interno sem nenhuma interferência. E você mergulha.

Eu já me afoguei!

sábado, 26 de dezembro de 2009

O inferno mora no 14º andar

Entrei no elevador prestes à vomitar. 14º andar. Que saco, isso levaria uma eternidade! Antes da porta se fechar, meu vizinho entra. Que saco! Esse garoto é um inferno e eu nem sei o nome dele. Mas odeio o modo como ele me olha. Esses olhos castanhos. Agora a eternidade se multiplicaria pela própria eternidade. Juro por Deus.

Diabolicamente, ele tentou puxar assunto:

- Oi! Tudo bem?

Eu quis dizer que estava de porre, mas... ah, acho que era evidente. Resumi meu estado:

- Bem.

- Andou tomando umas, ?!

- É!

- Quer ir pro meu apartamento? A gente conversa um pouco, bebe ou come alguma coisa. Quero aproveitar que hoje você está simpática.

Não disse que esse garoto é um inferno? Tenho quase idade pra ser a mãe dele (nem tanto, mas é assim que eu me sinto), e ainda sim ele não me respeita. Ele é um inferno cheio de vida e tem lá seu encanto. Ou talvez eu esteja bêbada feito uma gambá no cio.

- Deixa pra outro dia, cansada.

- Ah, não! Eu estou sozinho hoje, meus pais foram viajar. Diz que sim!

Esse filho da puta não deve nem ter 20 anos e tá querendo me comer? Será que ele perdeu completamente a noção da realidade? Fiquei calada. Tamanha era a minha indignação.

Finalmente o 14º andar. Eu já estava indo em direção ao MEU apartamento quando ele me pega pelo braço. Um tremendo filho da puta cheio de disposição.

- Você vem comigo.

- Não vou. Eu já fa...

- Você vem comigo!

Então eu pensei "o que é um peido pra quem tá cagado?". Aceitei ir.

- Vou entrar, tomar um café e sair. Sério.

- Já é alguma coisa, adorável vizinha alcoólatra!

Deus está testando minha paciência, ?! Na verdade, é o próprio diabo! Tive certeza!

Entrei no apartamento dele. Se eu estivesse sóbria, certamente iria reparar na decoração, na limpeza e todas essas coisas. Mas eu não estava e isso não tinha a mínima importância: eu era apenas uma vaca destinada ao abate mesmo. O mundo é injusto.

- Senta aí, moça bonita.

Espera! Minha cabeça está girando mais agora. Moça? Moça bonita? Olha pro meu estado! Eu pareço uma capivara penteada até quando estou sóbria, imagina agora! Esse menino usa tóxicos? O cérebro dele derreteu? Ele precisa de ajuda psiquiátrica ou está tirando uma com a minha cara? A juventude está mesmo perdida e não há salvação.

Sentei.

- Vou fazer seu café. E alguma coisa pra você comer, porque você precisa.

Pronto! Agora ele quer ser meu pai. Agora ele acha que sabe alguma coisa, acha que pode cuidar de mim. Querido, me dá sua privada que eu quero mais é vomitar e dormir pra sempre. E com o rosto lambuzado de vômito.

- Só o café mesmo. Já estou de saída.

- Que isso! Você nunca interage com ninguém aqui do prédio, deixa eu aproveitar esse privilégio. Eu sei cozinhar, viu!

- Tá tarde. Outro dia eu volto aqui pra tomar café, tá?!

- Fica essa noite comigo?

- Quê?

- A gente, sabe... Vai, colabora! Deixa de ser...

Para tudo! Minha cabeça está girando de novo. Esse merda é muito audacioso! Alguém me tire desse conto erótico e me transporte pro mundo real, por favor!

- Olha, garoto...

- Eu sei o seu nome e você não sabe o meu. Eu sei dos seus horários, sei onde trabalha e sei também que você nunca traz ninguém pro seu apartamento. E...

- Você é um psicopata, é isso?

- Não! É que eu não me conformo como você pode viver assim! Você é muito sozinha.

- Você não tem nada a ver com a minha vida. Só está a fim de... Enfim. Até aí tudo bem, eu estava quase topando. Só que agora eu já desisti, então vamos deixar pra lá essa bobeira toda. Não vai rolar.

- Não, não. Não é isso. Eu só quero que você...

- indo embora.

- Por que você foge de todo mundo desse jeito? É medo do quê?

- Abre a porta!

- De verdade, eu queria muito te entender. Você é toda fechada pro mundo, até minha mãe já disse isso.

Mãe? Nem sei quem é a mãe desse garoto! Mas já a detesto com todas as minhas forças. Detesto essa vadia bisbilhoteira pela estupidez de ter levado a gestação desse diabinho até o fim. De agora em diante, sou a favor do aborto. É isso!

- Tudo bem, eu mesma abro. Boa noite.

- Espera! Deixa eu te falar uma coisa...

- Mais? Você é um chato que não sabe de porra nenhuma.

- Eu espero que um dia você encontre alguém que não desista.

- Não desista do quê?

Por que eu ainda dou trela, meu Deus, por quê?

- De você. Porque você faz de tudo pra que isso aconteça.

A rapariga que é a mãe dele deve ter dito isso também. Dei de ombros e fui embora. Entrei no meu apartamento e sequer acendi a luz. Sentei ali mesmo no chão da cozinha e adormeci encostada contra a parede. Alguém tocou a campainha, acordei e vi que já tinha amanhecido. Nem me mexi. Estava me fingindo de morta. Quem sabe eu fingisse tão bem a ponto de eu mesma acreditar e morrer de uma vez. Seria muito prático. Seria bom demais para ser verdade.

Então ouvi:

- Abre! Preparei seu café da manhã. Eu sei que você está aí! Abre, vai!

Esse garoto é ou não é um inferno?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Todas essas luzes de natal


E eu aqui.


O limite é até onde doeu a última vez.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Em meio à tempestade, eu tenho o céu da boca seco. Eu renego meus instintos e minhas vontades e até assopro a poeira contra o vento só pra sentir meus olhos arderem e provar que sou capaz de suportar. Não permito que ninguém passe a mão na minha cabeça ou beije minha testa, embora seja isso o que eu precise. Minha paixão e meu ódio em simbiose me assolando por dentro e transbordando pelos poros e eu lutando para fazer com que a felicidade não seja só de fonte exógena. Mas não consigo.

Aqueles que me querem bem estão cansados e se afastando cada vez mais de mim, e eu não os condeno. Não sou a pessoa que o mundo exige que eu seja, mas eu já me perdoei. De coração.

Eu deixo a porta aberta.

Quem quiser entrar, por favor, esteja inteiro. Chegue o mais perto que puder e se eu me transformar em gente igual essa gente que eu vejo todo dia e sinto nojo, mire na minha cabeça e dispare. Sem hesitar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Todos os dias eu acordo naquele inverno, com você preso nos meus dentes.


Garçom, por favor, uma dose de esperança sem açúcar e sem gelo para eu poder saborear as migalhas que ele anda me deixando por aí. E um lencinho também, que é pra eu secar um par de lágrimas...

Com um pouco mais de disciplina, eu o esqueceria.

Era nisso que eu acreditava. Mas de repente ele reaparece. Do jeito dele, claro. Do jeito que a tecnologia permite. Um perigo que me assombra, porque eu fico sem saber o que dizer (ou melhor, o que escrever), já que em mim só sobrou esse buraco no peito que eu venho tentando arduamente preencher mas não consigo. O que restou da minha pintura foi apenas um borrão que eu não sei consertar com as tintas eu ainda tenho.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O amor todo sacana usa ray ban só para fingir que é cego.

