bueiro, me abrace forte!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Por isso meu ódio cresce. Quando atingir um nível insuportável, não será difícil: basta uma lâmina contra o pulso. Nem isso. Uma simples picada de alfinete. Menos até. Um arranhão. Talvez aquele menino volte, talvez eu esteja mesmo sozinho, talvez você ache que sou louco. Queria que você entendesse que apenas contei o que realmente aconteceu, e se isso que aconteceu é loucura, quem enlouqueceu foi o real, não eu, ainda que você não acredite. Não tem importância. A história é essa, talvez eu tenha falado mais do que devia, mas tenho uma certeza dura de que nem você nem os outros todos perdem por esperar. Cuidado: eles estão aqui: à nossa volta: entre nós: ao seu lado: dentro de você.
Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

E ela continua a esperar.


Sentada, há mais de três horas. Fazendo a mesma cara e olhando com a mesma saudade. Saudade de quê? Talvez, e só talvez, de um tempo que agora parece nunca ter existido. Ainda sim, ela sabe - e sabe muito bem - que não existe nada para esperar. Dói no peito, bem profundo... Como há muito tempo não doía. Mas é sempre assim... Sempre. E não importa o quanto ela seja racional. Isso nunca fez diferença nas histórias que ela viveu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Você tem cinco minutos para se entregar a uma doce tristeza.
Curta-a, abrace-a, descarte-a.

Prossiga."

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

As placas na estrada
Ela não viu
Passou tão rápido
Na rota pro inferno
Que só sentiu um arrepio
Rasgou o vestido às gargalhadas, como se fosse papel. Como se fosse piada. E talvez fosse. Aquele vestido agora se transformava nos pedaços dos seus velhos sonhos.
Ela já sonhou demais.

E hoje ela quer dormir no chão.

domingo, 26 de outubro de 2008

"O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece. " - Bukowski

domingo, 28 de setembro de 2008

Você partiu. Tentei ser cautelosa ao segurar meu coração nas mãos. Mas fracassei e ele se espatifou no chão. Senti a dor e doeu ainda mais e mais ao ver o sangue se espalhando rapidamente e chegando até as escadas, por onde ele desceu fazendo trilhas, estradas e avenidas. Vermelho e vivo, tanto que me queimou a retina ao ver seu reflexo nele. Do meu coração não sobrou grandes cacos, embora eu quisesse guardá-los para você. Sobrou apenas um buraco no meu peito. Escuro e dolorido. E toda vez que eu grito seu nome à noite esse buraco se dilata e pulsa no vácuo.

sábado, 27 de setembro de 2008

e se questionava se ele, bem ali do seu lado, sentia o mesmo que ela. E se desesperava nos próprios pensamentos. E baixava a cabeça, tentando esconder a aflição. E mordia os lábios e fechava os olhos com força, porque se sentia culpada demais por imaginar tantas coisas em tão pouco tempo... E se perguntava até quando poderia suportar aquela situação. E se perguntando e perguntando não chegou à conclusão alguma. Estalou os dedos, bateus os pé no chão e mexeu nos cabelos. Suspirou, mas sem alívio. Então engoliu o choro e sorriu.

- porque o tempo é curto. e o amor é muito. e ela é lenta. e ele não se toca.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

te quebraram as pernas

e agora estás aí, chorando... fungando descontroladamente. Soluça mais alto. Chora mais. Bota pra fora seu rancor. Sua agonia fora de controle. Admite que és um louco. Admite que te esmigalharam as pernas, os ombros e o crânio. Porque era muito peso e você se achava muito mais forte, mas viste que não. Mas só depois de romper os ligamentos, os tendões... Só depois de constatar a hemorragia interna. Acariciar os hematomas e olhar bem de perto os farelos dos teus ossos brancos... Ah, e lembras também da fratura exposta? Do sangue todo vermelho escorrendo pelo corpo, em ritmo lento. Porque parece mesmo que foi cena de cinema.
Mas ta aí... Se achando ainda com direitos. Empinando teu nariz pequeno. Dizendo que não doeu tanto assim e que vais sobreviver sem nenhuma cicatriz.
Engana-se. Engana-se mais e mais. Todo dia.

domingo, 14 de setembro de 2008

descarga elétrica

AQUELA sensação. A velha sensação...

