bueiro, me abrace forte!

sexta-feira, 21 de março de 2008


O trem parou. Ou talvez ainda estivesse em movimento. Coisa que não fazia a mínima diferença para mim. Eu continuava observando a sujeira no vidro da janela. Era esverdeada, e, ao mesmo tempo, amarronzada. “Isso é muito triste”, disse a senhora ao meu lado. Acredito que ela não se referia ao meu comportamento. Mas, sem dúvida, veio a calhar. Encaixava-se perfeitamente. “Isso é muito triste”. E é mesmo. Decidi ouvir música. Coloquei meus fones (isso é muito triste, pensei). Ouvia String Quintets – Sabbath Blood Sabbath. Mas isso não era triste. Triste era continuar olhando fixamente a sujeira no vidro... Sem perceber, cheguei à estação final. A velha levantou-se com seu acompanhante e eu ainda permaneci sentada. E isso me deixou triste: eu não tinha acompanhante. “Ao menos ainda sou jovem” - tentei, em vão, me confortar. Esse pensamento me deixou muito mais triste, pois, se jovem estou só, ao chegar à velhice, como será? Isso é muito, muito, muito triste. Alguém me cutucou. Tirei os fones. O sujeito disse-me que já estava na hora de desembarcar. Aceitei a “sugestão” do estranho. Aceitar a sugestão de um estranho tornou minha manhã muito mais triste... Atravessando a avenida encontrei um colega que passou por mim dizendo um “oi, tudo bom?”. Meu único gesto foi levantar a sobrancelha (não há nada mais triste que a minha apatia matinal). Deixei o colega passar adiante. Eu não tinha papo - e eu não queria papo. “Deve ser TPM” - mesmo não sendo. Todavia, é uma desculpa plausível...
Eu tenho 19 anos, e ficaria feliz se alguém fosse capaz de me compreender. Eu tenho 19 anos e sei que jamais existirá alguém com tal capacidade – e isso... Isso é muito triste!

sábado, 15 de março de 2008


Parei no ponto de ônibus. Enquanto aguardava minha condução, fiquei contemplando nuvens pesadas que passavam no céu e, de repente, comecei a imaginar quantas pessoas, como eu, estariam naquele momento imobilizadas dessa maneira. Nenhuma, concluí. Meus pensamentos foram para longe quando um trovão ressoou. Despertei do quase transe. Acabei rindo da minha própria tolice. Comigo riu também um rapaz que me observava do outro lado da rua. Talvez estivesse rindo de mim. Não sei. Preferi conter meu riso desajeitado. Mas ele continuou sorrindo, maliciosamente. Corei e desviei o olhar. Voltei a admirar o céu, mas nuvens negras já o haviam preenchido completamente. Sentia-me incomodada com aquela situação. Não passava ônibus, o temporal precipitava-se e o sujeito continuava ali, na mesma posição, com o mesmo sorriso. Minha irritação agravou. Alguns minutos transcorreram e eu me encontrei encharcada. Mas isso ainda poderia piorar. Assim, decidi caminhar... Eu já não precisava de ônibus, eu já não precisava daquele olhar desafiador que vinha do outro lado da rua. A raiva em mim aumentava, gradualmente, quando lembrava como eram verdes e divertidos os olhos daquele rapaz. Definitivamente eu não precisava disso, afinal, eu só queria contemplar o céu e as nuvens enquanto esperava meu ônibus chegar. Minha mente ficou presa àquele momento, e então, escorreguei e caí. Sim, tudo indicava o quão perfeito meu dia iria terminar. Apoiei minhas mãos ensanguentadas no chão e me recompus. Restavam apenas um quilometro até minha casa. Apenas um quilometro. Eu mancava, sangrava e praguejava...
Finalmente após um século e meio (aproximadamente), eu cheguei em casa. Eu somente desejava três coisas. Primeira coisa: banho. Segunda coisa: sopa. Terceira coisa: sofá. Das três, eu apenas consegui a primeira e fiquei igualmente contente. Ao menos banho eu tive.
Amanhã será outro dia - tão ruim quanto esse, espero.