O amor está sentado com as mãos nos joelhos me encarando com o velho sorriso vermelho - o amor todo sacana faz isso só para me incomodar. O amor me persegue pelas ruas e me apressa apontando para o relógio - o amor todo sacana sabendo que eu não consigo agir sob pressão. O amor me puxa pelos cabelos e sussurra no meu ouvido as piores ameaças - o amor todo sacana sabe o quanto eu sou covarde. O amor ergue minha mão e grita bem alto que eu sou preguiçosa, debochada e não tenho coração - o amor todo sacana me deixa em evidência. O amor ordena que Eros me acerte flechas - o amor todo sacana provocando cicatrizes no meu corpo. O amor canta, dança e pula ao meu redor tentando me impedir de caminhar - o amor todo sacana esperando que eu tropece. O amor me empurra e me golpeia - o amor todo sacana só faz isso porque eu não sei brigar. O amor se apoia nos meus ombros e ri feito louco - o amor todo sacana faz isso só pra me cansar e irritar. O amor come, bebe e manda colocar na minha conta - o amor todo sacana quer me endividar.


O amor sempre tentando me dar uma rasteira - o amor todo sacana quando me vê passar manda beijos e acena.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Constatações - 2009

Eu sempre chego atrasada na vida das pessoas;
Eu sou stalker e me assombro quando descubro que não sou tão invisível quanto eu penso ser;
Amor, pra mim, só se for platônico;
Porre, pra mim, só se for homérico;
Eu tenho muitas histórias ébrias para contar;
Sou muito insensível;
Eu subestimo a maioria das pessoas e superestimo quem não merece;
Meu maior talento é cometer gafes;
Eu me apaixono fácil, mas raramente;
Eu falo muito alto, principalmente quando eu devo falar baixo e uso como desculpa o fato de eu ser descendente de espanhóis;
Metrossexuais me causam náusea;
Eu tenho fobia de grávidas;
Casamento é para os fracos;
Sacanear as pessoas, pra mim, chega a ser uma obsessão;
Não discuto relação;
O "jeitinho brasileiro" me tira do sério;
Gente hipócrita me causa mais asco que gente suada;
Sou mais legal virtualmente... ou não.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O salto alto e a perda da dignidade


Na última noite, resolvi me travestir. Sim! E se arrependimento matasse, no mínimo, eu deveria estar já em estado terminal. E eu não estou brincando. Fui imatura e petulante o bastante para encarar um sapato de salto alto (porém, graças ao que restou do meu juízo que ainda não foi diluído em vodka, o salto não era fino e nem tãão alto assim, apenas o suficiente para eu ultrapassar os 1,80m de altura) para ir numa balada ao estilo mágico e irresistível dos anos 80. Em Pinheiros! Com transporte público, SIIIIM! Muito, mas MUITO antes de chegar ao local, eu já estava praguejando e amaldiçoando o criador dessa arma mortal: o salto alto. Amaldiçoava também minhas amigas que insistiram para que eu usasse este artefato malígno. A dor era dilacerante. E as ruas e calçadas de São Paulo são cruéis, brutais e monstruosas (sem exagero).
Enfim, após sair do metrô consolação, andamos e andamos para encontrar o maldito ponto de ônibus que estava evidente, tão evidente que não encontramos tão rápido assim. Aguardamos quase meia hora até o ônibus chegar. Eu já estava quase chorando de dor. Quase! E mal sabia o que ainda estava por vir (sim, eu sou a criatura mais ingênua que conheço). Desembarcamos na rebouças e, claro, fomos na direção oposta de onde deveríamos ir. Já passava da meia-noite, e as ruas não eram tão bem iluminadas assim. Após caminhar muito, muito, muito e muito, praguejar, e, óbvio, ouvir as gracinhas dos rapazes que passavam de carro, descobrimos o quanto havíamos errado o caminho. Ocorreu então a brilhante ideia de chamar um táxi. Poréééém, como todo infortúnio é pouco, não conseguimos. Voltamos a caminhar mais e mais, e, finalmente encontramos a Darta Jones. Uma balada realmente muito boa e que eu recomendo.
Eu queria beber, eu queria dançar, mas, sem dúvida, o que eu mais queria era o meu tênis. O que eu mais queria era injetar morfina nos meus pés. De tudo isso, apenas bebi (socialmente, claro) e dancei. Não darei detalhes do decorrer da balada, pois isso não vem ao caso, apenas acho válido citar a frase que ouvi de um rapaz de masculinidade dúbia: "Menina, você é louca!". Cinco horas da manhã, ao som de Michael Jackson, a balada termina. Mas meu sofrimento não. Perdi completamente a dignidade e saí de lá descalça. DESCALÇA. DESCALÇA! A minha vontade era de gritar, chorar, espernear e arremessar aqueles sapatos para muito longe de mim.
Conseguimos um táxi.
Conseguimos voltar para casa.
Mas ainda não consegui me livrar dessa dor. Nem de todo ódio que ainda existe no meu coração.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Carlos Drumond Andrade

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

E tem uma menina que guarda nos bolsos da calça a sua coleção de amores errados. Coleciona os cheiros. Os sabores dos beijos. Sonha que um dia o amor a matará enquanto estiver dormindo.
Numa punhalada só.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fuga


ela vem de muito longe
correndo e carregando
seu punhado de amores não declarados

sábado, 12 de dezembro de 2009


Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar.

"Dama da Noite" - Caio F. Abreu

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ah, meu caro, desista de juntar esses cacos. Tem jeito não, quebrou. Estou me esfarelando, dia após dia. Agora está tudo espalhado pelo chão e você aí ajoelhado tentando recolher. Isso só vai resultar em dores na coluna.

Desista como eu já desisti.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009



Porque

às vezes

a gente

só precisa dançar...

"Eu ainda te quero bem"

É verdade, mas nem sempre. Principalmente quando você me dói. Bem na hora que eu acordo e já sinto aquelas pontadas nas têmporas. Mas nada que uma garrafa de café, vodka e cigarros não possam resolver. Minha úlcera tem seu nome. E eu não sou feliz comigo. Acontece que o tempo não tem sido eficaz e eu não te esqueço. E chega a doer. Dor física mesmo. Mas também não choro e, nos últimos dias, parei de me mutilar. Era como se, ao arrancar um pedaço de mim, eu pudesse me desfazer de você. Só que eu não me desfaço. Então eu continuo procurando qualquer coisa que pareça abrigo, até as coisas tortas e podres. Eu, inevitavelmente humana e estúpida, sabendo que tudo vai desabar bem na minha cabeça.

E eu vou esperar.

Sem desespero. Porque eu ainda te quero bem. E eu vou suportar.
Amém.



domingo, 6 de dezembro de 2009

Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Hoje pela manhã, senti um quase-afeto.

Contei até três.

Passou.



Vou rolar nuns cacos de vidro por aí.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Não, eu não saio do buraco mesmo.

"Anedonia", me disseram. Eu estou começando a achar comum. Tudo. Tudo mesmo. Digo isso de um jeito, que, se Jesus voltar, eu nem me surpreendo. Amor? Amor o quê? Não, não tem nada a ver com desamor também. Não sei exatamente com o quê tem a ver. Já virou nojo, entende? Nojo de mim, de você, deles. Nojo dessa merda toda que eu sou. Que somos. Que eles são. Mas que se foda, o ano está acabando e já desistiram de me salvar, eu acho. Todos cansados. Vou me entupir de Fenergan ou qualquer outra droga que me faça dormir. Café gelado e muito cigarro. Meus dentes já tão amarelos e eu não quero fazer clareamento ou qualquer porra dessas. Meu dentista me perguntou se havia alguma chance de eu estar grávida, eu tive vontade de rir. Fazia tanto tempo que isso não acontecia (rir). Mas eu não ri. Falei muito séria com ele. Não tinha a menor possibilidade de eu estar grávida. Nem por milagre. Até pensei em me ajoelhar diante dele e jurar pelo nome da minha mãe. Mas depois ele me veio com outras perguntas e eu deixei pra lá a ideia de me ajoelhar. Quem me conhece sabe que eu adoro um exagero. Gosto de falar coisas como carne, sangue, vômito, caralho. Mas eu estava aqui falando da volta de Cristo, não estava? Não, não! Era outra coisa. Anedonia, certo? Bom, foi isso o que me disseram. Tem pré-diposição genética? Deve ter, né?! Porque depressão tem sim, eu sei.