Passou a corrente pelo meu corpo. O seu tão junto do meu, por muito pouco não virou um só - faltou um quase pra fundir de vez. Saiu pelos poros, entende? Tá, eu sei que é loucura minha. Sei também que fantasio muito. Mas, rapaz, esse teu sorriso ficou comigo. Toda vez que me olho no espelho ele tá lá. Juro, ficou comigo também a sua voz nos meus ouvidos e a tua mão na minha.
Impregnou de tal maneira que no sono você voltou. A voz, as mãos, teus óculos e o sorriso. Tão real que a sensação voltou. Elétrica.

E o sorriso ainda está aqui.

sábado, 30 de agosto de 2008

um filme aí...

Comprovei que tudo que já foi escrito sobre o amor é verdade. Shakespeare disse: "as buscas terminam com o encontro dos apaixonados". Que idéia maravilhosa! Pessoalmente, eu nunca passei por nada parecido com isso. Mas estou convencida de que Shakespeare já. Suponho que penso no amor mais do que deveria; me admira o grande poder do amor em alterar e definir as nossas vidas. Shakespeare também disse que o amor é cego. Isso sei que é verdade. Para alguns, sem explicação, o amor se apaga. Para outros o amor se vai... ou brota quando menos se espera, mesmo que seja só por uma noite. No entanto, existe outro tipo de amor. O mais cruel... aquele que quase mata suas vítimas. Chama-se "amor não correspondido". E nesse tipo, sou experiente. A maioria das histórias de amor falam das pessoas que se amam mutuamente. Mas, o que acontece com os demais? E as nossas histórias? Aqueles que se apaixonam sozinhos? Somos vítimas de uma relação unilateral. Somos os amaldiçoados dos amantes, somos os não amados. Os mortos vivos, os deficientes sem estacionamento reservado...
Eu entendo como é se sentir a menor e a mais insignificante das criaturas do mundo e isso faz você sentir dores em lugares que nem sabia que existiam no corpo. Não importa quantos penteados novos você fizer ou em quantas academias entrar ou ainda quantas taças de frisante você tomar com as amigas, você ainda vai pra cama toda noite pensando em cada detalhe, imaginando o que fez de errado ou como pôde ter interpretado mal e como foi que por um breve momento você achou que podia ser tão feliz. Às vezes você consegue até se convencer de que ele, num passe de mágica virá até a sua porta, e depois de tudo isso, demore o tempo que tenha que demorar, você vai para um lugar novo, vai conhecer pessoas novas que fazem você se valorizar e pedacinhos da sua alma vão finalmente voltar. E aquela época turva, aquele tempo ou a vida que você desperdiçou começarão a desaparecer...

Iris Simpkins

domingo, 10 de agosto de 2008

"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo." (Fernando Pessoa)

Sentir demais acaba me deixando dolorida, desgostosa, um pouco mais vazia. Sentir demais... Eu assisto minha própria sombra perambulando em busca de uma alma, ou talvez seja a minha alma procurando por uma sombra. Eu sei lá pra quê tudo isso! É coisa impossível de descobrir. Prefiro abstrair. É como se eu tentasse deixar tudo flutuando, suspenso, em stand by. E desejar o que não posso e querer o que não quero ter de fato. São esses detalhes que me enlouquecem, como naquele dia que eu descobri uns boatos insanos sobre mim, mas não quis negar nem afimar nada. São essas coisas que eu deixo sem explicação... Pelo meu cansaço. Porque cansa, sabe?!

- Então ele se despediu, me beijou e disse que foi um prazer ter me conhecido.
Daí eu fiquei com aquela cara de besta!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Ela preparou brigadeiro de panela. Cantarolava ‘foda-se o mundo inteiro, eu to comendo brigadeiro’. Em minutos ela já vai se arrumar, fazer uma make up e bagunçar os cabelos, porque hoje ela vai se embriagar, até atingir o tão almejado coma alcoólico... O Prozac está em falta, então o jeito é se virar como dá. Improvisar e improvisar.

