bueiro, me abrace forte!

sábado, 21 de junho de 2008


As horas não passam e a minha alma vaga nua pela casa, manchada, escura, atormentada. Eu já deveria ter me acostumado. Um copo de absinto na mão e muito tempo para pensar em 'por que é tão complicado?', 'quem está errando mais?', 'quem vai ceder primeiro?' entre outras retóricas. A fada verde sussurra todas as respostas e eu sou uma idiota a lamentar. Eu confabulo comigo mesma, e eu me traio à toa, então fica esse silêncio que ninguém explica e o medo de enlouquecer de vez, de nunca mais ter um segundo de sanidade. Isso me tira o sono. Eu quebro os espelhos, arremesso coisas, espalho minha raiva. Então tudo termina em uma bagunça, naquela miserável angústia, sem fim, sem volta, sem descanso. A paz e a calma que eu persigo sem merecer. Eu ando descalça, pisando em falso, me apoiando nos móveis, preocupada. Eu me seguro, me controlo, fujo, finjo, engano, minto, omito, eu faço qualquer coisa para parecer mais forte, mais segura, mais e mais, cada vez mais. Eu tento me conter. Acho que já estou pedindo arrego, entregando os pontos, desistindo de vencer.


- Eu vou acabar te ligando. De novo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Amor

São só mãos, e dedos, e o tremor das pernas. É só um produto sem prazo de validade. São só palavras. É só um sorriso falso, é só um 'eu te amo'. É só uma ligação e um 'Deus te abençoe'. O amor é só uma tormenta, uma areia movediça que quanto mais se mexe, mais se afunda. O amor é só um beijo. É só um abraço. Na maioria das vezes, nem isso. O amor nem diz 'obrigado'. O amor é só uma ferida aberta, uma hemorragia interna, uma infecção para a qual não há antibiótico. É só uma dor que nem a morfina ameniza. O amor é só uma perda de tempo. É só uma recusa. É só uma besteira qualquer. É só uma corda bamba. É só um precipício. É só uma ilusão, uma vertigem, um mal estar nada passageiro. São só reações químicas. É só fisiológico. O amor é só mais uma invenção. É só uma vontade. É só um desejo. É só um olhar perdido. É só uma desculpa sem motivos. O amor é só uma careta feia. O amor é só um 'oi'. O amor é só um calafrio. Só um movimento em espiral. O amor é só uma carta, um e-mail, um scrap. Mas quase sempre, nem isso. O amor passa reto e ignora. O amor é só mais uma brincadeira de mau gosto. É só uma risada. É só um cinismo. É só um desespero, um aperto no peito, é só uma falta de ar. É só um nó na garganta. São só lágrimas de pimenta. É só um choro contido. O amor é só uma navalha. O amor são cicatrizes, pontos, marcas profundas. É só uma sala vazia. O amor é só um monte de coisas, uma infinidade delas. É só algo sem explicação. Só um questionamento inapropriado.

- É só. E só.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

“... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É por que eu não quis o amor solene, sem compreender que a senilidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É por que ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. (...)”


Clarice Lispector

sábado, 7 de junho de 2008


Ela acordou. Sorriu para logo livrar-se dessa maldita obrigação. Vestiu seu conjunto preto. Dispensou a maquiagem. Seu café da manhã se resumiu a um pão integral com queijo branco. Nem sequer aquele café amargo que ela tanto gosta. Saiu apressada, era o grande dia. Ligou o carro e acelerou, subiu na guia, deu ré e atropelou a lixeira da vizinha. Ficou chateada por isso, bem que poderia ser a própria vizinha no lugar da lixeira. Baniu o pensamento. Pouco importava. Dirigiu por quase meia hora. Chegou ao estacionamento, calçou sua bota e puxou um cigarro. Era seu último cigarro. Respirou fundo. Tragou-o até o fim. Pisou na bituca. Viu um rapaz se aproximar. Piscou. Ele jogou um beijo. “Estou com sorte”. Tomou uma dose “só pra aquecer”. Seguiu em direção ao elevador.
- Vigésimo quarto, por favor.
- Mas a senhora não...
- Hoje é meu grande dia, Adamastor.
- Quer dizer que a senhora então...
- Vigésimo quarto!
- Sim senhora.
As portas se abriram. Ele estava sentado em sua sala. A velha gravata roxa que não combinava com nenhum terno.
- Acho que esse lugar agora é meu.
- Você não o ocupará por muito tempo.
- Foda-se.
- Você não se envergonha do que fez?
- Você sabe que não.
- Eu deveria matá-la.
- Eu sei.
- Você também sabe que eu infernizarei sua vida?
- Como sempre.
- Desgraçada! Desgraçada!
- Levante-se e sirva-me algo.
- Água ou chá?
- Você...

Beijaram-se.

Seus dedos percorriam a parede. Desenhavam, mesmo sem querer, símbolos místicos. Ela estava desorientada. Desesperada, completamente, desesperada. Há cinco dias não bebia nada, não fumava, não cheirava, não dava e não dançava. “Abstinência, menina” – ela dizia para si mesma. Qualquer ruído a atormentava e fazia sua cabeça latejar. Um sopro gelado alcançou sua nuca. Imaginou que fosse ele com mais uma de suas infantilidades. Mas ele não estava lá - não era o dia de estar. Ele estava comendo outra, certamente. Era sempre assim. No sexto dia ele retornaria. Então, eles desfrutariam de bebidas, drogas, sexo e dança. Lembrou do que seus amigos lhe diziam “isso não é vida, criança”. “Meu cu pra eles” ela então respondeu gritando alto em seu quarto vazio, escuro e triste. Não importava os cinco dias de angústia, de desespero, de solidão. Só importava mesmo o sexto dia. Era apenas isso que ela queria.


- Treze horas para a agonia acabar. E depois, vinte e quatro horas para recomeçar.

domingo, 1 de junho de 2008

Meu maior prazer é mentir pra você.

Com licença, vou colocar minha fantasia de mulher apaixonada.


- Comi sua mãe ontem, bjs.

Baby, eu já perdi o juízo. A luz ficou oscilando e a minha sombra safada se fundiu com a parede. Uma tarântula passeava pelo piso sujo. Perdoe-me, mas eu perdi o juízo. Ele estava jogado bem naquele canto, mas acabou fugindo assustado com o barulho que eu fiz quando cai da cadeira. É que eu estava rindo da cara que você faz toda vez que me vê beber cachaça. Desculpe, o juízo não voltará, ele me deixou aqui rindo sozinha da sua cara. Toda vez que eu bebo cachaça você fica desse jeito. Não, eu não aguento. Foi culpa da luz que oscilava, 'ora mostrava, ora ocultava'.

- 'Se de graça nem o veneno
que dirá a cachaça...'

'Ela sabia que não era justo usá-lo,
mas ele também a usaria,
inventando-a a fim de satisfazer suas fantasias,
afinal
todos usamos uns aos outros
não é mesmo,
não é assim que tocamos a vida?'