Ahhhhhhhhhhhh

Sabe de uma coisa?

Não adianta botar perfume na merda.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Faça silêncio,

porque hoje eu quero me afogar em qualquer coisa etílica.

Quando cada vez mais, tudo importa bem menos, eu percebo que sequei. De vez. E todas essas metáforas embaralham minha vista.

E o comichão na nuca não passa...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


“Sem preservativos, é com a AIDS que você faz amor. Proteja-se.”

Dezembro


chega a ser brutal.

domingo, 29 de novembro de 2009

"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?

sábado, 28 de novembro de 2009

Daí que eu acordei, né. E meu corpo estava cheio de manchas vermelhas. E ainda está.

Daí que agora eu estou aqui achando que logo logo vou morrer.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Vá embora e me deixe aqui no meu mundo de escombros.

Novembro está chegando ao fim.

Não tente me perturbar.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Excessos.

Quando menos percebi, eu já estava pela metade. Agora eu quero que você engula cada pedaço que arrancou de mim.

Perda de tempo.
Perda de tempo.
E tarde demais.

sábado, 21 de novembro de 2009

Empurrou o prato. Estava farta. Releu a carta quase quinze vezes e nada. Nenhuma compreensão. Procurou o maço de cigarros. Vazio. "Nem isso", pensou. Cravou as unhas na mesa. Quis gritar, mas já estava afônica. Nada a seu favor.

Desistiu.
Rasgou a carta.
Dormiu sentada.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Novembro engole minhas palavras. Eu fico esperando que me devolva. Mas não devolve. Não vomita. Nem sequer sorri.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

É o seguinte, feras:

Vivemos numa privada e fomos paridos pelo cu.

domingo, 15 de novembro de 2009

Seja lá como for, fico imaginando uma porção de crianças brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de crianças e ninguém por perto – quer dizer ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho que segurar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começa a correr sem olhar onde esta indo eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que ia fazer dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas e a única coisa que eu queria fazer.

J.D. Sallinger - The Catcher in the Rye

sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Se você for tentar, vá até o fim.
Senão, nem comece.

Se você for tentar, vá até o fim.
Isso pode ser perder namoradas, esposas, parentes, empregos e talvez sua cabeça.

Vá até o fim.
Isso pode ser não comer por 3 ou 4 dias.
Pode ser congelar em um banco de praça.
Pode ser cadeia.
Pode ser o ridículo, chacota, isolamento.
Isolamento é a benção.
Todo resto é um teste na sua resistência, de quanto você realmente quer fazer aquilo.
E você vai fazer.

Independente da rejeição,
E das piores dificuldades.
E será melhor do que qualquer outra coisa que você possa imaginar.

Se você for tentar, vá até o fim.
Não existe outra coisa que vá te fazer sentir isso.
Você estará sozinho com os Deuses.
E as noites se inflamarão em chamas.

Faça. Faça. Faça.
Faça.

Até o fim.
Até o fim.
Você guiará sua vida direto para o riso perfeito.
É a única boa briga que existe.

(Charles Bukowski)

sábado, 7 de novembro de 2009


"O vento jogou seus cabelos ruivos sobre a cara. Sacudiu a cabeça para afastá-los e saiu andando lenta em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu azul - daquela não-dor, afinal."
- Caio F.
Perseguir sombras, adorar as sobras, viver no restinho de tudo. Os dedos sujos, os lábios com as marcas das próprias mordidas. O suor escorria misturado com as lágrimas. Gosto salgado. Cheiro acre. Mofo nos lençóis. O maldito calor derretendo suas ideias. O maldito calor se contrapondo às suas vontades. O maldito calor: seu único inimigo. O maldito calor: sua única companhia. Carregava pontos de interrogação nas costas, e já se achava incapaz de suportá-los. Os braços tão finos, as costelas evidentes...

(ainda) Procura-se

O rapaz tem um nariz comprido e fino. Os dentes de baixo são um tanto tortos. Barba quase sempre por fazer. No primeiro encontro com uma garota costuma usar uma camisa manga comprida xadrez. Precisa de lentes de contato e do carro da mãe também. Tem brincos, tatuagem, braço peludo. Ortografia razoável e gosto por arte.

SIGNS




esse cara me lembra alguém...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

E lá estava ela: perdida no vão entre a loucura e a realidade. Humor mórbido, cabelos trançados, maquiagem borrada. Sonhava com o homem que não poderia sonhar e suspirava baixinho todas as manhãs. Depois de tomar seu café sempre tentava escrever um pouco no diário, mas já não havia nada a ser escrito. Tudo se foi de um jeito que ela nem sabe como. Os dias caindo pela janela da cozinha que ela tentava, em vão, agarrar. "Tudo se foi, tudo se foi" ela dizia em tom de melancolia e saudade. Apenas sentia desespero quando a vodka ou o café acabavam. Deixou de fumar e assistir televisão. Ouvia rádio só nas tardes quentes quando lembrava que ainda era capaz de diferenciar o calor do frio. A ferida infeccionada na mama esquerda que há tanto tempo deixou de tratar. Mutilação diária. Gostava de se ferir. Cortes na virilha que ela mesma fazia com a gilete na hora do banho porque achava encantador o modo como o sangue escorria pelas coxas, descendo pelas pernas até encontrar o pé, e então era levado com a água morna para o ralo. Quando a noite chegava, fazia um ou dois telefonemas. Discava qualquer número e ficava muda quando atendiam a chamada. Vez ou outra disparava algo parecido a um chiado, só para não esquecer que estava viva. E estava.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sinto muito, mas preciso lhe dizer: não sinto tudo isso por você. Eu minto em progressão geométrica. Minhas mentiras têm vida própria, se reproduzem dentro da minha loucura vomitada no chão. Nem todos esses amores errados são meus e nem todas essas dores são minhas também.

Eu não sou feliz aqui,
Um beijo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cansei dos meus vícios. Talvez amanhã eu vá procurar Deus. Mentira, não vou. Tenho medo. Procuraria um médico, mas tenho medo também. Não estou pronta, jamais consegui estar inteira. Sou tirana. Sou bêbada. Sou escrota. Sou medrosa. Sou também o que não sei. Fiz de mim o que não sei nomear. Não tenho coerência. Não sei me equilibrar, sempre caio. E não divido cigarros. Sou contra o mundo, mas eu mesma me saboto. Acabei construindo um muro em volta de mim que nem eu sei como destruir. Sou vítima de mim mesma porque já não sei de quem me protejo, se eu sou a única pessoa que pode me fazer algum mal.
Novembro me amedronta porque faz dezembro estar mais próximo. Quase me toca a boca. Penso que já posso até sentir seu cheiro.
Sinto enjôo.
Não te tocar, não pedir um abraço, não pedir ajuda, não dizer que estou ferido, que quase morri, não dizer nada, fechar os olhos, ouvir o barulho do mar, fingindo dormir, que tudo está bem, os hematomas no plexo solar, o coração rasgado, tudo bem.
Caio F.

domingo, 1 de novembro de 2009


"A mensagem é simples. Se você já perdeu um dedo, ou é estéril, mais feio do que gostaria, menos alto do que o permissível, explorado pelo sistema, envolvido por amarguras, não tem o suficiente ou tem excesso de insuficiências, se espera e nunca alcança, se alcança o que você não espera, se vem quando não quer e parte quando mais ama, se tudo que reluz não é ouro e a vida não está ao seu alcance é porque você alcançou a vida. Que é, desde sempre, um projeto fracassado. Cada um paga seu preço. Contente-se se o seu não é alto.
Só uma coisa é certa. No fim o bandido morre,
E o mocinho também.
E toda a platéia."