- Os sonhos dele eram os pesadelos dela. Mas se ela fecha os olhos fica incapacitada de imaginar sua vida sem ele.

domingo, 20 de julho de 2008

"Eu escrevo pra não vomitar, porque é um mundo de sentimento aqui dentro e não tenho com quem compartilhar ou não tenho como compartilhar. Nunca aprendi e guardo e guardo. Uma hora, mingua ou transborda. Conforme for. Não queria ser tão subliminar. Não queria que os detalhes todos fizessem tanta diferença. Não queria que as datas me doessem. Fico imaginando se não sofro à toa. Penso que sim, mas hoje sei que não é escolha e não me culpo mais.

- Pode mexer no meu cabelo agora. "



Briza disse tudo: http://www.brizacomz.blogspot.com/

sexta-feira, 4 de julho de 2008

E finalmente ele chegou. Mandou um beijo e piscou. Ah, aqueles olhos castanhos e os mesmos cabelos escuros. Mas agora havia algo novo: a barba... Ele tragava seu cigarro e me dizia as coisas que eu sempre quis ouvir. Seus lábios se moviam com tamanha harmonia que eu me embriagava só de olhar, eu perdia o meu limite e era jogada no abismo que eu escolhia. As suas mãos me tocavam com a destreza que só ele tinha, da maneira que eu pedia. Os abraços tão envolventes me tiravam do chão, me impulsionando aos céus. Acho que ele aparece na minha vida só para me divertir, só para insistir em que eu viva mais um pouco, aos poucos. Ele me faz um bem inquestionável, porque, de repente, o mundo inteiro cai sobre mim e não mais me esmaga. A dor é presente, mas eu não padeço.

- O que eu sinto é a vontade de me trancar dentro de você. Para sempre. Mesmo que o pra sempre seja pouco.

sábado, 21 de junho de 2008


As horas não passam e a minha alma vaga nua pela casa, manchada, escura, atormentada. Eu já deveria ter me acostumado. Um copo de absinto na mão e muito tempo para pensar em 'por que é tão complicado?', 'quem está errando mais?', 'quem vai ceder primeiro?' entre outras retóricas. A fada verde sussurra todas as respostas e eu sou uma idiota a lamentar. Eu confabulo comigo mesma, e eu me traio à toa, então fica esse silêncio que ninguém explica e o medo de enlouquecer de vez, de nunca mais ter um segundo de sanidade. Isso me tira o sono. Eu quebro os espelhos, arremesso coisas, espalho minha raiva. Então tudo termina em uma bagunça, naquela miserável angústia, sem fim, sem volta, sem descanso. A paz e a calma que eu persigo sem merecer. Eu ando descalça, pisando em falso, me apoiando nos móveis, preocupada. Eu me seguro, me controlo, fujo, finjo, engano, minto, omito, eu faço qualquer coisa para parecer mais forte, mais segura, mais e mais, cada vez mais. Eu tento me conter. Acho que já estou pedindo arrego, entregando os pontos, desistindo de vencer.


- Eu vou acabar te ligando. De novo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Amor

São só mãos, e dedos, e o tremor das pernas. É só um produto sem prazo de validade. São só palavras. É só um sorriso falso, é só um 'eu te amo'. É só uma ligação e um 'Deus te abençoe'. O amor é só uma tormenta, uma areia movediça que quanto mais se mexe, mais se afunda. O amor é só um beijo. É só um abraço. Na maioria das vezes, nem isso. O amor nem diz 'obrigado'. O amor é só uma ferida aberta, uma hemorragia interna, uma infecção para a qual não há antibiótico. É só uma dor que nem a morfina ameniza. O amor é só uma perda de tempo. É só uma recusa. É só uma besteira qualquer. É só uma corda bamba. É só um precipício. É só uma ilusão, uma vertigem, um mal estar nada passageiro. São só reações químicas. É só fisiológico. O amor é só mais uma invenção. É só uma vontade. É só um desejo. É só um olhar perdido. É só uma desculpa sem motivos. O amor é só uma careta feia. O amor é só um 'oi'. O amor é só um calafrio. Só um movimento em espiral. O amor é só uma carta, um e-mail, um scrap. Mas quase sempre, nem isso. O amor passa reto e ignora. O amor é só mais uma brincadeira de mau gosto. É só uma risada. É só um cinismo. É só um desespero, um aperto no peito, é só uma falta de ar. É só um nó na garganta. São só lágrimas de pimenta. É só um choro contido. O amor é só uma navalha. O amor são cicatrizes, pontos, marcas profundas. É só uma sala vazia. O amor é só um monte de coisas, uma infinidade delas. É só algo sem explicação. Só um questionamento inapropriado.