Millôr Fernandes (?)
A verdade é que estamos cansados. Cansados da rotina, da mesmice e até dos porres e do cheiro de cigarro impregnado na roupa e nos cabelos. Estamos fodidos. Estamos fodidos mesmo. E agora meu corpo oscila para lá e para cá na tentativa de esbarrar em outro corpo que me sustente. Não encontro. Mas também não desabo. Não existe chegar perto, não existe chegar lá. Nem sequer um tapa na cara para acordar. Todos se esquivam, todos fogem, todos vivendo suas vidas. Não tenho pressa. É domingo, wow!

sábado, 31 de outubro de 2009

Eu bem que poderia ter me apaixonado por ele. Dividir um cigarro e deixar pra ele sempre o primeiro trago. Poderia ter encontrado nele alguma razão. Mas nem ao menos me preocupei em procurar.

Tem jeito não, ó!
Passei a ver graça na desgraça alheia quando a minha chegou ao ponto de assemelhar-se ao tédio.

Sádica eu, né! Felicidade me incomoda muito, gente.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Esta noite eu sonhei que alguém me abraçava prometendo que tudo ficaria bem. Mas logo depois, Adélia me acordou. Abriu as cortinas, foi tanta luz que eu não enxergava mais nada. Atirei o travesseiro nela, ou no naquilo que eu pensava ser ela. Filha de uma puta! "É o fim dos tempos!" eu gritava. Adélia sorriu e foi embora. Outro dia, um cara, não quero citar nomes não, sabe... mas esse cara, ele disse que eu sou linda. Eu deveria agradecer o elogio, mas não falei nada. Naquele dia eu não consegui retrucar uma mentira. Mas por que eu lembrei disso agora?

Eu sou demais para qualquer um suportar. Juro que eu não queria deixar marcas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Por favor, alguém venha me falar por que diabos eu estou aqui parada em frente a essa tela branca se eu já nem tenho mais nada para dizer.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

“É importante não correr para os braços do outro fugindo da chatice da família, da mesmice da solidão, do tédio. É essencial não se lançar no pescoço do outro caindo na armadilha do ‘enfim nunca mais só!’, porque numa união com expectativas exageradas decreta-se o começo do exílio.”
| Lya Luft |
Pois é, Bueiro, cá estou eu. Mais uma vez.

Eu ando péssima. Péssima mesmo. Terrível, como dizem. Então deixe disso e me abraça, Bueiro. Eu voltei para você porque eu não consigo ficar longe do seu cheiro. Você consegue ver? Aqui, bem aqui, dentro dos meus olhos, tá vendo? É por isso que estou aqui, por você ser capaz de ver aquilo que ninguém mais pode. Estúpida, isso mesmo, me chama de estúpida! E essas manchas no meu pescoço, não são dele, são de outro. Meu Deus do céu, Bueiro! DE OUTRO! Eu só queria dizer que a foto dele ficou muito bonita, que ele continua sendo o cara mais bonito que eu já vi e que eu ainda não descobri qual o mecanismo. Sim, o mecanismo. Eu não te falei sobre o mecanismo? Porque os olhos dele mudam de cor, sabe?! Mudam mesmo! E eu não sei qual o mecanismo. Na verdade eu até sei. Mas... você entende o que eu quero dizer, não é? Bueiro, isso é muito sério. É a coisa mais séria que existe e já existiu. Ah... me abraça logo, caralho!

domingo, 25 de outubro de 2009


E seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa

- Caio F. Abreu

quarta-feira, 21 de outubro de 2009



“De algum secreto lugar me vem a força para erguer a xícara, acender o cigarro, até sorrir quando alguém me diz: ‘Você hoje está com a cara ótima’, quando penso se não doeria menos jogar-me de um décimo primeiro andar.”
Lya Luft

“Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho… o de mais nada fazer.”

- Clarice Lispector

O sol brilha forte. Os sorrisos não.



No fim, meu bem, a gente junta os cacos...

sábado, 17 de outubro de 2009


Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência. Estou tentando ser honesto e limpo. Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir.
Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Procura-se


O rapaz fala sozinho, resmunga, odeia tudo o que considera convencional e inventa problemas para se ocupar. Tem mania de desenhar nas paredes e é viciado em coca-cola. Não é filho único e não sabe dividir nada. Gosta de sexo, acredita em Deus e compõe músicas recheadas de palavrões, mas se descontrola quando ouve uma garota pronunciar quaquer "foda-se". Trabalha de segunda à sexta e nos finais de semana joga bilhar. Acredita no amor e se apaixona várias vezes durante o dia. Adora tocar guitarra e enfeitar a casa para o natal. Adora.
Porque já passaram das quatro da tarde e você ainda está dormindo, enrolado nesses lençóis de algodão. E eu estou aqui parada em pé te olhando, mas juro que vou esquecer seu rosto assim que eu sair por aquela porta. Não era paixão e nunca foi amor, era só solidão. Então eu vou pra minha casa carregando essas marcas nas costas e nos braços.
Tentar me perdoar.

Ele não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática e sem aquela necessidade toda de ser amada. Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas. Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos. Ele não sabe que a cada dia eu penso menos nele, mas que conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranqüilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias todos e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos. Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco. Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos. Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim. Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre. Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura. Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso. Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha. Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria.


Marla de Queiroz

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

as coisas boas que um certo alguém me deixou



às vezes, eu sinto o medo da incerteza me incomodar. e eu não posso fazer nada além de me perguntar por quanto tempo eu vou deixar esse medo assumir o volante e me guiar. ele já me guiou antes, e parece ter uma vaga atração maciça, assustadora. mas ultimamente eu tenho começado a achar que eu deveria estar atrás do volante. o que quer que o amanhã traga, eu estarei lá de braços e olhos abertos, sim. o que quer que traga amanhã, eu estarei lá eu estarei lá então se eu decidisse renunciar à minha chance de ser mais um na colméia. eu escolheria água ao invés de vinho e me assumiria e dirigiria? ele já me guiou antes e parece que é assim que todo mundo age. mas ultimamente eu tenho começado a achar que quando eu me conduzo, encontro minha luz.

(incubus - drive)

(…) Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a tua amante humilde, entrelaçada a ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de te amar, sem odiar as tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sob o céu de Saigon




Ele era um desses rapazes que, aos sábados, com a barba por fazer, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado por baixo da barba crescida, quem olhasse para um deles mais detidamente, mas poucos o fazem, perceberia que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim. Costumam usar jeans desbotados, esses rapazes, tênis gastos, camisetas e, quando mais frio, alguma jaqueta ou suéter geralmente puídos nos cotovelos. Quase sempre levam as mãos nos bolsos, o que torna impossível a qualquer um que passa ver melhor suas unhas roídas, seus dedos indicador e médio da mão direita, ou da esquerda, se forem canhotos, amarelados pelo excesso de fumo. Eles olham para baixo, não como se tivessem medo de tropeçar nos solavancos freqüentes das calçadas da Augusta, pois raramente usam sapatos, e as solas de borracha dos tênis amoldam-se com certa suavidade às irregularidades do cimento; olham para baixo, e isso seria visível se se pudesse localizar o brilho nos seus olhos de pupilas um tanto dilatadas por trás das lentes escuríssimas dos óculos, como se procurassem tesouros perdidos, bilhetes secretos, alguma jóia ou objeto que, mais que valor, guardasse também uma história imaginária ou real, que importa? Mas às vezes olham também para cima, e quando o céu está claro, o que é raro na cidade, pode-se imaginar que suas peles brancas procuram desesperadas e quase automaticamente pela luz do sol. E quando o céu está escuro, o que é bem mais comum, sobretudo nesses sábados em que rapazes assim costumam subir ou descer a rua Augusta, pode-se imaginar que procurem balões juninos, objetos voadores não identificados, pára-quedistas, helicópteros camuflados, zepelins ou qualquer outra dessas coisas pouco prováveis de serem encontradas sobrevoando ruas como a Augusta num sábado à tarde. Ou horizontes, talvez busquem horizontes entre o emaranhado de edifícios refletidos nas lentes negras dos óculos que escondem o brilho ou a intenção do fundo dos olhos no momento em que um desses rapazes pára na esquina, como se tanto fizesse dobrar à esquerda ou à direita, seguir em frente ou voltar atrás. Por serem como são, seguem sempre em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. E por serem tão iguais, quem prestar atenção em algum deles, mas poucas vezes ou nunca alguém o faz, jamais saberá se se trata de muitos ou apenas um. Um único rapaz: este, com a barba por fazer e mãos enfiadas no fundo dos bolsos, que agora, logo depois de cruzar o topo da avenida Paulista, começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde.
Ela era uma dessas moças que, aos sábados, com uma bolsa pendurada no ombro, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado que a ausência total de maquiagem nem pensou em disfarçar, quem olhar para uma delas mais detidamente, e alguns até o fazem, pedindo telefone ou dizendo gracinhas sem graça, às vezes grossas, porque elas caminham devagar, olhando as coisas, não as pessoas, mas quem olhar com atenção perceberá que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim, sem muita importância. Costumam, elas também, usar jeans desbotados, sapatos de salto baixo, às vezes tênis gastos, camisetas ou alguma blusa de musselina, seda, crepe ou outro tecido assim fino, que um rápido olhar mais arguto perceberia de imediato não se tratar de uma prostituta ou empregada doméstica. Pois têm certa nobreza, essas moças, não se sabe se pela maneira altiva como fingem não ouvir as gracinhas que alguns dizem, se pelo jeito firme de segurar a alça da bolsa com seus dedos de unhas sem pintura, conscientes de que são fêmeas e estão na selva. Num súbito encontrão, que não seria impossível, menos aos sábados, é verdade, do que nas sextas-feiras ao meio-dia ou de tardezinha, se alguém arrebatasse a bolsa a uma dessas moças para depois rasgá-la num terreno baldio, ficaria decepcionado com o dinheiro escasso, o talão de cheques sem saldo, uma agenda de poucos compromissos, tickets de metrô, algum livro de poesia, esoterismo ou psicologia, uma foto de criança, raramente de homem, quem sabe um cartão de crédito vencido e entradas para teatro ou show, já usadas. Essas moças não olham para baixo nem para cima: com passo decidido, olham direto para a frente, como se visualizassem além do horizonte um ponto escondido para esses outros que passam quase sempre sem vê-las, para onde se dirigem com seus jeans gastos, suas bolsas velhas, suas peles de nenhum artifício. Dessa nitidez no passo, dessa atrevida falta de artifícios no rosto é que brota quem sabe aquela impressão de nobreza transmitida tão fortemente quando passam, mesmo aos que não as olham nem mexem com elas. Podem parar para folhear revistas estrangeiras em alguma banca, sem jamais comprar nada, deter-se para conferir os preços estampados nas portas dos restaurantes, olhar maçãs ou morangos, tocar rosas ou antúrios, mas geralmente apenas seguem em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. Talvez sejam tantas e, se realmente o são, tão parecidas que, se alguém do alto de uma janela no Conjunto Nacional olhasse para baixo e as visse agora, poderia pensar mesmo que são uma só. Uma única moça: esta, com a bolsa velha pendurada no ombro, que depois de cruzar o topo da avenida Paulista começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde.
E porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas, encontraram-se esses dois, esses vários, em frente ao mesmo cinema e olham o mesmo cartaz. Love kills, love kills, ele repete baixinho, sem perceber a moça a seu lado. And this is my way, ela cantarola em pensamento, na versão de Frank Sinatra, não de Sid Vicious, sem perceber o rapaz a seu lado. Outros entram e saem, sem vê-los nem ver-se, remanescentes punks, pregos nas jaquetas, botas pretas, intelectuais de óculos, aros coloridos, paletós xadrez, adolescentes japonesas, casais apertadinhos, elas comendo pipocas, senhoras de saia justa, gente assim, de todo tipo.
E talvez porque rapazes e moças como ele e ela aos sábados à tarde raramente ou nunca se enfiam pelos cinemas, preferindo subir ou descer a rua Augusta olhando as coisas, não as pessoas, os dois se encaminham para as entradas em arco do cinema. Então param e olham para cima, suspirando em suave desespero, um céu tão cinza, como se fosse chover, oh céu tão triste de Sampa.
E então como se um anjo de asas de ouro filigranado rompesse de repente as nuvens chumbo e com seu saxofone de jade cravejado de ametistas anunciasse aos homens daquela rua e daquele sábado à tarde naquela cidade a irreversibilidade e a fatalidade da redondeza das esquinas do mundo ― ele olhou para ela e ela olhou para ele.
Ele sorriu para ela, sem ter o que dizer. Ela também sorriu para ele. Mas disse, a moça disse:
― Parece Saigon, não?
― O quê? ― ele perguntou sem entender. Ela apontou para cima:
― O céu. O céu parece Saigon. Surpreso, e meio bobo, ele perguntou:
― E você já esteve em Saigon?
― Nunca ― ela sorriu outra vez. ― Mas não é preciso. Deve ser bem assim, você não acha?
― O quê? ― ele, que era meio lento, tornou a perguntar.
― O céu ― ela suspirou. ― Parece o céu de Saigon. Ele sorriu também outra vez. E concordou:
― Sim, é verdade. Parece o céu de Saigon.
Nesse momento ― dizem que cabe aos homens esse gesto, e eles eram mesmo meio antigos — talvez ele tenha pensado em oferecer um cigarro a ela, em perguntar se já tinha visto aquele filme, se queria tomar um café no Ritz, até mesmo como ela se chamava ou alguma outra dessas coisas meio bestas, meio inocentes ou terrivelmente urgentes que se costuma dizer quando um desses rapazes e uma dessas moças ou qualquer outro tipo de pessoa, e são tantos quantas pessoas existem no mundo, encontram-se de repente e por alguma razão, sexual ou não, pouco importa se por alguns minutos ou para sempre, tanto faz, por alguma razão essas pessoas não querem se separar. Mas como ele era mesmo sempre um tanto lento, não perguntou coisa alguma, não fez convite nenhum. Nem ela. Que lenta não era, mas apenas distraída. Ela então sorriu pela terceira vez, e já de costas abanou de leve a mão abrindo os dedos, como Sally Bowles em Cabaret, e continuou a descer a rua Augusta. Ele também sorriu pela terceira vez, meio sem jeito como era seu jeito, enfiou as mãos ainda mais fundo nos bolsos, como Tony Perkins em vários filmes, coçou a barba por fazer e resolveu subir novamente a rua Augusta.
Uns cem metros além, ela pela alameda Tietê, ele pela Santos, esse rapaz e essa moça, ou talvez os dois, ou quem sabe até mesmo nenhum, mas de qualquer forma ao mesmo tempo, pensam vagos e sem rancor mas estes sábados sempre tão chatos, porra, nunca acontece nada. Por associação de idéias nem tão estranha assim, ele ou ela, ou nenhum dos dois, talvez olhem ou não para trás procurando quem sabe algum vestígio, um resto qualquer um do outro pela rua Augusta deserta do sábado à tarde.
Mas rapazes e moças assim não costumam deixar rastros, e ambos já tinham sumido em suas esquinas de ladeiras súbitas e calçadas maltratadas. Acima deles, nuvens cada vez mais densas escondem súbitas o anjo. O céu de chumbo, onde não seria surpresa se no próximo segundo explodisse um cogumelo atômico, caísse uma chuva radioativa ou desabasse uma rajada de napalm, parecia mesmo o céu de Saigon, quem sabe pensaram. Embora, de certa forma, eles nunca tivessem estado lá.