- É só. E só.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

“... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É por que eu não quis o amor solene, sem compreender que a senilidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É por que ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. (...)”


Clarice Lispector

sábado, 7 de junho de 2008


Ela acordou. Sorriu para logo livrar-se dessa maldita obrigação. Vestiu seu conjunto preto. Dispensou a maquiagem. Seu café da manhã se resumiu a um pão integral com queijo branco. Nem sequer aquele café amargo que ela tanto gosta. Saiu apressada, era o grande dia. Ligou o carro e acelerou, subiu na guia, deu ré e atropelou a lixeira da vizinha. Ficou chateada por isso, bem que poderia ser a própria vizinha no lugar da lixeira. Baniu o pensamento. Pouco importava. Dirigiu por quase meia hora. Chegou ao estacionamento, calçou sua bota e puxou um cigarro. Era seu último cigarro. Respirou fundo. Tragou-o até o fim. Pisou na bituca. Viu um rapaz se aproximar. Piscou. Ele jogou um beijo. “Estou com sorte”. Tomou uma dose “só pra aquecer”. Seguiu em direção ao elevador.
- Vigésimo quarto, por favor.
- Mas a senhora não...
- Hoje é meu grande dia, Adamastor.
- Quer dizer que a senhora então...
- Vigésimo quarto!
- Sim senhora.
As portas se abriram. Ele estava sentado em sua sala. A velha gravata roxa que não combinava com nenhum terno.
- Acho que esse lugar agora é meu.
- Você não o ocupará por muito tempo.
- Foda-se.
- Você não se envergonha do que fez?
- Você sabe que não.
- Eu deveria matá-la.
- Eu sei.
- Você também sabe que eu infernizarei sua vida?
- Como sempre.
- Desgraçada! Desgraçada!
- Levante-se e sirva-me algo.
- Água ou chá?
- Você...

Beijaram-se.

Seus dedos percorriam a parede. Desenhavam, mesmo sem querer, símbolos místicos. Ela estava desorientada. Desesperada, completamente, desesperada. Há cinco dias não bebia nada, não fumava, não cheirava, não dava e não dançava. “Abstinência, menina” – ela dizia para si mesma. Qualquer ruído a atormentava e fazia sua cabeça latejar. Um sopro gelado alcançou sua nuca. Imaginou que fosse ele com mais uma de suas infantilidades. Mas ele não estava lá - não era o dia de estar. Ele estava comendo outra, certamente. Era sempre assim. No sexto dia ele retornaria. Então, eles desfrutariam de bebidas, drogas, sexo e dança. Lembrou do que seus amigos lhe diziam “isso não é vida, criança”. “Meu cu pra eles” ela então respondeu gritando alto em seu quarto vazio, escuro e triste. Não importava os cinco dias de angústia, de desespero, de solidão. Só importava mesmo o sexto dia. Era apenas isso que ela queria.


- Treze horas para a agonia acabar. E depois, vinte e quatro horas para recomeçar.

domingo, 1 de junho de 2008

Meu maior prazer é mentir pra você.

Com licença, vou colocar minha fantasia de mulher apaixonada.


- Comi sua mãe ontem, bjs.

Baby, eu já perdi o juízo. A luz ficou oscilando e a minha sombra safada se fundiu com a parede. Uma tarântula passeava pelo piso sujo. Perdoe-me, mas eu perdi o juízo. Ele estava jogado bem naquele canto, mas acabou fugindo assustado com o barulho que eu fiz quando cai da cadeira. É que eu estava rindo da cara que você faz toda vez que me vê beber cachaça. Desculpe, o juízo não voltará, ele me deixou aqui rindo sozinha da sua cara. Toda vez que eu bebo cachaça você fica desse jeito. Não, eu não aguento. Foi culpa da luz que oscilava, 'ora mostrava, ora ocultava'.