Caio F.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

oi

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas.

Caio F.

sábado, 10 de outubro de 2009


mas acho mesmo que todo mundo se foi porque eu tento, mas talvez já não tenha mais nada pra dizer.
Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas! Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade

Esqueça o que lhe disse. Um dia conversaremos sobre isso. Não dê importância, hoje eu estou chateado, amargurado, pessimista. Estava esperando um telefonema, ela não me telefonou. Você vê como são as coisas: por causa de uma namorada a gente chega a emitir conceitos sobre Deus e o mundo, sobre literatura, dizer que a vida é uma merda.

Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Eu tenho infinitos diálogos imaginários com você. Bebo um copo de cerveja e sirvo a sua coca-cola com gelo e limão enquanto mordo meus lábios sentindo você se dissolver entre meus dedos.

Se eu pichasse nos muros da cidade meus devaneios, bem nos muros que fazem o caminho para o seu trabalho, você notaria?

Gostaria de poder dizer qualquer bobagem, qualquer coisa brega que prendesse sua atenção. Qualquer tolice pra você voltar.

Não posso.

Meu maldito orgulho, mais uma vez.

Mas eu queria muito dizer.

E queria muito que você soubesse que eu queria.

Outubro

Tem dias roxos. E tem morte também.
É o mês que estrangulo palavras, porque outubro me dói.

Outubro só não é pior que dezembro.
Pode acreditar!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cheguei firme, cheguei convicto. Daria um beijo na testa daquela menina enquanto ela estivesse dormindo e partiria o mais rápido possível. Sequer tirei a chave do contato. Ah, meu Deus, que farsa! Abri a porta e atravessei a sala. Subi as escadas. Perto. O corredor estava muito escuro, como sempre. Ela nunca deixava nenhuma luz acesa durante a noite. Lembrei do dia em que quebrei minha perna. Lembrei da briga. Dos insultos. Os copos quebrados. Seria melhor deixar apenas uma carta? Dar um telefonema? Ou não fazer nada? O que doeria menos nela? E em mim? Eu sou tão exagerado. Eu estou parado no meio desse corredor escuro segurando uma flor que eu nem sei o nome. E eu quero chorar. Eu quero chorar. Mas não choro. Quando meus olhos começam a arder, logo penso no meu pai. Se eu chorar, ele me parte a cara. Ele morreu há muitos anos, mas ainda pode me partir a cara, eu tenho certeza. Droga! Eu ouvi mesmo esse barulho? Será que ela está acordada? Estúpido! Como eu sou estúpido! Desci correndo as escadas, não olhei para trás. Tranquei a porta e joguei as chaves no canteiro.

Eu vou mandar um e-mail.

Seguinte, gata... Tou partindo. Quando a neve desaparecer, eu volto.

terça-feira, 6 de outubro de 2009


- Quanto tempo!
- Desculpe ter entrado assim. Não resisti. Estava cansada de cartas.
- Seu cabelo cresceu um bocado.
- Não vai durar muito.
- Você estava chorando?
- Eu estava olhando aquelas pessoas na rua. Tão pequenas vistas daqui.
- Você fica tão bonita quando chora.
- Me poupe!
- Quase parece humana. Mas então você começa a falar e... Pluft!
- Ah... que saco! Eu só queria viver algo bonito, sabe?
- Sei. E sei também que é impossível.
- Você ainda tem aspirinas?
- Sim.
- Eu preciso tanto. Sabe, aspirinas. Muita dor aqui.
- Pra isso nem morfina resolve, coração.
- Mesmo?
- Falo por experiência própria.
- Então como eu faço?
- Não faz.
- Não?
- Não. Você não faz nada. Você só continua.
- Chorando?
- E bebendo. E fumando. E não conseguindo dormir. E saindo com aqueles seus amigos perdidos. Essas coisas todas que você já está habituada. Aliás, nós.
- Às vezes cansa.
- Mas você continua. Eu continuo.
- Mas e aquela gente toda ali embaixo?
- Aqueles casais?
- É.
- Oras, você não vê o que há por trás daquilo tudo?
- Vejo...
- E é isso o que você quer?
- Às vezes. Como agora, por exemplo.
- Tem certeza?
- Suas perguntas me matam!
- Então saia da sacada e pare de pensar nessas coisas idiotas!
- Eu só queria ser tão idiota quanto eles.
- Quer dançar?
- Busquei meus exames hoje...
- E então?
- Nada animadores.
- Sinto muito. Sinto muito mesmo.
- Não importa. Posso pegar as aspirinas?
- Você não quer mesmo dançar? Eu aprendi uns passos novos...
- Vou à farmácia.
- Toma! Mas já disse...
- Já. Queria ir ao teatro esta noite.
- Tenho plantão... Mas...
- Sozinha.
- Você pode voltar amanhã? Quero te ensinar os passos que aprendi.
- Talvez eu passe a semana toda aqui. Algum problema?
- De forma alguma. Faz companhia pro Bóris?
- Faço. Obrigada.
- Olha, se você quiser conversar sobre...
- Não quero. Não agora.
- Preciso ir. Promete não ficar mais na sacada?
- Tudo bem.
- Tem bastante comida que você gosta aqui. Tente se distrair.
- Vou cagar montes no seu banheiro.

domingo, 4 de outubro de 2009

Um dia de monja

Um dia de puta

Um dia de Joplin

Um dia de Tereza de Calcutá

Um dia de merda

Caio F.

sábado, 3 de outubro de 2009

Cuidado com a tristeza. Ela é um vício.
(Gustave Flaubert)



- e é mesmo!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente

Olha bem pra mim ― tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito?
Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente.
Caio Fernando Abreu
Para ser franca, eu saio por aí dizendo que vou cair fora dessa, tomar jeito, endireitar e coisa e tal, mas isso é uma grande mentira. Uma das milhares que eu conto todos os dias. Pra mim. Pro mundo. Porque não é fácil. Porque se fosse fácil, eu ainda sim complicaria ao máximo. E eu posso. Eis um dos meus poucos dons: o poder de complicar.

Ah, parar de beber não vai mudar nada.
Entrar pro yôga e fazer origami também não.

Minha vida é um desastre e eu bato a porta gritando FODA-SE - como se eu ainda fosse adolescente mimimi.

- A verdade é que uma boa putaria alivia e justifica qualquer coisa. Vai dizer que não?
E é disso que eu preciso. Do contrário, logo estarei ouvindo Los Hermanos... E aí, meu amigo... Melhor nem pensar...

terça-feira, 29 de setembro de 2009


Ainda que você tente se controlar, inevitavelmente, acabará por seguir os rastros dela. Lambendo os restos, os cacos e as quinas que ela te deixou. Porque é só isso que você é capaz de fazer: rastejar e lamber.

E ela nem te considera.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Só que dessa vez doeu menos, bem menos. Acho que a gente vai se doendo e se doendo até que acostuma, deixando de lembrar o tanto que doía. Então ri das cartas que escreveu, das bobagens que falou e menospreza as lágrimas que derramou. No final a gente solta um riso meio bobo, faz uma cara meio assim querendo dizer que não tem jeito não, toma um café amargo pra poder seguir em frente. Levanta da cama e lembra de regar as plantas, trocar a fechadura, tratar da gastrite e visitar o cabeleireiro. Porque o cabelo cresce, criatura! E um dia a gente se olha no espelho e toma um susto daqueles. Chega também a hora de pintar as unhas para não roer mais. E a gente não rói.

Senta na cadeira de balanço, solta um suspiro de alívio e espera o próximo vendaval chegar pra foder tudo de novo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ó, e antes que eu me esqueça: é melhor você não se animar. Os móveis estarão todos no teto e agora cada uma de nós vai pro seu canto. E ponto. Não, não vai adiantar fazer essa cara de desentendida, olhar pros lados fingindo que dessa vez eu estou a falar com as paredes. Meu bem, não tenha grandes esperanças. Melhor: não tenha esperança alguma. Você já aspirou todas as cores desse lugar e eu me cansei. Porque eu sempre acordava sobressaltada toda vez que o mundo estava dormindo. Então pelo espelho eu te via sonhando ao lado e isso me fazia sentir uma imensa vontade de cortar teus cachos. É, a gente se trai por qualquer bobagem.

Que droga, o diazepam acabou...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Então eu fico aqui declamando meus horrores pra ver se alguém finalmente se enjoa do meu nojo.

A verdade é que eu ando terrível...


Impossível evitar aquelas esquinas, bares e calçadas da Augusta.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Desisto. Minha auto-estima se matou. Esfrego a cara no chão e me afogo no seco.

Vou me dissolver nisso que não é de ninguém: porra nenhuma.

Deus deve amar os imbecis, pois fez uma porrada deles. Inclusive eu.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Espero que você encontre esta carta. Por isso mesmo a deixei junto com sua caixa de froot loops em cima da mesa. Pois é, campeão, Curitiba me deu no saco e estou caindo fora. Larguei o curso de jornalismo. Vou pra Rússia, já que lá o teor etílico permitido das bebidas me atrai muito mais. Vendi o microondas, a máquina de lavar e a torradeira pra vizinha do 74, pobre coitada. Mas eu precisava de um pouco mais de grana e esse foi o jeito de conseguir. Hoje pela manhã aquele seu amigo baterista veio aqui atrás de notícias suas e eu contei que você morreu. De overdose. Te encontraram no meio da rua. Agora você está no IML como indigente faz uns três dias, porque eu tive vergonha de reclamar o corpo. Quero mais é que ele vá lá te procurar. Admito que chorei acreditando no que eu mesma estava contando. Sempre fui mitomaníaca, mas acho que agora passei dos limites.

Bum! Mentira de novo!

Olha só, estou de partida e dessa vez é pra sempre. Tua mãe me irrita horrores e é uma vagabunda de marca maior, só aparece aqui pra me pedir dinheiro e você sabe. Xinguei muito essa biscate no telefone hoje.

Deixo meu computador para você, sem essa merda tu não vive mesmo. Além disso, quem sabe assim você me perdoe por ter estourado novamente as cordas da guitarra. Levo comigo os livros de filosofia, os discos da Enya e o álbum de fotos. Não preciso de muitas coisas para onde eu vou.


Esta não é uma carta de despedida. Apenas de esclarecimento.

Aguarde meus postais.


ps: Borzoi morreu ontem a noite e isso é verdade. Não quis te ligar, não quis te preocupar nem nada. Sei do quanto você gostava daquele peixe. Dei descarga -rest in peace.

domingo, 13 de setembro de 2009

Esta madrugada tive vontade de te ligar para saber do seu paradeiro, como se isso adiantasse. Tive também vontade de tomar um chá. Mas estava quente demais e no calor minhas vontades derretem. Inevitável: eu sempre arrumo uma desculpa para tudo. O relógio já marcava 3:30, então fui para a varanda fumar aquele cigarro que guardei a semana inteira. Era o último. Não consegui sequer dar a primeira tragada. Apenas o segurei entre os dedos e deixei queimar, como se fosse um incenso. Do nada me veio um ódio muito grande e eu nem sabia do quê. Acho que foi de você. De mim.

Eu me deitei no chão gelado e esperei isso passar tentando resistir para não fechar os olhos, afinal, seria deprimente demais. Imagina se alguém me visse nesse estado? Não, ninguém me veria. Ou veria? Ahh, que merda! Nem isso eu era capaz de responder. E o ódio não passava e eu não esfriava. Diabos! Peguei o celular. Disquei. Caixa postal. Caixa postal. Caixa postal.

EU NÃO QUERO DEIXAR PORCARIA DE RECADO NENHUM PARA VOCÊ!

Eu só queria saber como você está. Eu só queria ouvir a droga da sua voz, entendeu? Eu só queria poder tomar um chá, comer uns biscoitos na cozinha e conversar um pouco, cazzo! Eu só queria te contar uma parábola.

E dizer que naquele ambiente escuro ele não pôde deixar de reparar na garota grande que usava decote. Que dela se aproximou, como um retardado. Mas que ela não deu bola, esnobou. Que ele ficou mais retardado ainda, querendo puxar assunto, querendo puxá-la pra perto de si. Que a música era alta. E ele ansiava pelo feedback dela. Que todos transpiravam álcool e cigarro. Que a lei anti-fumo ainda não estava vigorando. Dizer que ela ignorou, deu as costas e sumiu. Mas que voltou e deu atenção. Então o erro. O erro absurdo. Tão retardada quanto ele, quanto qualquer um ali. Estúpidos.


Nada pessoal.

Eu estou aqui deitada nesse chão gelado, com meus olhos fechados, tentando dissipar esse calor infernal que está fazendo...

E agora eu não tenho nenhum cigarro para me acalmar. Eu fico aqui nesse estado hiperativo por dentro, com centenas de coisas passando pela minha cabeça e querendo arremessar meu celular no jardim. Eu espero que acerte bem nas flores da minha mãe. É.

Vai amanhecer, vai ser domingo. Vai ser um inferno e minha mãe vai se queixar das flores.

HEHEHE, dane-se.




Se ao menos dessa revolta, dessa angústia, saísse alguma coisa que prestasse.

Caio F.




Quieta garota, cale sua boca,
Faça a Helen Keller e fale com os quadris.

sábado, 12 de setembro de 2009

Solidão, solidão minha.

Goste apenas de mim e me afague os cabelos. Conte uma história bonita que me faça sorrir. Ame meus pés, chupe o meu dedinho torto. Estrale meus dedos, me deixe também um pouco de dor. Sou meio masoquista às vezes, você sabe. Sente-se aqui do meu lado e me traga vodka. Procure um isqueiro e acenda meu cigarro. Diga que isso vai acabar com a minha vida, tome conta de mim. Cante algo do Cowboy Junkies. Só goste de mim. Só goste de mim.

Sábados

Têm dias em que chove por dentro e o pensamento inevitavelmente vai procurar aquilo que nos falta. Chovem ratos por aqui e eu me distraio. É uma hora estúpida pra aprender a nadar quando você já está se afogando...

Tudo bem.



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

"...sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro pra viver a minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não se casava com o outro. Pouco me importava."

Charles Bukowski

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Então desabar de joelhos na calçada da Augusta e observar a chuva que não cai, sentir o vômito que não sai. Amargar teus ódios insolúveis, forçar a vista na ânsia de encontrar um rosto conhecido. Nada. Ninguém. Apenas ouvir os risos das putas, sentir a heroína correr nas tuas veias. Quente. Conviver passivamente com tudo que ameaça ser mas não é. A tua faca cega que te impede o suicídio.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda.

Leminski

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mas nós somos como as lagartixas que perdem o rabo: logo um rabo novo cresce no lugar do velho. Assim é com a gente: logo a vida volta à normalidade e estamos prontos a amar de novo.
A saudade doída passa a ser só uma dorzinha gostosa.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– O Cemitério”

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Todos já se foram
sobraram só os cacos
os restos
e os tons tristes

Dorme

Dorme, que a vida é frágil
e teu corpo não comporta
tanta injúria
destes teus porres homéricos

Fode

Fode, mas ainda ama
porque o amor é canalha
e te chama de vadia

Lambe

Lambe essas feridas
sente o gosto
do teu próprio sangue
que não é dry martini

Engole!