- 'Se de graça nem o veneno
que dirá a cachaça...'

'Ela sabia que não era justo usá-lo,
mas ele também a usaria,
inventando-a a fim de satisfazer suas fantasias,
afinal
todos usamos uns aos outros
não é mesmo,
não é assim que tocamos a vida?'

sábado, 31 de maio de 2008


Eu venho com uma flor enrolada nos dedos. Não precisa se escorar no poste, hoje eu não vou te machucar. Você anda sofrendo tanto quanto eu, mas hoje eu te trouxe uma flor enrolada nos dedos. Deixa eu arrancar um sorriso bobo do seu rosto - "deixa eu te deixar sem graça". A gente senta aqui no chão e brinca de juntar os cacos dos nossos corações. "Dois prá lá e dois prá cá" e os que estiverem mais pesados eu mesma recolho... A gente fica aqui brincando de amizade, de cumplicidade, manchando a cara com todo esse sangue. Faz uma careta feia e esqueça que amanhã é sexta-feira. Fique calmo e faça silêncio agora que a chuva está caindo, encosta sua cabeça na minha e deixa meu cabelo molhar o seu. Deixa a chuva lavar esse sangue todo, meu amor.

- Fica sentadinho, L. Esse tamanho todo não significa nada. Você sofre tanto quanto eu.

sábado, 3 de maio de 2008


Talvez algum dia você venha a ler isso. Ou não. Tanto faz. Não faria diferença mesmo... Você continuaria se fingindo de desentendido. Você tão afiado, não é possível que já não tenha notado. Não apenas notou, mas também continua jogando com a minha mente. Estufa o peito e desfila e rodopia, faz questão de pousar a mão sobre meu ombro com força e a desliza pelas minhas costas. Olha para mim quando não estou olhando e disfarça. Você faz tudo isso com um sorriso divertido. Parece ser divertido mesmo zombar de mim. Então, continue. Continue me matando aos poucos. Caia sobre mim e esmague, me torça e me rasgue, role sobre mim e me esfole, deixe-me aos farelos. Farte-se da minha carne e me largue sozinha na estrada, como sempre. Talvez um dia acabe, ou não.
- Agora pode ir. Vai lá comer alguém.

domingo, 20 de abril de 2008



E ninguém poderia me salvar, poderia?
O abismo não é tão ruim assim. Eu acho que poderia ir além, cair mais e mais... Eu posso, não posso?
E a dor que você deixou aqui dentro, bem, eu não consigo anestesiar. Tudo isso só me faz querer chorar, gritar, rasgar-me inteira... Mas isso não resolveria nada, não é?


-Traga-me morfina, filhodaputa!

domingo, 13 de abril de 2008


Acho que bebi um oceano na noite passada. Ainda sinto seu gosto em minha boca. Ah, essa noite que durou meses! Despertei hoje cedo com manchas de sangue, hematomas e uma dor dilacerante. Fiz merda, com certeza... Mas e daí? A vida é assim mesmo, é uma merda só. Uma porra de uma merda sem fim.


Eu deveria ouvir mais a minha vodka, ah, eu deveria!

sábado, 5 de abril de 2008


Então após quarenta e cinco mil suspiros, seiscentos e vinte soluços, treze espelhos estilhaçados e uma garrafa de vodka, eu descobri que estou perdida e esgotada. Então, depois de setecentas mil lágrimas desperdiçadas e vinte e cinco milhões de abraços desejados, eu percebi que sempre estive só. Não obstante, após quinhentos bilhões de pesadelos sonhados e dois braços quebrados, eu entendi que nenhum príncipe me acordará e cair da cama é um pouco doloroso. Tudo isso só me faz achar que sou a pessoa mais triste do mundo e a única a criar fantasias nas quais eu ganho os beijos de alguém que sequer consegue me olhar por mais de dois segundos e sorrir... Há um amor que meu coração não suporta carregar, há uma dor que aos poucos consome minha alma por completo e há muito mais coisas que eu já nem posso contar.