Agora engole

E sofre

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Mais uma dose
de solidão
ergamos nossos copos
façamos mais um brinde

Um brinde aos traidores
e aos traídos
aos amargos
e doloridos

Brindamos
tragamos
sentados nesse bar
observamos o vento levar as cinzas

E assim
recolhemos todos esses pedaços
é só vida
não há o que reclamar.

sábado, 22 de agosto de 2009

Pega a garrafa e os cigarros e sai. A gente sempre sai, né, sempre inventa um bom motivo e sai. Pega o livro, os cigarros, e sai.
Ok, eu sinto saudade. Assim mesmo: S A U D A D E. Espaçadamente. Com vãos entre uma letra e outra. Enormes vãos. E é aquela saudade que, quando você se distrai, solta um suspiro e coloca a mão no queixo, te faz baixar o olhar e o direciona pro canto direito para contemplar o vazio. Sinto saudade dos seus beijos no meu pescoço, que pareciam ser a cura da minha afefobia. Até sua arrogância lhe caía bem. Saudade de dominar a minha paciência para não esbravejar contigo. Eu sempre tão tensa, sorrindo nervosa e a sua voz calma e hesitante como de quem fumou cannabis a vida inteira. Mas tudo acabou do mesmo modo como começou, sem uma linha de horizonte.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Raspas e restos me interessam

Eu sabia, eu sempre soube: restariam apenas as lembranças.

"Migalhas dormidas do teu pão", não é?

São tempos difíceis, acredite. Acordar e sentir esse frio absurdo. Querer vodka, querer cigarro, querer gente. E agora é tudo diferente. Querer gente. Querer gente. Algo que eu nunca quis antes: gente. Podem me olhar como se eu fosse louca. Pois bem, é claro que eu enlouqueci!
Não sinto sabores há dias, não sinto nada que não seja gosto de sangue e meus dedos sujos percorrem o suor da testa, formando desenhos grotescos. Somar misérias e mais misérias na maioria das vezes só resulta em mais miséria. Então, se eu tiver de me arrebentar, a solução é me arrebentar e pronto. E saber que não existe outro modo de fazer as coisas chega a ser encantador! E com a mesma calma com que me arrasto insone pela vida eu também sei que não encontrarei absolutamente nada. É essa calma que me amedronta.


Preciso tirar você dos meus dentes. Cuspir suas memórias. Vomitar meus traumas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

I'm numb

Eu fico aqui parada esperando o dia desabar.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Esses meus dias cinzas
Cigarro e bebida
Febre, torpor
Evitar o vômito
Engolir as palavras
Perder o esmalte das unhas

Esses meus dias cinzas
Miseravelmente só
Sentir o frio
Contemplar o horizonte
Ver a chuva cair

sábado, 15 de agosto de 2009

Vontade de fumar um cigarro sentada na guia, acompanhando a (de)cadência alheia.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Agosto é sempre um DESGOSTO.

domingo, 9 de agosto de 2009

A gente não deve perder a curiosidade pelas coisas

"Às vezes a gente vai se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é. Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas."
Caio Fernando Abreu

terça-feira, 4 de agosto de 2009

... ou talvez eu só precise de férias, um porre e um novo amor.

Caio F.


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

- Putz, hoje eu tô um cu.

- Você é o que você come, champs!

domingo, 2 de agosto de 2009

as pessoas só estão assustadas
não houve tempo e você sabe
as cenas se desenrolam sem um ensaio
sem sequer um roteiro
as pessoas pegam o que têm à mão
se você olha de longe pode perceber o medo
e o em si mesmo curiosamente animal das pessoas

Dirceu Villa – As pessoas só estão assustadas

sexta-feira, 31 de julho de 2009

ela o inventou e ele estava ali
ele a salvou
ela sorriu
dormir era bom agora
ele estava lá, segurava sua mão
ela quer dizer que ele a salvou
mas ela sabe que ele não existe
mas ela quer saber uma última vez
quer que lhe digam em voz clara
que ele não existe
e se existe
que ele fechou a porta
e quem a salvou
foi a sua esquizofrenia.

quarta-feira, 29 de julho de 2009


Eles estão indo embora, pouco a pouco. Indo embora, indo, indo, indo. Querem apagar a luz, ninguém suporta despedidas. Olhar para mim, ver essas marcas. Eles estão indo, mais cedo ou mais tarde, isso seria inevitável, eu sei. Mais um gole, outro trago. Eles deixam a porta entreaberta, para não fazer muito barulho quando outro se for. E eles estão indo, e eles não param. Uns demoram, outros vão o mais rápido que podem. Eles estão indo. Eu não posso impedir. Mais um trago e outro gole, eu os vejo partir. Eles, ah, eles estão indo. Minhas unhas roídas, meu cabelo embaraçado e o tremor das mãos. Mais um gole, mais um gole e um trago. Outra garrafa, eu quero outra garrafa! Veja, eles estão indo! Por favor, ah, por favor, mais uma garrafa. Outro gole, e outro e outro e outro, uma tragada.

terça-feira, 28 de julho de 2009

solução:

Eu vou matar isso com pequenas doses de álcool e ácido. Pedaço por pedaço.

domingo, 26 de julho de 2009

Eu não posso causar mal nenhum

a não ser a mim mesma.



- ah, eu vejos uns demônios por aí...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

E ela assiste, calada. Assiste a tudo, ela tenta mover os lábios, pronunciar alguma palavra, um som, um grunhido que seja. Mas nada. Nada. É a ausência dele. É a ansiedade dela. É ela.


- no espelho eu vi, era ela de novo.
ela é o nó que não ata.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

"(...) Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”
Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Que vontade de fazer uma coisa errada. O erro é apaixonante. Vou pecar. Vou confessar uma coisa: às vezes, só por brincadeira, eu minto. Não sou nada do que vocês pensam. Mas respeito a veracidade: sou pura de pecados.
Clarice Lispector

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sei que eu não tenho mais porra nenhuma a perder




Silenciosamente eu recolho meus cacos, meus trapos, meus restos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A dor da paixão não satisfeita é essa: o apaixonado deseja possuir o objeto do seu amor, mas ele escapa sempre. Por isso ele sofre. Movido pela dor, quer possuí-Io. Não sabe que, para que sua paixão continue a existir, é preciso que ele continue escapando sempre. A paixão só ama objetos livres como os pássaros em vôo.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Aos Apaixonados”

domingo, 7 de junho de 2009

he says

"Por que você não se desmonta inteira, se você não faz nada pra se manter junta?... Isso quer dizer, o que mantêm suas moléculas unidas?
Porque elas simplesmente se desejam e seguem seus instintos...
Imagine se elas agissem como você... você nem sequer existiria!"

sábado, 6 de junho de 2009

Ah, se ousássemos

Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama, e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul , e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você. Ah, se ousássemos.

Caio F.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sou forte mas também destrutiva. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado.

Clarice Lispector

sábado, 16 de maio de 2009

- É esse gelo por dentro que eu não consigo entender.Você se doou tanto quando eu não pedia, e no momento em que pela primeira vez pedi, você negou, você fugiu. É esse seu bloqueio de aço encouraçando o silêncio, eu não consigo entender...

Caio F. ~~

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Te enxerga, te manca, te fode.

Não quero mais o teu perdão. Não quero nada de ti.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.

Porque é preciso não perder a calma nunca.



Porque é preciso não perder a calma nunca.
Porque é preciso não perder a calma
Porque é preciso não perder
Porque é preciso...

domingo, 10 de maio de 2009

sábado, 9 de maio de 2009

Mais uma vez tudo oscila e tomba

quando eu falo que eu só me fodo nessa merda

não é brincadeira não, hein!

sexta-feira, 24 de abril de 2009