sexta-feira, 21 de março de 2008


O trem parou. Ou talvez ainda estivesse em movimento. Coisa que não fazia a mínima diferença para mim. Eu continuava observando a sujeira no vidro da janela. Era esverdeada, e, ao mesmo tempo, amarronzada. “Isso é muito triste”, disse a senhora ao meu lado. Acredito que ela não se referia ao meu comportamento. Mas, sem dúvida, veio a calhar. Encaixava-se perfeitamente. “Isso é muito triste”. E é mesmo. Decidi ouvir música. Coloquei meus fones (isso é muito triste, pensei). Ouvia String Quintets – Sabbath Blood Sabbath. Mas isso não era triste. Triste era continuar olhando fixamente a sujeira no vidro... Sem perceber, cheguei à estação final. A velha levantou-se com seu acompanhante e eu ainda permaneci sentada. E isso me deixou triste: eu não tinha acompanhante. “Ao menos ainda sou jovem” - tentei, em vão, me confortar. Esse pensamento me deixou muito mais triste, pois, se jovem estou só, ao chegar à velhice, como será? Isso é muito, muito, muito triste. Alguém me cutucou. Tirei os fones. O sujeito disse-me que já estava na hora de desembarcar. Aceitei a “sugestão” do estranho. Aceitar a sugestão de um estranho tornou minha manhã muito mais triste... Atravessando a avenida encontrei um colega que passou por mim dizendo um “oi, tudo bom?”. Meu único gesto foi levantar a sobrancelha (não há nada mais triste que a minha apatia matinal). Deixei o colega passar adiante. Eu não tinha papo - e eu não queria papo. “Deve ser TPM” - mesmo não sendo. Todavia, é uma desculpa plausível...
Eu tenho 19 anos, e ficaria feliz se alguém fosse capaz de me compreender. Eu tenho 19 anos e sei que jamais existirá alguém com tal capacidade – e isso... Isso é muito triste!

sábado, 15 de março de 2008


Parei no ponto de ônibus. Enquanto aguardava minha condução, fiquei contemplando nuvens pesadas que passavam no céu e, de repente, comecei a imaginar quantas pessoas, como eu, estariam naquele momento imobilizadas dessa maneira. Nenhuma, concluí. Meus pensamentos foram para longe quando um trovão ressoou. Despertei do quase transe. Acabei rindo da minha própria tolice. Comigo riu também um rapaz que me observava do outro lado da rua. Talvez estivesse rindo de mim. Não sei. Preferi conter meu riso desajeitado. Mas ele continuou sorrindo, maliciosamente. Corei e desviei o olhar. Voltei a admirar o céu, mas nuvens negras já o haviam preenchido completamente. Sentia-me incomodada com aquela situação. Não passava ônibus, o temporal precipitava-se e o sujeito continuava ali, na mesma posição, com o mesmo sorriso. Minha irritação agravou. Alguns minutos transcorreram e eu me encontrei encharcada. Mas isso ainda poderia piorar. Assim, decidi caminhar... Eu já não precisava de ônibus, eu já não precisava daquele olhar desafiador que vinha do outro lado da rua. A raiva em mim aumentava, gradualmente, quando lembrava como eram verdes e divertidos os olhos daquele rapaz. Definitivamente eu não precisava disso, afinal, eu só queria contemplar o céu e as nuvens enquanto esperava meu ônibus chegar. Minha mente ficou presa àquele momento, e então, escorreguei e caí. Sim, tudo indicava o quão perfeito meu dia iria terminar. Apoiei minhas mãos ensanguentadas no chão e me recompus. Restavam apenas um quilometro até minha casa. Apenas um quilometro. Eu mancava, sangrava e praguejava...
Finalmente após um século e meio (aproximadamente), eu cheguei em casa. Eu somente desejava três coisas. Primeira coisa: banho. Segunda coisa: sopa. Terceira coisa: sofá. Das três, eu apenas consegui a primeira e fiquei igualmente contente. Ao menos banho eu tive.
Amanhã será outro dia - tão ruim quanto esse, espero.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Passei a noite tateando no escuro, procurando você. Sabia que a sua lembrança continuava viva em mim de algum modo. Era engraçado como eu me lembrava das suas doces palavras misturadas ao mesmo tempo a antigos ressaibos amargos e aos seus beijos enquanto eu tentava - em vão - me esquivar. Era cruel o modo que o seu abraço me deixava sem fôlego e o quanto eu gostava daquela sensação, enquanto você me segurava nada delicadamente junto ao seu corpo ou quando tocava meus joelhos ossudos. Era estranho que mesmo depois de me lembrar que você nunca estivera - e talvez nunca estaria - ali, continuei apalpando a escuridão, meus dedos cruzando aquele breu, incertos. Minha confusão aumentava - eu acho que sou sonâmbula - e adormeci me sentindo nos seus braços. Mas a manhã veio e você não estava com ela...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Encostada à parede do bar lá estava ela. Tinha nas mãos uma carta amassada, que há muito tempo desejava entregar para um rapaz que frequentava o bar. Porém, como todos sabem, ela jamais o faria. Não era sua culpa, era apenas medo. Um medo infantil, besta e talvez insano... Ela era cheia de paranóias e achava (na verdade, tinha plena certeza) que nenhum homem um dia iria gostar dela... Assim ela permaneceu o dia todo, até suas pernas cansarem. Então, mesmo lutando contra a fadiga do corpo, ela foi vencida. Sentou-se finalmente. A carta estava úmida pelo suor da sua mão, e pouco poderia ser lido agora. Já caíra a noite e uma garoa precipitava-se. Mas a garota permanecia ali, inalterada, alheia à chuva que se tornara torrencial, alheia ao mundo inteiro, incluindo cada criatura viva. Por fim, resolvida de que nada aconteceria, levantou-se, caminhou até a lixeira mais próxima e lá lançou o papel úmido e amassado (que a essa altura estava com grandes rasgos também)... Prosseguiu com seu andar pesado e lúgubre em direção a qualquer local que pudesse vender uma grande xícara de café expresso. Café! Era apenas isso que precisava. Bem forte e sem açúcar... Só isso para compensar mais um dia de anonimato diante daquele cara tolo, incapaz de ler nos olhos dela tudo o que continha naquela carta que nesse momento jazia numa lixeira estúpida (não que este não fosse um bom lugar, pensou).
Sem dúvida ela não fazia o tipo sensível, carente, ou qualquer coisa parecida. Não! Era apenas boba, mais uma boba com mais uma carta de amor que nunca foi entregue...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008


Cacos espalhados pelo chão denunciam o meu desequilíbrio. Acho que já quebrei todas as taças, ri de todas as minhas desgraças, tomei os goles proibidos e desejei todos os beijos secretos... Já lancei golpes e mesmo assim desisti das batalhas.
Deitada no chão, à luz da lua, meus sonhos enegreceram. Agora encubro tudo com versos pintados, versos esculpidos sem talento algum, tentando desfazer o não feito, apagando o escuro para errar novamente.
Quero errar de novo, eu preciso errar! Sentir a dor, o gosto amargo de mais um dia sem calor... Com frieza, aspereza, sem poder escorregar, sem nenhum pedaço de perfeição, sem os sonhos molhados...
Só, e somente só, a melancolia dos acordes e o brilho distante da lua. O uso perverso dos meus sentidos e o desejo intenso de perdê-los e vagar nos caminhos ocultos. Sem paredes, sem lembranças, apenas pelo prazer de não ter dúvida...
Na lascívia que se confunde com carência, tudo é passageiro. Desejo de nada, vontade de tudo... Foram ações reprimidas que me direcionaram, numa tentativa de fuga, para a bebida. Uma rebeldia idiota, que às vezes irrita, e também uma melancolia natural, rotineira. Todos os meus pensamentos me remetem a um clima de falecimento. O infinito não existe, a vida não passa de um confuso sonho. O amanhã nem sempre poderá existir, mas infelizmente, existe.